quinta-feira, 28 de maio de 2009

OH HOME!! BOTA LÁ SENTIDO !!

(Por José Manuel Francês)


Manuel Ferreira Júnior, Capitão do S.G.E., comandante da C.C.S. Uma santa alma acoriana
(Oh home, bota lá sentido !!...)

Quem de nós não recorda com um sentimento de saudade as palavras carinhosas com que o saudoso Capitão Ferreira Júnior se dirigia ao pessoal da sua Companhia? …
Quem não recorda o carinho, quase como se fosse um Pai, com que procurava proteger todos os que “punham o pé na poça”?…
Em aerograma enviado a meus Pais, a 28 Maio de 1973, relatava um episódio vivido com o Capitão, igual a muitos outros que se foram repetindo, ao longo dos dias da nossa comissão…
Estávamos nós em M’PUPA ! Na solidão das terras do fim do mundo .
Tinha chegado o avião, com o nosso correio, com as encomendas que nos eram remetidas pelos Pais e não só…
Ao receber a minha encomenda, enviada por meus Pais … senti de imediato que o Capitão punha o seu “nariz” no ar !
Bolas, ele conseguiu saber antes que eu abrisse a dita, o que lá vinha…

Relatava eu , então o seguinte:

Recebi a encomenda que me enviaram. Obrigado. Qualquer noticia é sempre recebida com muita alegria. As encomendas então fazem-me sempre crescer água na boca… O queijo então “era” fabuloso!
Obrigado.Muito Obrigado ! Pois um queijo assim em M’Pupa é verdadeiramente raro…

O azar é que há muita gentinha a gostar. Então o Capitão é um dos principais clientes !
Quando me viu receber a encomenda disse logo: "Eh! Francês, logo vou à Messe “conversar” contigo !!
Chegou no final da tarde e disse ao entrar: "Não sei porquê, mas cheira-me aqui a queijo do Francês !!"
E pronto. Lá foi mais um a ajudar que rapidamente terminasse…
É um óptimo companheiro e muito Amigo. Gosto dele !


Com este pequeno texto, quero, uma vez mais deixar o meu testemunho e a singela HOMENAGEM a um AÇORIANO de GRANDE CORAÇÃO.

Obrigado Capitão Manuel Ferreira Júnior por tudo o que comigo partilhou.
Pudera eu agora abrir uma nova encomenda e senti-lo connosco !

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Operação Vendas Novas

(Por Fernando Moreira)




Entre amigos tudo deve ser comum, especialmente os amigos.”
Teofrasto

Pensei em contar uma história que metesse crianças e heróis, amizades interrompidas, e que terminaria com a citação de um outro Fernando que escreveu um dia algo como;
O homem sonha, Deus quer e a obra nasce
E ao fim e ao cabo tudo se resume a esta simplicidade, a sonhos e ao querer. Sonhos e querer que se materializaram no passado sábado dia 23 de Maio quando ao final de 35 anos consegui voltar ao convívio dos meus heróis de menino e de amizades que se mantinham e não estavam interrompidas, pois eu voltara a ser o Muano de 12 anos e eles os jovens de vinte e poucos.
Conversando com eles e observando-os dei por mim a pensar que estes meus heróis não o eram por terem arrasado com os índios que havia na paisagem, não o eram por terem conquistado cidades, as suas medalhas, aquelas que orgulhosamente ainda ostentam no seu peito são as amizades que contraíram com os seus camaradas de jornada e que ainda hoje mantêm polidas, brilhantes e que orgulhosamente exibem quando passam o braço pelo ombro do seu camarada e se lembram de M´pupa, Serpa Pinto, Fazenda Tentativa, Tabi, Cabinda e Lucola, ou quando, como me referia o Elias em conversa, o diálogo se faz de silêncios. Tudo fez parte... tudo é cumplicidade.
E regressando aos meus pensamentos, no rescaldo da “Operação” dei por mim a pensar que foi decerto isto que me atraiu nesta tropa, estes valores, esta amizade que ainda hoje mantêm viva, este facho que rodam perpetuamente entre eles de modo a alimentá-lo com o seu calor e que decerto se manterá vivo enquanto houver um que o possa fazer.
Mas também queria deixar registo de que o passado dia 23 será mais uma marca na minha árvore de vida, será um entalhe no lado feliz do meu embondeiro, pois regressar ao vosso convívio era algo que até há pouco tempo atrás nada faria supor que tal pudesse acontecer em tão pouco espaço de tempo. Graças em parte ao Fórum do Batalhão 4611, mantido pelo Luis Marques e à disponibilidade do Facas em se ter chegado à frente para organizar o encontro no seu “Kimbo”.
No regresso passei por casa da minha mãe e ao mostrar-lhe as fotos, “ela estava em pulgas”, como podem imaginar, exclamou: “Também estão a ficar velhotes!”
Entendam isto como um elogio...
E aqui estamos, as fotos falam por si, as legendas são só para referência mas gostava ainda de vos dizer que a prioridade hoje continua a ser a de não deixar ficar ninguém para trás, este foi o aperitivo, vamos a ver se em Novembro conseguimos pôr uma companhia a dar um passo em frente e a afirmarem-se presentes! Nem que seja ao som de uma “cornetada” do Silva.
“Conduta Brava e em tudo Distinta” creio que continua a ser o lema que norteia as várias batalhas que se apresentam na vossa vida.




