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quarta-feira, 12 de maio de 2010

A minha passagem com o 4º grupo da 3ª Companhia por Serpa Pinto (continuação)

(Por Abílio Hermenegildo)
(clica nas imagens para as aumentar) 

Distrito do Cuando Cubango
Em Agosto de 1973, não me recordo do dia, o nosso amigo Manuel Joaquim Relvas Ciríaco, resolve celebrar o seu aniversário com alguns dos seus amigos. O Vítor Rodrigues, o Leal, o Venâncio Sancha, o José Diniz e eu, fomos os 6 jantar ao Hotel Pérola do Sul, também conhecido pelo Hotel Tirso, acabando a noite na sala de bilhar ao lado do cinema Luiana.

Hotel Pérola do Sul

Jantar de aniversário do Ciríaco em Agosto de 1973 no restaurante do Hotel


Jantar de aniversário do Ciríaco em Agosto de 1973 no restaurante do Hotel


No início do mês de Setembro e, para estar com esta farda vestida só poderia ser num fim-de-semana e de folga, pronto para sair e almoçar fora do quartel como acontecia imensas vezes. Mas para fazer algum compasso de espera, para o toque para o almoço, eu e o Domingos Fernandes mais conhecido pelo “Mais Que A Mim” e para constar mais uma fotografia para a colecção, resolvemos jogar uma partida de damas mesmo à porta da nossa caserna.

Um jogo de damas enquanto não chegava a hora do almoço
Eu e o “Mais Que A Mim”

Não me recordo bem qual o percurso que foi feito para esta Acção Psicológica, sei apenas que se levou mais dias do que estava previsto e tudo isto por causa do “acidente” ou “atascamento” como diz o Facas que houve com a Berliet, quando regressávamos ao quartel. Tudo isto se passou logo no início da manhã e estávamos a contar ir já almoçar a Serpa Pinto, quando todos os planos saem furados. Eu seguia no Unimog 404, e é também mais uma das situações que aconteceram que jamais esquecerei, não me lembro dos nomes de alguns mas lembro-me bem como aconteceu isto. Para reforçar o que o Facas enviou para o Fórum em 26/04/2009 deixo aqui algumas imagens para recordar. Sei que houve várias ajudas para se tirar dali a Berliet até dum camião civil, pois não foi tarefa fácil.Mas conseguiu-se ao fim de 3 dias. Segundo as anotações que eu tenho, esta Acção Psicológica era para ser feita nos dias 23/09 e 24/09, mas com o imprevisto acabámos chegar a Serpa Pinto a 27/09/73.



Acção Psicológica
Por aqui se pode ver até que ponto a Berliet ficou enterrada

 


Acção Psicológica
Uma parte do grupo que compunha a “expedição”
1- ?? * 2 – ?? * 3 - Custódio Gomes Monteiro *
4 - Abílio Hermenegildo * 5 – Enfº. Gomes * 6 - Marafunha?


Acção Psicológica
Aqui estão os 11 magníficos que ficaram para “desenterrar” a viatura inicialmente
1- Tremidinho * 2 - ?? * 3 – Lázaro * 4 - Custódio Gomes Monteiro *
5 – Enfº. Gomes * 6 – “RÉGUA” Condutor da Berliet * 7 - ?? *
8 – ?? * 9 - Alberto Reis Lopes * 10 - A. Hermenegildo *
11- Manuel Alves Condutor Unimog 404


Acção Psicológica
Depois do susto passado, tentar comer qualquer coisa que restava da ração de combate. Por isso havia que poupar enquanto não chegassem os reforços alimentares, neste caso era uma lata de salada de fruta.



Entretanto em Outubro de 1973 fomos destacados para mais uma missão, desta vez para norte (??) de Serpa Pinto a fim de se dar protecção à engenharia que estava abrir novas estradas e inicialmente ficámos na Base Táctica do Cuebe e estávamos a uma centena de metros do rio. Não sei se a nascente era ali próximo ou se era algum dos afluentes, sei que era uma maravilha tomar banho naquela água fresca e cristalina.

BASE TÁCTICA NO CUEBE EM OUTUBRO DE 1973
Percurso do acampamento para o rio.
Ao fundo o rio onde tomávamos banho

Ao sair da mata tínhamos esta panorâmica com o rio Cuebe ao fundo


Trilho do acampamento para o rio.

