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sábado, 7 de abril de 2012

Episódios de Angola ou as aventuras e desventuras de um militar – 2

(Por José Veiga)



O Zé Veiga em pose de "mercenário"

Episódio 4 – Episódios animalescos :)


Realço dois acontecimentos ocorridos na Coutada do Mucusso: o primeiro foi, quando chegámos ao destacamento pela primeira vez e encontrámos, nas imediações, um grupo de avestruzes residentes, que ás vezes chegavam a entrar até dentro da área restrita, sem que se importassem com os militares, estando já habituados àquele ambiente.

No entanto a partir de determinada altura, uma a uma, foram todas desaparecendo, levando a que o pessoal começasse a ficar intrigado, devido ao estranho da situação. E mais estranho era pois não cheirava a peru no forno nas redondezas.

Um dia o mistério desfez-se pois alguém deu com uma grande quantidade de penas de avestruz nas imediações do destacamento, pelo que chegamos à triste conclusão, que as hienas deram com elas, e não se afastaram enquanto as comeram todas. Ficámos sem a companhia daqueles majestosos animais que não faziam mal a ninguém, antes pelo contrário, pois davam um aspecto diferente ao lugar, no sentido positivo.



O outro, diferente em todos os sentidos, é que tínhamos no destacamento seis cães, uns de raça pastor alemão, outros “arraçados” de outra espécie, todos bem corpulentos, e que bem jeito nos faziam, porque qualquer animal selvagem que aparecesse nas imediações, era logo detectado e afugentado pois o pelotão canino estava sempre em prontidão.

Na Coutada do Mucusso em 1973 com um pastor alemão


Um dia algo se passou no pelotão canino pois os cães passaram de dóceis a raivosos, não obedecendo a ninguém, antes pelo contrário, insurgiam-se contra nós chegando mesmo a atacarem um militar que só não foi ferido porque conseguiu escapar a tempo levando a que o caso do pelotão canino se tornasse um caso difícil e um problema.
Decidiu-se, com bastante pena nossa, pelo abate ao efectivo desse pelotão que bem falta nos faziam pois constituíam um dos meios de alerta, mas não havia alternativa. Ficámos sem os cães, que tal como as avestruzes, já faziam parte da “mobília”.

(…)

Episódio 5 – A minha deserção!!

Este episódio reporta-se à rotação do Batalhão para Cabinda e ao modo como tive de lá chegar para não ser dado como desertor.
...No segundo ano de comissão tive a oportunidade de vir passar férias no "puto", que decorreram entre o princípio de Abril até 3 ou 4 de Maio de 1974!.. Dá-se entretanto o 25 de Abril, e estando sentado na sala juntamente com o meu saudoso PAI, a ver o desenrolar dos acontecimentos este dizia-me então; “… Já não vais regressar a Angola!...”
Mas o que é um facto é que as coisas nunca correm como é desejado e no dia previsto para o regresso a Angola lá embarquei com destino a Luanda e convicto de que iria para o Ambriz!! No Ambriz estaria a minha companhia, julgava eu pois era onde a tinha deixado antes de ir de férias...



A Porta d'Armas do Quartel de Ambriz


Para encontrar de novo os meus camaradas passei por momentos, que pensava... jamais pudessem acontecer!!!!!!!!!!
Imaginem que a minha saga tinha começado quando parti para férias e á chegada a Luanda, pronto para embarcar para Portugal...descobri que tinha deixado os documentos no Ambriz, esquecidos na Companhia!!! O que passei e suei para conseguir marcar uma audiência com o Comd. Geral de Angola, no Quartel-General de modo a dar-lhe conhecimento do acontecido. Foi impecável... bastou um simples papel que ele próprio redigiu, assinou, e chancelou para que eu viesse passar férias a Portugal...
Mas dizia eu que quando tudo corria, deduzia eu, pelo melhor venho a descobrir que o Batalhão e consequentemente a 2ª. Companhia se tinham mudado para Cabinda!!!
Se não me apresentasse seria dado como REFRATÁRIO, ou seja, caso não me desenrascasse corria o risco de ir preso!!!
Depois de várias diligências, acabei por ter que comprar bilhete de avião, com destino a Cabinda e tentar apresentar-me no aquartelamento, que como é de calcular nem imaginava onde se pudesse situar!