Ponto de reunião
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Da esquerda para a direita, Figueira, Moita, Facas e Brazão. De costas Silva e Cabral
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Vítor Fernandes
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Visita ao museu da E.P.A. (o Bruno Moreira e o Elias)

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Luís Marques, António Moita e João Novo
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As bonitas filhas do Luís Marques (Filipa e Rita)
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Os primeiros tiros...
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Filipe Silva, Elias e Manuel Silva. Os segundos tiros...
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Luís, Novo e Moita
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Matão
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Pensam eles: tanta conversa ao fim de 35 anos...
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Facas, Elias e Filipe
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Hora do rancho
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Outro pormenor

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Outro aspecto do almoço
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Outro ângulo
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Figueira, Duarte, Filipe e Brazão
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Duarte, Filipe, Brazão e Girão
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Cabral, Fernandes, Filipe, Facas, Moreira, Luís, Moita, Novo e Brazão
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domingo, 24 de maio de 2009

REGRESSO

(Por Luis Marques)




No rescaldo da “Operação Vendas Novas”, iniciativa em boa hora assumida pelo António Facas, ficaram-me na memória as imensas conversas tidas à mesa do “Retiro do Bom Gosto” versando as memórias colectivas de todos nós, quase todas rondando os temas M´pupa, Serpa Pinto, Fazenda Tentativa, Tabi, Cabinda e Lucola.
Ficou patente que em todos está aprisionada uma saudade enorme das terras angolanas, a aguardar (até quando?...) pela sua libertação, seja porque forma for.
Ficaram-me igualmente gravadas as palavras sentidas do Fernando Moreira, confidenciando-nos guardar as cinzas de seu pai “mindele” Moreira com o propósito de as libertar no "Sítio do Vento – Vuku", no Lucola, lugar que ele escolheu para viver e morrer , desejo que a história impediu de concretizar.
Também eu desejo rever essa terra enfeitiçada, e “sentir” novamente o cheiro embriagante que exala da terra quente depois de uma chuvada. Talvez não consiga realizar este desiderato, mas acredito que o Fernando consiga o seu.
A este propósito, leiam o poema “regresso” da poetisa Angolana Alda Lara que se segue:


Regresso

Quando eu voltar,
Que se alongue sobre o mar
O meu canto ao Criador…
Porque me deu vida, e amor,
Para voltar……

Voltar…
Ver de novo baloiçar
A fonte majestosa das palmeiras
Que as derradeiras horas do dia
Circundam de magia……

Regressar …
Poder de novo respirar
(Ó minha terra!)
Aquele ardor escaldante
Que o húmus vivificane do teu solo encerra…

Embriagar uma vez mais
O olhar,
Numa alegria selvagem,
Que o sol,
A dardejar calor,
Transforma num inferno de cor!