A minha “Cubata”, foi ideia de alguém colocar à entrada da tenda “Cubata do Soba”.
Feito num pedaço de cartão duma ração de combate e escrito com um pau queimado da fogueira


Hora de descanso após o almoço e a pensar no que fazer para ajudar a passar o tempo

A tentar pregar uns botões do camuflado, sempre ajuda a passar o tempo


Entretanto, fomos rendidos por outro grupo de combate e regressámos a Serpa Pinto para carregar forças e ficarmos prontos para uma nova saída. Bem desta vez foi novamente para continuarmos a fazer protecção à engenharia e respectivas máquinas e o grupo foi destacado para a Base Táctica no Munhona em Novembro de 1973. Aqui já não tínhamos a nossa praia fluvial privada como no Cuebe, aqui éramos abastecidos por um tanque atrelado com uma cisterna e tinha-se que poupar água.

BASE TÁCTICA NO MUNHONA EM NOVEMBRO DE 1973

 
Uma parte do acampamento

Uma parte do acampamento.
Este que está comigo já estava no acampamento não me lembro dele na 3ª Companhia, será que pertencia há 1ª ou 2ª Companhia. Tenho ideia dele na minha recruta pois fazia parte da incorporação de Angola, a não ser que esteja enganado.

 
Eu e o Álvaro Quintã. O que está no centro não me recordo do nome



Um aspecto geral do acampamento



E assim passámos alguns dias nesta Base para depois regressarmos a Serpa Pinto e entretanto começarmos a preparar a malas e seguirmos para a Fazenda Tabi.
Assim terminava a missão da 3ª Companhia em Serpa Pinto, já corria o mês de Dezembro de 1973 e não me lembro do dia quando fomos de malas e bagagens de rumo à Fazenda Tabi, lembro-me que saímos muito cedo de Serpa Pinto em viaturas civis e chegamos no final da tarde depois de andarmos talvez dez horas fazendo cerca de 1.500 km.
DEZEMBRO DE 1973 
Viagem de Serpa Pinto para a Fazenda Tabi.


Uma pequena paragem para quem necessitasse de esticar as pernas e não só.

Aqui fizeram-me a partida de fotografar enquanto dormia.
 Não me recordo que ponte é esta que atravessamos. Alguém se lembra?
Será em Lifune ou é nos Libongos?




Distrito de Luanda


Trajecto Serpa Pinto - Fazenda Tabi
Penso que foi este o trajecto


Assim se passou um ano de guerra nas Terras do Fim do Mundo e termina a minha missão com o 4º grupo da 3ª Companhia por Serpa Pinto, numa excelente vivência e de boa camaradagem com todas as pessoas que compunham o Batalhão de  Caçadores 4611/72.
Para todos, aquele grande e forte abraço

Abílio  Hermenegildo


sexta-feira, 12 de março de 2010

Passagem da 3ª. Companhia por Serpa Pinto (continuação)

(Por Abílio Hermenegildo)

(clica nos fotos para as aumentar)

Distrito do Cuando Cubango




Acção-Psicológica com saída de Serpa Pinto até ao Caiundo em Abril de 1973



Muda de pneu após a saída de Serpa Pinto


Travessia do Rio Cuebe a vau

Uma das pontes sobre o Rio Cuebe

Rio Cuebe

Entrada para a jangada


 Travessia de jangada no percurso Serpa Pinto - Caiundo

 Visita a uma aldeia


Almoço no Caiundo



Pois bem, meus amigos, esta foi a minha 2ª saída para a mata, outras saídas irei documentar com mais algumas fotos.
Para todos, aquele grande e forte abraço

A. Hermenegildo

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

A 3ª Companhia no Cuando Cubango

(Por Abílio Hermenegildo)

Há dias encontrei uns mapas na Net dos distritos por onde andou o Batalhão de Caçadores 4611/72. Como achei interessante e está muito detalhado não quero deixar de partilhá-lo. O que está inserido nos mapas não foi nada feito por mim pois tudo que lá está já existia. Como introdução a este trabalho,  fica aqui o mapa do o Distrito do Cuando Cubango.

(nota: clica nas fotos para as aumentar)


Distrito do Cuando Cubango, Angola
Quartel em Serpa Pinto dia 7 de Janeiro de 1973. 

Se não me engano esta foi a primeira saída do 4º grupo de combata após a chegada a Serpa Pinto.
Para testar a bravura destes combatentes, foi logo para uma operação em Vila Nova da Armada onde estava o aquartelamento dos fuzileiros. Nesta altura penso que estava lá a companhia nº 3 de fuzileiros da armada portuguesa. Nesta operação também foi o 1º grupo. As fotos foram tiradas às 6 horas da manhã, a porta que se vê é a entrada para a arrecadação de material de guerra e aquartelamento onde estavam o Ciríaco, o Sancha e o Melo.

