(Por Abílio Hermenegildo)
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Distrito do Cuando Cubango
Em Julho de 1973 o 4º grupo de combate foi destacado para fazer um M. V. L. ao Mucusso, foi mais uma saída em conjunto com o 1º grupo, se não me falha a memória. Esta “viagem” foi então mais longa, 25 dias, cujo percurso foi: Serpa Pinto – Caiundo – Mucundi - Cuangar – Calai – Mutango – Dirico – Mucusso. Estas eram as povoações de maior relevo que todos se devem de lembrar, apesar de também existirem outras, em que se parava para deixar alguns dos abastecimentos nas respectivas lojecas. Tenho ideia dum episódio, não sei se foi neste M. V. L. ou se foi noutra saída: Em plena mata, ao longo do percurso surgiram uns 3 ou 4 indivíduos negros vestidos com uma farda idêntica á nossa farda número 3 a pedirem boleia. A Berliet onde eu seguia parou e nas calmas demos boleia até há zona onde eles pretendiam ficar que foi também no meio da mata,
Chegada ao Caiundo
Travesia de viaturas na jangada do rio Cualir para o Cuangar
Paragem para o almoço no Cuangar - Esplanada do Restaurante
Paragem entre o Cuangar e o Calai
Devido ao sobreaquecimento dos motores das viaturas
Por fim chegámos ao Calai e aí ficámos algumas horas, que além de podermos descansar e refrescar um pouco, também houve tempo para se tirar algumas fotos de certa forma interessantes, das canoas velhas que eram aproveitadas para serem puxadas por uma junta de bois e assim utilizadas como meio de transporte.
Paragem no Calai
Um dos meios de transporte terrestre da população indígena local
Paragem no Calai
Um dos meios de transporte terrestre da população indígena local
Paragem no Calai
Na outra margem do rio é o Rundu (Sudoeste Africano, actual Namíbia), onde ficava a base militar que nos apoiava militarmente (os chamados "primos")
E assim se fazia negócio no Calai, o importante era vender, mal acabavam de ser descarregadas as caixas de cerveja Cuca, que eram vendidas ás caixas e era fácil atravessar a fronteira de canoa com destino ao Rundu que era mesmo ali a dois passos.
(Quando cheguei aos Açores nos primeiros tempos ainda cheguei a beber cerveja Cuca)
Transporte em pequenas canoas grades cerveja Cuca
atravessando a fronteira através do Rio Cubango
Travessia de viaturas na jangada da M'Pupa
Como ficavam os pneus das viaturas durante
o percurso do M V L, muitos ficavam desfeitos
Neste M. V. L. seguia na última Berliet com alguns elementos do 4º grupo e não sei se seguia na mesma viatura o Girão ou o Brandão. Encerrávamos o “comboio” da coluna das viaturas civis e militares. Recordo que em determinada altura entre o Dirico e o Mucusso aconteceu o que menos se esperava, pois para acender um cigarro era coisa complicada por causa do vento que fazia devido há velocidade da viatura, e cada vez que se acendia um fósforo este apagava-se e o fósforo ia fora. Isto foi feito repetidas vezes até se conseguir acender o tão desejado cigarro e, como das vezes anteriores, deitava-se o fósforo fora. Claro que desta vez o maldito fósforo não se apagou de imediato e pegou fogo ao capim que estava tão seco que ardeu de tal forma que parecia que tinha sido regado com gasolina. A Berliet em que seguíamos ia bastante afastada do resto da coluna por alguma razão que não me lembro. Ora quem ia nas viaturas da frente não sabia o que se passava retaguarda, ao verem uma enorme quantidade de fumo negro, pensaram que tinha acontecido alguma coisa nalguma viatura da retaguarda. De repente surge a Berliet onde seguia o Filipe que veio ao nosso encontro para saber o que se tinha passado.
Algumas fotos dessa queimada:
Primeiros momentos do incêndio na savana
Com o capim extremamente seco depressa
as chamas se alastraram até ao início da mata
Outro aspecto da queimada
A queimada vista de outro ângulo já com a viatura em andamento
Regresso a Serpa Pinto do M. V. L. - Paragem no Caiundo
Para terminar, lembrei-me dum episódio que aconteceu comigo e com o condutor da Berliet, numa das saídas para os lados de Mavinga, e ainda hoje me arrepio ao pensar no que felizmente não aconteceu e poderia ter acontecido.
Depois de sairmos de Serpa Pinto era paragem quase que obrigatória no Longa para se petiscar alguma coisa e beber umas Cucas frescas. Eu seguia na Berliet rebenta minas e ao pararmos no Longa, pergunto ao condutor, que não me recordo quem era nem do nome, onde podia deixar as granadas que levava comigo, de maneira que ficassem escondidas para que ninguém mexesse, pois não dava muito jeito andar com elas penduradas no cinturão. O melhor lugar que ele arranjou foi debaixo do banco pois havia ali um espaço, por baixo onde estava a bateria.
Acontece que nunca mais nos lembrámos das granadas e recomeçámos a “viagem” para Mavinga.
Ao fim de algumas horas sente-se dentro da cabine um cheiro a queimado e algum fumo pois os cabos da bateria tinham-se soltado e estavam a fazer faísca e começaram a queimar a esponja do banco onde ia sentado. Quando retiramos o assento e vimos as granadas lá dentro e ficamos gelados sem pinga de sangue. Escusado será dizer que serviu de lição o susto que apanhámos, pois desde esse dia nunca mais deixei nada guardado naquelas condições. Tenho pena de não me lembrar quem era o condutor, pode ser que ele visite o Fórum e se lembre deste episódio e possa acrescentar mais alguma coisa além da cara com que fiquei na altura. O que é certo é que não tinha chegado a nossa hora, porque se tivesse, nada de nós os dois se tinha aproveitado pois de certeza que tudo teria ficado desfeito com o rebentamento de quatro granadas que estavam debaixo do assento.
Pois bem meus amigos, foi mais uma das minhas saídas e do 4º grupo, das mais longas talvez.
Para todos, aquele grande e forte abraço
A. Hermenegildo