Não mais o pregão das varinas,
Nem o ar monótono, igual,
Do casario plano…
Hei-de ver outra vez as casuarinas
A debruar o oceano…

Não mais o agitar fremente
De uma cidade em convulsão,
Não mais esta visão,
Nem o crepitar mordente destes ruídos…

Os meus sentidos
Anseiam pela paz das noites tropicais,
Em que o ar parece mudo
E o silêncio envolve tudo…

Tenho sede…
Sede dos crepúsculos africanos
Todos os dias iguais
E sempre belos,
De tons quase irreais…



Saudades…
Tenho saudades
Do horizonte sem barreiras,
Das calmas traiçoeiras,
Das cheias alucinadas…


Saudades das batucadas que eu nunca via,
Mas pressentia em cada hora
Soando pelos longes,
Noite fora…


Sim!
Eu hei-de voltar,
Tenho de voltar! Não há nada
Que me impeça…
Com que prazer hei-de esquecer toda esta luta insana
Que em frente
Está a terra angolana,
A prometer o mundo
A quem regressa!...

Ah! Quando eu voltar…
Hão-de as acácias rubras,
A sangrar numa verbena sem fim,
Florir só para mim…
E o sol esplendoroso e quente,
O sol ardente,
Há-de gritar
Na apoteose do poente
O meu prazer sem lei…
A minha alegria enorme de poder
Enfim dizer:
« Voltei!...»


Alda Lara (poetisa angolana. Nasceu em Benguela em 1930, morreu em Cambambe, Angola, em 1962)

domingo, 17 de maio de 2009

Recordações de Angola - 18 (Fazenda Tabi)

(Por António Facas e Luís Marques)


Um domingo de Futebol na Fazenda Tabi, em Fevereiro de 1974 (o Brazão a iniciar a jogada e o Capitão Teixeira de braço no ar a pedir a bola)



O Moita a finalizar a jogada (resultado: de escuro 2, de branco 1)


Uma defesa do saudoso 1º sargento Ribeiro (ao fundo a fiel assistência de sempre)


Ainda no Tabi.
As 2ªs, 4ªs e 6ªs. Feiras saía da Fazenda Tabi uma viatura com destino a Luanda.
Entre outras variadas razões a finalidade era levar o pessoal doente ao hospital militar, tratar assuntos no Grafanil e outros e também servia para levar os “desenfiados”, principalmente às 6ªs Feiras, passar o fim-de-semana em Luanda. Não éramos propriamente os únicos a fazer “isto”, porque encontrávamos muito pessoal das outras companhias e também da C.C.S., ainda bem !! .

A estrada de Ambriz para o Caxito, na zona da Fazenda Tabi


Até aqui todos se lembram? Acho que sim, porque isto era público e só quem não se “desenfiava” eram os pudicos. Mas não conheci nenhum na 3ª Companhia. Aliás conheci um (não interessa o nome) Não menos importante, vinha sempre a maior viatura que tinha-mos para transporte de pessoal, que era uma Mercedes 1924 a gasolina. O condutor habitual para estas andanças era a Veiga (certo?).
A entrada na cidade do Caxito, vinda da Fazenda Tabi
Num daqueles dias, não sei qual da semana, à hora habitual (6 da manhã?) tudo pronto para arrancar, o Veiga vê os níveis de óleo e água, dá ao arranque mas não conseguimos pôr a Mercedes 1924 a trabalhar. O Matão (cabo Mecânico), e os soldados, Gonçalves e o Macedo, utilizando todas as manhas possíveis e anteriormente praticadas, não conseguiram mesmo pôr em marcha a viatura. Foi feito o rastreio de quem necessitava mesmo de ir para Luanda, dando prioridade aos doentes e aos assuntos urgentes e lá fomos num Unimog, o que só veio a acontecer por volta das 8h00 da manhã. Já estávamos atrasados 2h00 em relação à saída habitual que como disse era SEMPRE por volta das 6H00, Isto porque tínhamos o pequeno-almoço para tomar no Caxito.
Depois era para arrancar em direcção a Luanda, havendo o cuidado de não passar junto à Fazenda Tentativa (sede do Batalhão), para não dar muito nas vistas (na realidade, existia um certo respeito. Receio, ou seria apenas para evitar chatices? (vou mais pela última...). Fosse o que quer que fosse, evitar a Fazenda Tentativa era essencial
Tudo bem: lá vão eles para Luanda e entre os destinos certos, estava o almoço no “Amazonas”, depois de tudo o resto tratado.