Partida no dia 7 de Janeiro de 1973 para Vila Nova da Armada

No mesmo dia, eu e o Rodrigues

Vista aérea de Vila Nova da Armada

Vista geral de Vila Nova da Armada

Após a operação em Vila Nova da Armada, regressámos a Serpa Pinto no dia 19 de Janeiro de 1973, pelo meio-dia,  e a seguir a um excelente banho já estava pronto para ir almoçar ao restaurante.


Regesso a Serpa Pinto no dia 19 de Janeiro de 1973

Partida do Quartel de Serpa Pinto para o primeiro M.V.L., em 2 de Fevereiro de 1973.
Percurso:  Serpa Pinto, Longa, Cuito Canavale, Mavinga, Nriquinha e Rivungo, cerca de 19 dias, ida e volta

Quartel em Serpa Pinto, 2 de Fevereiro de 1973
O Eduardo Pinto a acender-me o cigarro

Dias  7, 8 9 e 10 de Março de 1973.

Mais uma operação do 4º grupo em conjunto com o 1º grupo.


7 de Março de 1973 - Foto tirada ao fim da tarde do primeiro dia da operação
Um curto descanso para depois nos aproximarmos da mata para pernoitar

8 de Março de 1973 - Foto tirada durante a manhã.
Mais uma chana que levou um dia a atravessar

8 de Março de 1973 - Mais uma paragem para abastecimento de água numa lagoa
Tínhamos de percorrer esta chana até chegarmos onde se avista a mata mais cerrada, quase na linha do horizonte, para depois pernoitar

10 de Março de 1973 - Enfermeiro Gomes e eu
Quando era possível durante a operação procurava-se locais mais abrigados como este para almoçar ou descansar. O mesmo acontecia para pernoitar. Aqui mais satisfeitos porque estávamos prestes a ser recolhidos para regressar.



Quartel em Serpa Pinto, fins de Março de 1973
Ao lado da Secretaria da 3ª Companhia do Batalhão de Caçadores 4611/72

Num determinado fim-de-semana em Maio de 1973 fomos (eu o Almeida e o Leal) fazer um piquenique. No saco como não podia deixar de ser algo para se comer e beber, devo dizer que foi um dia bem passado
Maio de 1973 - o Almeida e eu (o Leal a tirar a foto)

Maio de 1973
Já a tomarmos uma bela banhoca no rio
(da esqª para a dtª: Almeida, Leal e A. Hermenegildo)

Quartel em Serpa Pinto
Da esqª para a Dtª: Dinis, Leal e Valongo (Valongo. era assim que o tratávamos por ser desta zona)
Eu fui o fotógrafo

Esta é a 1ª série de fotos e de algumas passagens que guardo com recordação durante a minha vivência com a 3ª Companhia do Batalhão de Caçadores 4611/1972. Outras seguirão em breve, continuação de Serpa Pinto, depois da Fazenda Tabi e por fim em Cabinda.

Um grande abraço para todos
A. Hermenegildo


P.s. Há dias estive a falar ao telefone com o ex-cabo Joaquim Ribeiro Pinheiro, que era do 1º Grupo. Ele pediu-me que transmitisse um grande abraço para todos, pois não tem tnternet e não pode visitar o blogue. Vive a 7 Kms de Braga, na estrada que vai para o Gerês ou Vila Verde. Foi há tempos operado ao colo di fémur e vai ter de ser novamente operado à mesma coisa, mas na outra perna.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

LUIANA - 3 MESES DE ISOLAMENTO

(Por Jorge Correia)



"É proibido chorar sem aprender,
Levantar-se um dia sem saber o que fazer
Ter medo de suas lembranças.

É proibido não rir dos problemas
Não lutar pelo que se quer,
Abandonar tudo por medo,
Não transformar sonhos em realidade."
  (fragmento de "É proibido" de Pablo Neruda)



O destacamento do Luiana (foto cedida por Manuel Almeida)
(clica para aumentar)


Serpa Pinto, Julho de 1973:

Estava numa bela tarde de “dolce far niente” no quartel de Serpa Pinto, quando vejo o Figueira (sempre ele) aproximar-se de mim junto com outra pessoa,. Tratava-se do Alferes Miliciano Botelho Moniz pertencente ao quartel de Sá da Bandeira que ia a caminho do Luiana, comandar o destacamento. Apresenta-nos e diz-me que o vou acompanhar a ele (Botelho Moniz) com o meu grupo de combate para reforçar o destacamento do Luiana que tinha uma guarnição reduzida.