 Para meu espanto quando cheguei a Cabinda, tinha um UNIMOGUE, da minha companhia, com o furriel Figueiredo de trms, à minha espera…(não fosse eu fugir)...!!

Em Cabinda em 1974
Quando cheguei a Cabinda já a 2ª. Companhia se tinha deslocado de Lândana para o Yabe, uns quilómetros para lá do aeroporto, a a caminho da fronteira com o Zaire.

Em Cabinda em 1974 com a "Maralha" da C.C.S..


Missão em Cabinda

Uma brincadeira com o nome José Veiga
Visita ao R.I. 16, em Évora, em 2011
Um abraço do
José Veiga

sábado, 24 de março de 2012

Episódios de Angola ou as aventuras e desventuras de um militar – 1

(Por José Veiga)


No Mucusso pedindo boleia para Vila do Conde


Episódio 1 – A viagem para o Mucusso

Após a nossa chegada a Luanda e de todo o processo estar concluído, chegou o dia, em que deixámos o Grafanil, e partimos em coluna motorizada rumo ao Sul de Angola, mais concretamente com destino à Coutada do Mucusso, que era o lugar que estava destinado para a 2º Companhia, e onde iríamos permanecer alojados durante muito tempo.

No entanto para lá chegarmos não bastou só ir de Berliet em coluna militar. Acabámos por chegar a um lugar, onde estavam destacados militares, não me recordo bem do nome, mas penso que seria o Dirico e onde ficámos em trânsito, até que por fim lá conseguimos chegar, uns de avião (C-47 Dakota) e outros de avioneta, que era o meio de transporte dos frescos e correio, obrigando a que fossem efectuadas várias viagens, devido à fraca capacidade de transporte.

Coutada do Mucusso em 1973

Em serviço na Coutada do Mucusso
Com estas peripécias todas lá se conseguiu reunir a companhia na Coutada do Mucusso onde rendemos a companhia de “velhinhos” que se encontrava de saída, em virtude de terem acabado a comissão de serviço. O Mucusso ficava no Sul de Angola, mais concretamente, no distrito de Cuango Cubango , era uma área, onde cabia Portugal inteiro, e, conforme também o nome sugere, era uma zona rica em flora e fauna, com variadas espécies de animais, em particular antílopes, e onde grande percentagem do deserto de Moçâmedes, também estava inserido, o que motivava a que esta área toda fosse conhecida pela designação de; “Terras do Fim do Mundo”. Era neste cenário que ia começar a nossa epopeia africana.

(…)

"Aprendendo" a pilotra um héli na Coutada do Mucusso

Episódio 2 – A caçada

Certo dia formámos um grupo, para ir caçar, e aconteceu que poucos quilómetros mais á frente, avistámos uma manada de palancas, após as termos perseguido abatemos duas, o que pelas nossas contas já daria para durante uma temporada comermos, bifes, estufado e outras iguarias, melhor dizendo… direito a rancho melhorado.

No entanto a uma das Palancas fui eu que lhe dei o tiro fatal que a abateu. Esta situação aconteceu, porque ao aproximar-me da peça a pensar que estava morta, e estando eu já a dois metros da mesma, ela levanta-se de repente, e eu instintivamente apontei a G3 e disparei dois tiros tendo a dita caído fulminada. Foi complicado em termos cardíacos mas na altura os nossos índices de adrenalina eram excelentes.

(…)


Coutada do Mucusso

Episódio 3 – O dia em que a Berliet virou submarino

Em relação ao menos bom, que também aconteceu, recordo algumas situações de quando íamos para o mato, em reconhecimento, ou noutras operações, que eram designadas pelo comando superior, onde estávamos inseridos, e que em média podiam durar entre três, ou mais dias, a palmilhar terreno em busca de algo relacionado ou parecido com o inimigo, chamados de “turras” por ser diminutivo de terrorista. Felizmente no Mucusso, enquanto lá estivemos, não aconteceu, para nosso bem, nada de significativo que mereça referência neste domínio.