A estrada Ambriz / Caxito na zona da Fazenda Libonbos, onde se situava o posto de controlo


Um pouco antes de chegarmos à barreira de controlo, numa pequena descida, havia qualquer coisa que não era normal: um jeep da OPVDCA, fora do alcatrão e uns fulanos de braços no ar. Na altura não nos apercebemos o que se tinha, os estava a passar. A nossa viatura apenas transportava doente e nem sequer havia um operacional. Também não levávamos rádio. Também porque havíamos de levar? Nunca tinha acontecido nada digna de registo nas vezes anteriores.
Fomos então informados que tinham sido atacados e até havia feridos. O nosso pensamento (meu?...) foi o de “arrancar” e no primeiro aquartelamento dar notícia da ocorrência, no sentido de se tratarem os feridos e ver “ou apanhar” quem os tinha atacado.


A avenida principal da cidade do Caxito


Como na cidade do Caxito havia uma Companhia de Cavalaria (que eu conhecia por lá termos ido fazer um jogo de futebol de salão) e era mais perto que a sede do Batalhão, na Fazenda Tentativa, foi naquela que demos o alarme. Dado o alarme, partimos para Luanda. Até aqui pensávamos estar tudo bem.


A estrada de acesso à Fazenda Tabi

No regresso à Fazenda Tabi, já ao fim do dia., ou mesmo à noite, chovia que se fartava, estava “montes” de pessoal da C.C.S., armados, nos dois sentidos da estrada, a aguardar a passagem da nossa viatura e com ordens de conduzir o graduado da viatura (neste caso eu) à presença do 2º Comandante do Batalhão (major Moreira) e posteriormente ao próprio Comandante do Batalhão, Coronel Mendonça. Tudo isto se deve ter passado no mês de Março, ou Abril de 1974, porque eu tinha férias marcadas para Agosto desse ano – e isso foi logo ao ar. “Férias, nada, e não vamos ficar por aqui”, palavras secas intimidatórias e ameaçadoras do Coronel Mendonça.
Posteriormente vim a saber que houve troca de mensagens por todo o lado, as quais foram ouvidas pelas transmissões da C.C.S. Bom, o desgraçado do furriel Facas estava referenciado.
Levei uma tal “descasca”, que mais anos que viva não a irei esquecer. Felizmente tudo passou. Não vim efectivamente de férias em Agosto, Mas vim em Setembro, graças ao esforço desenvolvido pelo nosso ex-capitão Teixeira. Depois do regresso de férias ficaram a faltar dois meses para a desejada “peluda”.



Outro aspecto da estrada de acesso à Fazenda Tabi

Reconheci que errei. Que não dei o protagonismo a quem devia, ou a quem queria.
Estamos aqui a recordar estes factos e a pensar que se a tal Mercedes 1924 nesse dia não quis trabalhar e tal facto levou a um atraso de 2 horas sobre o horário habitual, julgo que a emboscada nos era dirigida, caso a tal Mercedes tivesse colaborado e quisesse ir connosco até Luanda
A única coisa que se aproveitou foi o almoço no “Amazona”, porque o pequeno-almoço no Caxito, esqueçam.

sábado, 16 de maio de 2009

SPM 6676

(Por José Manuel Francês)

Em 15 Abril de 1971, iniciava eu a minha vida militar, jovem imberbe, acabado de deixar pela primeira vez o colo acolhedor de meus Pais, chegando ao RI5 – Caldas da Rainha.
Após uma noite de viagem, dos factos dava conta em carta que meu saudoso Pai foi guardando ao longo da ausência, factos agora reencontrados e revividos.