Outra imagem do Destacamento da Luiana (foto cedida por Manuel Almeida)
(clica para aumentar)
OK! Já estava habituado a ser eu a alinhar, por ser o mais novo. Logo na apresentação gostei de Botelho Moniz e senti que ele também tinha gostado de mim, havia uma empatia. Colhemos informações um do outro e à noite voltámos a encontrarmo-nos. Percebi que estava algo apreensivo, fomos a um café jogar snooker e ele perguntou-me se eu jogava xadrez e ténis! Respondi afirmativamente e logo me lembrei do sacana do Vidigal que todas as tardes de sábado me ia acordar para ir jogar ténis com ele. Graças a Vidigal aprendi a jogar ténis, mais ou menos forçado e ainda por cima o manguelas do Vidigal assim que aparecia o Major para jogar, punha-me fora e jogava só com o Major.

Óptimo, respondeu Botelho Moniz à minha afirmativa, pois levava na sua bagagem um tabuleiro de xadrez e um par de raquetes de ténis e respectivas bolas. BM era filho do Coronel Botelho Moniz, comandante do quartel de Sá da Bandeira, era uma pessoa afável, elegante e muito educado. No dia seguinte lá embarcámos num avião Nordatlas para Luiana, eu, ele o cabo Silva e os soldados Esteves, Tavares, Marfunha e Chilombo.

Aspecto do Destacamento do Luiana (foto cedida por Manuel Almeida)
(clica para aumentar)
Chegados ao Luiana, fomos recebidos por outro Alferes, Trigueiro de seu nome, três furriéis operacionais, um furriel enfermeiro e um 1º sargento. Tudo gente boa, menos o outro alferes que era um indivíduo truculento, natural de Sá da Bandeira todo armado em alto operacional (estes normalmente são os piores), felizmente Botelho Moniz ia comandar o destacamento. Lembro-me de me ter confessado que estava um pouco desolado, o destacamento era circular, de pequenas dimensões, com um Kimbo também pequeno ao lado e entre os dois uma casa de bom aspecto, porém fechada e desabitada,..esclarecem-nos que tinha pertencido ao chefe de posto, que tinha ido em tratamento psiquiátrico para a cidade do Luso e nunca mais tinha voltado. Tudo perspectivas animadoras, pensei eu.

O destacamento no entanto tinha um ar limpo, havia um campo cimentado de futebol de salão, onde com Botelho Moniz também jogávamos ténis, a messe era conjunta de oficiais e sargentos e a casa dos sargentos era espaçosa e bem arejada, um luxo para as circunstâncias! Á noite, normalmente jogava xadrez com BM depois do jantar, reunia-me com o pessoal do meu grupo nos seus alojamentos e aos sábados íamos ver a festa do Kimbo com danças indígenas muito interessantes pela sua vertente cultural. Certa vez uma miúda do Kimbo ofereceu-se para ser minha mulher durante a minha permanência no destacamento, para isso bastava dar-lhe três panos coloridos, para fazer vestidos. Declinei amavelmente a proposta.

Jorge Correia e Botelho Moniz junto a um dos dois hipopótamos abatidos no Luiana. Estes dois hipopótamos alimentaram o Kimbo do Luiana durante dois meses.
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A vida no destacamento decorria pachorrentamente, fazia questão de a encarar como um centro de estágio, de manhã ia com o meu grupo buscar lenha, seguindo de imediato para a praia fluvial, onde os rastos indicavam que os crocodilos já tinham apanhado sol encaminhando-se para a água, por precaução atirávamos duas granadas para dentro de água antes de tomarmos banho, depois de almoço dormia a sesta e por volta das 4 h havia futebol. Não fazia operações porque não tinha levado a segunda dose da vacina da mosca do sono. Era uma chatice ficar sempre no destacamento, finalmente chegou a vacina e depois de injectada ainda fui a tempo de fazer uma operação a caminho da fronteira com a Namíbia. Uma berliet e dois unimogs, foi fantástico porque no percurso deparámos com imensos animais selvagens de grande porte, Elefantes, Hipopótamos (estes víamos quase todos os dias perto do destacamento) Búfalos, Pacaças, Leões, Zebras e Girafas já muito perto da Namíbia. Eu e o Furriel Filipe íamos de Unimog sentados em cima de dois sacos de areia e o Alferes Trigueiro ia na Berliet sentado em cima de quatro sacos de areia,...é só um pormenor.