Em 1972, na Coutada do Mucusso, à porta da enfermaria, com duas "beldades" lá do sítio, À direita esta o "Cuba", cantineiro

Porém numa ocasião, aconteceu, num dia em que fomos ao Calai, que era um posto fronteiriço distando uns bons 200 quilómetros do nosso destacamento e que fazia fronteira com a Namíbia, um episódio que merece referência.

Esta operação, de abastecimento de gasóleo, demorava normalmente entre três a quatro dias, dando tempo para trocarmos a nossa moeda por Rands, que era a moeda em circulação do outro lado da fronteira, e procedermos a algumas compras nas lojas existentes, normalmente artigos para higiene pessoal e de vestuário, em especial t’shirt`s.
Numa picada na Coutada do Mucusso

Como não há bela sem senão… No regresso de uma dessas viagens, acabámos por ter um acidente junto da margem do rio Cuíto com uma Berliet que, mal travada, deslizou e acabou por ir parar ao fundo do rio. Neste local existia uma jangada, presa com um cabo de aço entre uma margem e outra, onde com cuidado e bem orientadas, as Berliet, iam para cima da mesma, para atravessar de um lado para o outro. Esta passagem constituía um ponto estratégico, pois para além de proporcionar mais rapidez nas operações militares, era também muito importante para o pessoal civil no seu dia-a-dia. Ficamos ali retidos durante dois dias, até que nos socorressem pois a Berliet tinha, a todo o custo, de ser tirada do fundo do rio e tínhamos de igualmente recuperar as G3, que se encontravam dentro da mesma.
A jangada do Rio Cuito (Dirico) onde ocoreu o acidente

A dificuldade naquela zona do rio, era a existência de um lar de hipopótamos, e não eram poucos, e para se fazer alguma coisa com segurança, era necessário lançar primeiro umas granadas para os afugentar, só então se voluntariaram dois camaradas que mergulharam numa primeira tentativa de recuperação das armas, e posteriormente para a colocação de cabos que permitissem tentar sacar a viatura do fundo do rio. Armas recuperadas, não na totalidade, pois ficaram sete no fundo, uma delas era minha, a Berliet também após bastante tempo, e com enorme custo, acabou por ser recuperada.

Após estarem as operações de resgate encerradas e estar tudo sob controlo lá seguiu a viatura, que foi rebocada até ao destacamento, onde acabou por ser alvo de uma grande manutenção devido a que tinha água, por tudo quanto era sítio. No final tudo correu bem... digo eu!!!


A equipe de futebol da "Formação" na Coutada do Mucusso. Reparem no campo de futebol com a relva (capim) bem tratada
 


Ida ao Calai - abastecimento de combustível


Parte da equipa das transmissões

Com o cabo cripto Oliveir em 1973

Com o Furriel Figueiredo

Com o Rocha de tranmissões


Um abraço,
Zé Veiga

domingo, 4 de março de 2012

RELEMBRAR O PASSADO!

(Por José Manuel Francês)

Esta história poderia começar como tantas outras...