Sem imaginar que era o primeiro passo de um período longo da minha juventude ( Abril de 1971 a Novembro de 1974 ) que me iria conduzir a inúmeras experiências, ao conhecimento de novas terras e Povos, mas acima de tudo a uma “nova Família”.
Naturalmente, como a todos nós, ex-militares, os primeiros dias foram tenebrosos. Era o habituar a uma nova realidade, um novo ritmo contrário a tudo o que até então se tinha vivido,
na maior parte das vezes, com o anular da vontade e desejo individual, preparando-nos para uma guerra que não queríamos, mas para a qual estávamos praticamente todos condenados.
O levantar, não ao som melodioso da voz de nossas Mães, como estávamos habituados, mas ao som de um clarim nem sempre bem tocado, com o ritmo alucinante de que a partir desse
momento tínhamos que correr, saltar, comer e não descansar, era já o preâmbulo das inquietações que passaríamos a viver.
Depois de uma recruta e do curso de enfermagem acelerado tirado em Lisboa, juntou-se um meio ano dito de especialidade em Elvas, e, já conhecedor de uma mobilização para Angola, fui
colocado em estágio, antes de sair para a formação do Batalhão, finalmente junto de casa no RASP, em Vila Nova de Gaia.
Devo dizer que ainda hoje me pergunto, porquê enfermagem, eu que até estudava “engenharia mecânica” !!
Finalmente, lá me tive que apresentar em Évora, para a formação do Batalhão de Caçadores 4611/72 !
No mesmo dia fui recambiado para Santa Margarida, juntamente com outros para arrancar com os preparativos.


A 10 de Novembro de 1972, escrevia a meus Pais, dando conta de que o embarque para Angola se iria efectivamente realizar, e informando o endereço postal: SPM 6676!



Seria naturalmente extensivo, descrever todos os sentimentos e situações que nos conduziram até ao NATAL de 1972.
Fui procurando “ocultar” o que de menos agradável ia ocorrendo, e transmitindo sempre sensações de bem-estar e alegria.
Naturalmente que recordo hoje algumas situações que me marcaram neste período.
A primeira viagem de avião!
A chegada a Luanda na manhã de 11de Novembro de 1972, onde o calor e humidade então sentida à porta do avião, parecia ser uma barreira a não transpor. O Grafanil e tudo o que ele representava.

Um veterano completamente cacimbado, que aguardava a partida para o “putu” e me ofereceu um calendário que ele tinha feito, e que me acompanhou durante toda a comissão , dizendo-me :
Ò maçarico, só te faltam 730 Dias !!
Em cada manhã a partir desse dia , alterava a contagem decrescente…na esperança de que rapidamente chegasse o dia do regresso.
Foi depois a viagem no MVL desde Luanda até M´Pupa. Foi nesse período que aconteceu o 1º acidente, o Roriz, logo ele, tinha que deixar um dedo anelar ser decepado pelo anel que a namorada lhe tinha oferecido.
Foi o chegar, a um local que se revelou, felizmente, um pequeno paraíso, onde fomos estreitando as nossas relações de amizade e conhecimento.




A "piscina" de M´pupa, no rio Kuito

Foram as caçadas, já descritas neste Fórum! Foi o nascer do espírito, forte , que hoje nos une , foi o contar das horas com o som da cachoeira no rio, onde nos banhávamos, foi o nascer e por do sol, foram os cheiros e as cores, foi a chuva e o frio, foi a interligação com o Kimbo Ganguela que tínhamos paredes meias com o aquartelamento.




O aquarelamento de M´pupa (em primeiro plano o edifício do Comando do Batalhão e ao fundo o posto médico, "reino" do José Manuel Francês)

Foi o jovem João Lupembe Cassela, a quem decidi dar “conhecimentos“ a que ele não tinha acesso. Aprendeu a ler, a dar injecções, a fazer pequenos tratamentos e era um mais na equipa de enfermagem.