A determinada altura um acontecimento chato; numa formatura de manhã ao pequeno-almoço o Alferes Botelho Moniz resolve fazer uma revista ao pessoal que estava de serviço. A propósito de uma alegada má uniformização BM dá uma violenta bofetada em Chilombo que o deita ao chão. Assisti ao acontecimento de longe, pois não estava de serviço e portanto não estava na formatura, mas senti-me humilhado e até ofendido por um soldado do meu grupo de combate ter sido agredido, numa situação em que tal não era de todo justificado. Os ânimos andavam por demais exaltados, Trigueiro era um provocador e já tinha havido pequenas escaramuças com quase todos os furriéis. No entanto a agressão partiu de quem menos se esperava, de Botelho Moniz. Nós sabíamos que Botelho Moniz era constantemente pressionado por Trigueiro para endurecer a disciplina no destacamento o que nas circunstâncias em que estávamos não era de todo aconselhável, só serviria para criar atritos como veio a acontecer. À noite, depois do jantar, tentei falar com o Alferes Botelho Moniz, depois de quase todos terem saído, ele estava a ler uma revista antiga e a beber um whisky e eu aproximei-me perguntando o que na verdade se tinha passado. Botelho Moniz com bons modos disse-me que não queria falar sobre o assunto, pois sentia a cabeça num turbilhão. Respeitei a decisão dele, mas inconformado decidi levar o caso adiante e escrevi ao Capitão, comandante da companhia a contar o que se tinha passado com um dos nossos homens, numa situação que por si só, haveria de levar a uma tentativa de sublevação no destacamento. Todos os furriéis e o próprio Sargento pegamos nas G3 e ocupámos o posto de cripto. Houve um momento de grande tensão. Depois de algumas horas e a conselho do Sargento acabámos por regressar aos aposentos,...não houve qualquer reacção. O Capitão não me respondeu, mas depreendi que tinha feito uma qualquer diligência, pois uns dias mais tarde apareceram no destacamento O Coronel Mendonça, o Capitão Amaro e o Tenente Capelão Geraldes, nenhum deles falou comigo, mas à hora do almoço houve um momento caricato, após uma troca de palavras que não consegui ouvir o Tenente Capelão Geraldes passou uma valente "piçada" ao Alferes Trigueiro,....pareceu-me óbvio o motivo da visita e a sua oportunidade.
Jorge Correia, Brazão, Carvalho e Nogueira no Quartel de Serpa Pinto

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Depois deste episódio, a tensão continuou, mas as coisas ficaram um pouco mais definidas e o Alferes Trigueiro andou durante uns tempos de cabeça baixa, mal falava na messe a Botelho Moniz. Duas semanas antes de me vir embora, Botelho Moniz consegue ir no Nordatlas que nos abastecia de 15 em 15 dias, para o Luso, com o propósito de ir a uma consulta médica,... (antes de embarcar desabafa comigo que já não aguenta viver no mesmo quarto que aquele tipo, (Trigueiro). O Nordatlas voltou 15 dias depois, um dia antes da minha partida, mas chegou sem Botelho Moniz. Trigueiro estava no comando, mas para espanto geral, a comandar sozinho, andava mais pianinho, sabia provavelmente que não seria saudável arriscar-se a invectivar o pessoal que manifestava uma forte saturação e explodiria à menor provocação. No entanto ainda esboçou uma gracinha, quando me disse que era da praxe quem saía, pagar duas grades de cerveja,...sem grande paciência, retorqui que tinha por costume só pagar cerveja a amigos. Na altura, não me disse nada,..mas vim a saber mais tarde que me ameaçou com uma porrada, já depois de me vir embora, enfim, próprio de cobardes! No dia seguinte finalmente chega a minha rendição, antes do almoço vejo vir na minha direcção o meu querido amigo e sorridente Furriel Gomes....o inefável Gomes, o homem da parapsicologia. Apanhámos o avião Dakota pilotado por Sul-Africanos e chegámos à noite a Serpa Pinto. Em Novembro vim de férias ao Puto.
Durante uma operação algures no Cuando Cubango, o Jorge Correia e o Figueira
(clica para aumentar)
 

Em Novembro de 74, a poucos dias do regresso definitivo, em Luanda, estava numa mesa do Pólo Norte com Figueira, Lopes e Facas e avisto numa outra mesa uma pessoa que me acena com o braço,..era Botelho Moniz, levanto-me e dirijo-me à sua mesa, apresenta-me a sua noiva e um casal amigo, digo-lhe que faltam poucos dias para regressar a casa, finalmente! Não tocamos no assunto Luiana, desejamo-nos mutuamente felicidades. Não soube nada mais dele.

  

Destacamento do Luiana (foto do Manuel Almeida)
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BATALHÃO DE CAÇADORES 4611/72

BATALHÃO DE CAÇADORES 4611/72
conduta brava e em tudo distinta