Era uma vez um menino que se habituara a ouvir na rádio de então as crónicas de um jornalista da época, Ferreira da Costa de seu nome, que de Luanda enviava aos microfones da Emissora Nacional histórias de um tempo em que a guerra colonialista começava e que o sistema vigente o obrigou a alterar a sua forma de começar, pois dizia ele..." Daqui Luanda, fala Ferreira da Costa!"... E o Povo tentava perceber que aquilo andava. Uma das múltiplas formas de escapar à censura do lápis azul!
Meu saudoso Pai dizia então à minha Mãe, para a tranquilizar, "tem calma que o rapaz ainda é muito novo e quando chegar à idade de ir para a tropa já esta guerra deve ter acabado há muito!".
Puro engano! A politica de então, com a teimosia de não querer perceber o que se passava, prolongou a situação, e sujeitou gerações de jovens a inúmeras situações ,algumas dramáticas, das quais ainda hoje se sentem os efeitos negativos em tantos e tantos Camaradas.
Muito mais depressa do que seria de esperar chegou o dia de me apresentar na Câmara Municipal de VN Gaia onde a 25.07.1990 fui fazer a inspecção militar... Coxos e mancos, dizia-se, tudo servia e eu que felizmente saúde não me faltava... Dei comigo a receber ordem de apresentação no RI5 das Caldas da Rainha, onde entrei para a 6ª Companhia de instrução com o nº 2007/71 do 3º pelotão.
Findo o período de instrução, ainda hoje sem entender porquê, decidiu o Exército dar-me a especialidade de Enfermeiro e deu-me Guia de Marcha para me apresentar no RI16-BSCF em Campo de Ourique, onde fui o º 360/71/AP - aluno nº 88/71.
Curso efectuado no Hospital Militar em Lisboa, fui de seguida para o HMPE de Elvas, já como 1º cabo miliciano, fazer o estágio.
Tempos que obrigaram a longos períodos de separação da família, mas também cheios de gratas recordações dos novos amigos que se foram fazendo.
Terminada a estadia em Elvas, fui colocado na RAP 2 em Vila Nova de Gaia, sabendo eu que não escaparia à mobilização para o Ultramar.
Na ordem de serviço nº 138 de 14.06.1972 era então publicada a minha ordem de mobilização para o BAT CAÇ 4611/72 - RI16 / RMA.


A mobilização


A mobilização

A 28.08.72 passei rapidamente por Évora, sede do Batalhão ao qual iria pertencer, e fui recambiado de imediato para me apresentar em Santa Margarida no dia seguinte.
Iniciava-se assim a minha vida de elemento pertencente à CCS do BAT CAÇ 4611/72 , de que ainda hoje me orgulho, não só pela prestação que tivemos todos a nível cívico e militar, durante a nossa estadia em Angola , mas sobretudo porque fizemos nascer uma verdadeira FAMÍLIA que nos une ainda hoje a todos .
Chegados a Luanda, ao entrar no Campo Militar do Grafanil , um Camarada que aguardava a hora de embarcar já no seu regresso, mais cacimbado do que alguma vez mais encontrei alguém disse-me: "Olha lá ó maçarico... Não te esqueças de contar os 730 dias que te faltam... se os conseguires contar todos és um felizardo..."



 730 dias...


Aquela história incomodou-me, tenho que o admitir, mas ao chegar a M'PUPA com o SPM 6676 , local do nosso 1º aquartelamento, decidi fazer dois Mapas/calendários, que fui dia a dia inutilizando , dando assim conta dos dias que passavam e que faltavam para chegar aos tais 730 que me fariam um felizardo !


730 dias...


Terminado o período de comissão, chegou então o dia em que recebi o documento que me "passava à disponibilidade"...a 17 de Dezembro de 1974.

Passagem à disponibilidade

passagem à "peluda"
 Hoje, passados tantos anos já, com muitos 730 dias somados, posso partilhar convosco estas datas e documentos, porque felizmente o meu Pai soube guardar-me estes registos.
Senão... restariam apenas os dados memoriais dos mesmos.
O homem de hoje, que foi menino, recorda com saudade os tempos passados então, e guarda no coração a alegria dos Amigos que fez e que estão sempre presentes na minha vida.



quinta-feira, 25 de novembro de 2010

A PARTIDA

(Por Fernando Moreira)


A Partida


Soneto de Separação

"De repente do riso fez-se o pranto
silencioso e branco como a bruma
e das bocas unidas fez-se a espuma
e das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
que dos olhos desfez a última chama
e da paixão fez-se o pressentimento
e do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
fez-se de triste o que se fez de amante
e de sozinho o que se fez contente
fez-se do amigo próximo o distante
fez-se da vida uma aventura errante
de repente, não mais que de repente..."
Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)



Chegada a Luanda – Foto cedida por Girão



24 de Novembro de 1972 – O Embarque

A preparação da nossa viagem para Angola começara, sem que nos apercebêssemos, muito antes daquele dia 24 de Novembro de 1972, em que nos mandaram formar no Campo Militar de Santa Margarida, prontos a entrar nos autocarros de turismo fretados pelo exército, com destino a Lisboa onde nos aguardava o Boeing 707, da FAP, no Aeródromo de Manobra de Figo Maduro, no qual embarcaríamos rumo ao Ultramar.