Assistência médica às populações, uma das tarfefas executadas pelo José Mauneul Francês e a sua equipa de enfermeiros, entre os quais o João Lupembe Cassela

Acreditem que tenho saudades, do rapaz de então, hoje, espero, feito homem, e que me fez verter lágrimas, quando chegado o dia de partir para a Fazenda Tentativa me pediu:
“ Dotor, leva-me contigo … quero aprender mais. Eu já não posso ficar aqui na M’pupa! “
São palavras que tenho bem guardadas nas minhas recordações.
E entretanto chegou o primeiro Natal, que tendo em conta as condições em que estávamos, se anunciava como triste.
Foi o nosso espírito de grupo, a nossa amizade e a capacidade de criar praticamente todas as condições que permitiu que eu dissesse a meus Pais, que “ até me esqueci que estava em M’Pupa, pois o menino também nasceu aqui!...".



sexta-feira, 15 de maio de 2009

Batalhão de Artilharia 635

(Por Luís Marques)



Hoje de manhã, ao "abrir" a caixa de correio do Fórum 4611, encontrei a mensagem que abaixo reproduzo.
A mensagem vem de França e foi-nos enviada pelo António Gonçalves Martins Pereira, ex- 1º Cabo nº 2297/63, que prestou serviço militar em Angola na C.C.S, do Batalhão de Artilharia 635, no período de Fevereiro de 1964 a Junho de 1966 (bem "velhinho", portanto).
O António Pereira vive em França (43, Rue de la Poste, 01200, Bellegarde, France).

A mensagem é esta:

"Muito obrigado.
Assim começo a minha mensagem.
Hoje mesmo , 44 anos depois, revejo fotos que me mostram por onde eu andei, desde Fevereiro de 1964 até Junho de 1966. Pertenci ao Batalhão de Artilharia 635 da companhia da CCS. Em 1964 estivemos em Zala, mas uma companhia ocupava Vila Pimpa e outra na Bela Vista. Em Janeiro de 1965 estivemos em Ambriz e Ambrizete, ocupando ao mesmo tempo as fazendas mais próximas.
Quero acrescentar que não tenho saudades da guerra, mas sim de muitos amigos, que nunca mais reencontrei.
Aqui deixo neste vosso site mais um pedido para encontrar alguns amigos de outrora. Aqui deixo o meu endereço se não vos incomoda.
antoniopereiragoncalves@sfr.fr
Uma vez mais muito obrigado por tudo e parabéns.
Um abraço a todos os ex-militares em geral.


Não tenho saudades da guerra
Mas sim de tantos amigos meus
Companheiros de uma longa fada
No melhor tempo da nossa mocidade.

Por entre matas e picadas
Tantas vezes imploramos a Deus
Que nos guiasse até á nossa terra
Ali reencontrar a nossa amada
Para uma união de felicidade."

Pessoalmente estou convencido que a publicação desta mensagem no nosso blogue vai ajudar o António Pereira a encontrar os seus antigos camaradas que com ele estiveram em terras angolanas. O nosso blogue parece ter essa vocação. Vejam o que se passou com a família Sousa Lara e com o nosso Fernando Moreira.
Estou também convicto que os nossos "coca-bichinhos", não vão descansar enquanto não localizarem o rasto do Batalhão de Artilharia 635, nessa montra virtual que é a Internet.

Conto com isso e tenho esperança que em breve poderemos anunciar mais um reencontro.

O e-mail do António Preira é:

antoniopereiragoncalves@sfr.fr

quarta-feira, 13 de maio de 2009

O reconhecimento da Pátria (que não temos...)