O processo que nos levou ao Ultramar, para defesa das fronteiras longínquas do Império, iniciou-se após sermos dados como prontos, caso dos atiradores, ou depois do final da instrução da especialidade, para os especialistas, altura em que habitualmente se recebia a ordem de mobilização.

Após a ordem de mobilização lá recebemos a Guia de Marcha para apresentação na Unidade Mobilizadora onde nos juntámos, vindos dos vários centros de instrução, num Batalhão com um número de código atribuído e que aos poucos ia tomando forma agregando os militares operacionais e os das especialidades até que o quadro orgânico respectivo estivesse preenchido.

O Batalhão de Caçadores 4611/72 foi assim, aos poucos, tomando forma, ao mesmo tempo que a par dos exercícios de instrução de aperfeiçoamento operacional se recebiam as vacinas, os camuflados e outro material que nos acompanharia durante o tempo do chamado cumprimento do dever. Quando por fim se encontrou composto de 3 companhias operacionais e 1 de serviços, o Batalhão 4611/72 estava em termos práticos pronto para seguir viagem.

Com a chegada da ordem de embarque sobraram uns dias para uma ida a casa para a despedida à família, para fazer umas últimas asneiras por conta com os amigos de sempre e pedir a alguma amiga mais próxima, caso não existisse já namorada na costa, para que fosse a nossa madrinha de guerra durante o tempo de permanência no Ultramar.

Finalizado este período de graça e após a despedida da família urgia partir rapidamente para o quartel de modo a que ninguém próximo se apercebesse que afinal o malvado guerreiro sem sentimentos tinha duas lágrimas nos olhos que teimosamente insistiam em rolar pela face.

E a canção começa a martelar na nossa mente, “ Mamãe... Sinto que estás a chorar...”


Entrámos em silêncio nos autocarros e saímos de Santa Margarida no dia 24 ao final da manhã rumo a Lisboa… Jovens, com idades a rondar os 22 anos, fizemos o trajecto num ambiente algo silencioso, nervoso e de apreensão, raras vezes cortado por uma ou outra graçola de algum camarada quiçá mais nervoso que nós e que utilizava esse estratagema para não o demonstrar.

Tomávamos consciência que algo mudaria a partir dali.

O serviço militar deixara de ser “um estágio de actividades físicas e manipulação de armas, em que nos fins-de-semana íamos ver a família, tomava agora um aspecto inevitavelmente mais grave. Íamos para a guerra, era impossível ignorar!” (Sic. Jorge Correia)

À chegada ao Aeródromo de Figo Maduro viríamos a sofrer o ataque definitivo às nossas emoções ao encontrarmos à nossa espera as famílias, também elas em sofrimento pela partida não desejada dos entes queridos, mas fazendo um esforço tremendo para que a boa disposição se sobrepusesse ao aperto de mão nervoso de uma mãe, avó, irmã, esposa ou namorada ou ao rosto crispado de um pai ou avô que, conhecedores do lema de que “um homem não chora”, se apressavam a despachar o momento com uma palmada nas costas do seu rapaz feito guerreiro à pressa procurando desta forma transmitir ânimo numa situação que se podia comparar a uma barragem prestes a rebentar em lágrimas, em gritos de desespero e protesto contra uma guerra que se apresentava já sem muito sentido.

E a canção continuava; “Não chores a minha ausência... que um dia hei-de voltar...”


Uma das primeiras noites em Luanda – Foto cedida por Luis Silva



25 de Novembro de 1972 – Chegada a Luanda

Chegados a Luanda tivemos como primeira sensação o intenso cheiro a terra vermelha nada desagradável ao olfacto.

Fomos directos ao Grafanil, onde ficámos estacionados e onde também tivemos a segunda grande sensação das terras angolanas… os mosquitos!!!

Após cinco dias em Luanda seguimos transportados nas Berliet´s para Serpa Pinto a capital da província do Cuando Cubango, província angolana no leste, quatro vezes maior que Portugal, onde ficámos aquartelados.
Começava a nossa saga africana!
E a canção repetia; Não chores... E pensa agora... que o tempo passa depressa....”
E continuava; ...”Mamãe não chores.... Que eu volto...”




A 3ª. Companhia do B.Caç. 4611/72 partiu a 24 de Novembro de 1972 e regressou a 28 de Novembro de 1974 após 2 anos e 4 dias de ausência.




Foto de despedida de Angola – Cabinda, Roça Lucola


Um agradecimento ao Filipe Silva, ao António Moita e ao Jorge Correia pela ajuda prestada neste trabalho.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

11 DE NOVEMBRO DE 1972

(por Luis Marques)

"Só há um meio de viver no passado e no futuro - é guardar recordações e sonhos"
Coelho Neto

"Remember when you were young, you shone like the sun."

(recorda-te quando eras novo, tu brilhavas como o sol.)
David Gilmour / Roger Waters / Richard Wright


11 de Novembro de 1972, 11 de Novembro de 2010.

Vista de Luanda em Novemvro de 1972

 

38 anos já decorreram entre estas duas datas...Na manhã de 11 de Novembro de 1972, os militares que constituíam a C.C.S. da Batalhão de Caçadores 4611/1972, chegaram a Luanda, depois de cerca de 11 horas de voo desde Lisboa, Aeroporto de Figo Maduro.
Grupo de soldados da C.C.S., no Campo Militar de Santa Margarida, no dia do embarque para Luanda

 

Foi o primeiro contingente do Batalhão a chegar a Angola, as restantes chegaram a 19 de Novembro (1ª Companhia), 21 de Novembro (2ª Companhia) e, finalmente, em 25 de Novembro (a 3ª Companhia). Autênticos rapazes, feitos homens à pressa , para serem enviados em sucessivos embarques para uma Guerra que nunca lhes foi suficientemente explicada e que mais tarde se verificou ter sido inútil, de nada tendo servido, os milhares de mortos e de feridos e quase “desbaratamento” de uma geração, com sequelas que ainda hoje perduram em muitos de nós.


Manhã muito quente em Luanda naquele dia de 1972. Um Sol radioso a despertar e a aquecer-nos, (depois de termos deixado Lisboa, com algum frio e uma chuvinha miudinha e persistente) uma terra de tons avermelhados diferente de tudo o que já tínhamos visto e um cheiro diferente, mas inebriante a receber-nos...Depois, toca a rumar até ao Grafanil, local que desde há muito ouvíamos falar.

O Aquartelamento do Grafanil

A primeira noite foi de um calor quase insuportável e com elevada humidade. Toda a gente a procurar “desenfiar-se” em direcção à cidade de Luanda, desejosos de conhecer a cidade de que tanto já tinham ouvido relatos...Pela minha parte, nada! Calhou-me, por escala, sargento de dia.
Mas, “marimbando-me” para a nomeação, também me “desenfiei” em direcção à 31ª Companhia de Comandos, aquartelada igualmente no Grafanil, onde tinha o meu irmão Carlos Alberto (os “bandidos” dos furriéis da C.C.S., não quiseram fazer uma troca de escala, seus velhacos!). É claro que por causa desse reencontro de irmãos, não chegou a existir sargento de dia, na C.C.S. É que o calor abrasador e o primeiro e delicioso contacto com a Nocal bem gelada, não permitiram que a nomeação se consumasse.