(Por Luís Marques)

A nossa Pátria, para fazer-se amar,
deve ser amável


Edmund Burke, in “Reflexões sobre
a revolução francesa”


Em Portugal, muito recentemente, foram trasladados os corpos de alguns militares (pára-quedistas da Companhia de Pára-Quedistas 121) mortos na Guiné.
Foram transportados no porão de um avião civil, desembarcados sob o maior sigilo e entregues às famílias, tudo isto num aeroporto militar, o de Lisboa (Figo Maduro), longe, bem longe, dos holofotes da comunicação social, que preferiu encolher os ombro e assobiar para o lado, dando destaque a outras notícias que reputa de mais importantes.
Acresce que a trasladação não se deveu a qualquer iniciativa do governo português, mas a um conjunto de boas vontades e empenho de antigos militares, sob a égide da respectiva associação, fiéis ao lema dos pára-quedistas portugueses, "ninguém fica para trás".
Tudo isto 35 anos após a independência daquele país africano.
Vem isto a propósito, se outra razão não houvesse (e há!), das imagens que aqui publicamos no Fórum 4611 que documentam a homenagem prestada pelo povo do Canadá a 6 seis dos seus militares mortos em combate.
Em Portugal, nunca se viu uma homenagem deste tipo a quem dá a vida pela Pátria (sejam Soldados, Polícias ou Bombeiros).
Faz parte da cultura e da educação de um Povo.
Como nos dizia há dias o Fernando Moreira, “Esquecer o passado, não aprender com ele e não o honrando será uma forma dos povos irem perdendo o seu horizonte”.
Continuamos a ser um povo ingrato e ridículo, que em vez de defender quem nos protege, apenas se lançam criticas, por que é moda falar mal do próximo.
Em Portugal só fazemos isso pela Selecção Portuguesa de Futebol, que nunca ganhou coisa nenhuma, embora sejam pagos ao peso do ouro.
Estas imagens mostram bem a diferença de cultura de dois Povos.
Enquanto num país se escondem aqueles que derramaram o seu sangue pela independência e liberdade da Pátria, remetendo os seus restos mortais, “esquecidos”, para a porta das traseiras, e arrumando-os num qualquer saguão, noutro país prestam-lhes a merecida homenagem.
Enquanto isso, os que têm vergonha dos seus verdadeiros heróis, enaltecem os seus mercenários e os “heróis” de pacotilha, pagos a peso de ouro.
Soubesse a Pátria honrar aqueles que por África andaram e os que lá morreram.... Acho que não era pedir demais.


A chegada do avião que transportou os restos mortais dos seis soldados mortos em combate à base militar de Trenton, Canadá
A auto-estrada por onde passou o cortejo fúnebre passou a denominar-se "Auto-estrada dos Heróis"

A partida do cortejo da base militar de Trenton, a caminho de Toronto

Ao longo da estrada milhares de cidadãos vestindo "t-shirts" vermelhas


Ao longo do percurso, os bombeiros com as suas mãos sobre os seus corações


Entre Trenton e Toronto, há 50 pontes, todas elas ocupadas por policias, bombeiros e, especialmente, pelo povo anónimo


A população veio saudar estes heróis


Os cidadãos de Oshawa nas pontes a saudar os seus heróis

um popular anónimo a saudar os militares mortos

O capitão Mark Bossi, que serviu no Afeganistão, tenta conter as lágrimas ao longo da estrada


Seguem-se algumas imagens da cerimónia de homenagem aos três pára-quedistas cujos corpos foram resgatados das suas sepulturas na Guiné pelos seus antigos camaradas.

Quero destacar que a homenagem foi uma iniciativa da Associação de Pára-quedistas e teve lugar na Base Aérea de Tancos. Não foi, portanto, uma homenagem da Nação. Porquê?


Os três soldados pára-quedistas trasladados da Guiné por iniciativa dos seus antigos camaradas:

Soldado pára-quedista António Vitoriano



Soldado pára-quedista José Lourenço

Soldado pára-quedista Manuel Peixoto

Que descansem na paz eterna as almas destes bravos!

BATALHÃO DE CAÇADORES 4611/72

BATALHÃO DE CAÇADORES 4611/72
conduta brava e em tudo distinta