E aqui trago à memória o nosso “santo protector”, o capitão Manuel Ferreira Júnior, comandante da C.C.S. Ao dar pela falta do tal sargento de dia, depois de me ter procurado e mandado procurar “por todo o lado”, ao ver-me chegar altas horas, num atavio pouco recomendável, acompanhado de meu irmão, em igual estado, perdoou-me a falta e a “porrada” mais que certa, ao saber dos seus motivos... Meu (nosso) querido amigo: lá onde se encontra (eu talvez possa adivinhar...), mais uma vez muito obrigado, por desculpar esta falta, que não já era a primeira, nem foi a última.
Estes 38 anos já decorridos, vão ter, finalmente, uma comemoração conjunta das quatro Companhias do Batalhão, no próximo dia 27 deste mês de Novembro, em Abrantes. Peço uma vez mais uma presença massiva de todos vós. Eu não faltarei!

PS: a missa não será celebrada pelo nosso capelão, o padre Geraldes, que infelizmente se encontra doente e não se pode deslocar a Abrantes. As suas rápidas melhoras é o que todos desejamos.




sexta-feira, 26 de março de 2010

Recordações de Angola - 23 (José da Costa Fernandes)

(Por Luis Marques)



O José da Costa Fernandes foi soldado condutor na C.C.S.
Chegou a Angola um pouco mais tarde que os restantes militares da sua Companhia e juntou-se a eles já depois do Natal de 1972, em M'pupa.
Mas não perdeu pela demora, pois, como "maçarico" que era, foi logo “baptizado” com inúmeras saídas em colunas e em escoltas.
E o Zé parecia gostar dessa vida... ao ponto de rapidamente se apelidado de “rei da picada”.
Na tropa, como sabem, é por vezes difícil saber a origem de uma alcunha, mas são poucos aqueles que conseguiram escapar a uma. Quanto a mim, o cognome “rei da picada” aplicado ao Zé Fernandes está apropriado, pois foram imensas as saídas que fizemos juntos e ele dominava com perícia os bólides que lhe passaram pelas mãos (Unimogs e Berliets). Mas também me lembro de  alguns sustos...ou estarei enganado?
Ficaram como recordação os incontáveis quilómetros percorridos no quente sertão do Cuando Cubango, nas estradas e picadas da zona Fazenda Tentativa / Caxito / Mabubas / Fazenda Tabi / Ambriz e pelos caminhos e estradas de Cabinda.
Das lembranças do Zé Fernandes ele decidiu partilhar connosco algumas fotos que guarda com carinho. Essas fotos aqui ficam ad perpetuam rei memoriam (para lembrança perpétua das coisas).

As legendas das fotos são também do Zé Fernandes.

(clica nas fotos para as aumentar)
 
O cozinheiro Santos em M'pupa

Fernandes, Figueiredo, Campos (da 1ª Companhia) e um maçarico recém chegado, tudo isto no Grafanil, antes do regresso em Novembro de 1974

José Fernandes com três camaradas ao fundo, quando faziam "caça" aos cafecos na sanzala por trás das escolas, em Cabinda
 
Fernandes mais o "Espirito Maligno" e o camarada que sofreu um acidente, quando o Godinho bateu na trazeira do gipe do Comandante

O Fernandes, mais o Sousa (furriel) e um grupo de atiradores, numa coluna para o Ambriz


"Pampilhosa", Carrapiço e o Fernandes, na Fazenda Tentativa

Numa coluna ao Calai (esquerda) Uma festa em M'pupa (direita)
 
O "Pampilhosa" e o Fernandes, em Cabinda
 
 Fernandes mais um atirador em Ambriz

À esquerda o Fernandes e Soares a "ligar" a ´´agua para o aquartelamento em M´'pupa
À direita, o Fernandes, o Nunes (de pé), o Pires, Henrique (mecânico) e o Rocha

Foto tirada em M'pupa. O Machado de braço ao peito

O Fernandes, o Pires e Soares, no Estádio "Os Cavaleiros", em M'pupa

BATALHÃO DE CAÇADORES 4611/72

BATALHÃO DE CAÇADORES 4611/72
conduta brava e em tudo distinta