Na verdade, deverei referir que não gostava mesmo nada de fazer operações e sempre que me era possível, “baldava-me”.
Dava primazia às colunas de apoio e protecção a civis, aquilo que era designado por M V L (Movimento de Viaturas Logísticas). Fiz 8 ou 9 para Mavinga – Rivungo e apenas 1 para a Coutada do Mucusso.
Os 2 anos que tínhamos que permanecer em Angola deviam ser passados da melhor maneira possível.
O problema começa quando aprendemos a gostar do sitio onde estamos , “ANGOLA”. E estando nas “Terras do Fim do Mundo” ainda tínhamos tempo para passar fins-de-semana em Moçâmedes, Sá da Bandeira ou Silva Porto. Creio que o fizemos sempre no velho Mustang vermelho do “Velho” Bonifácio.
As recordações aparecem aos poucos. Preparava-me para contar a história daquilo que normalmente era a nossa vivência num MVL, quando de repente me chega à lembrança uma outra história, porventura interessante.
Perante esta situação, uma secção ficou a dar protecção à viatura civil avariada perto da lagoa da Capua. Lá ficámos cinco: eu, o Miúdo, o Marfunha , o Sacassueca e o 1º cabo condutor Dinis, sem rádio e com uma Berliet das curtas, enquanto a restante coluna de reabastecimento seguiu o seu destino.
Nisto, o Dinis teve um ataque de apendicite. Tive que tomar a decisão de pegar nele e na Berliet e levá-lo até ao Cuito Cuanavale (só tirei carta de condução na cidade do Caxito). Cheguei ao Cuito e entreguei o Dinis ao comandante da unidade, que, tanto quanto me recordo, era um Major.
Expliquei-lhe a situação. Mas o tal major não queria deixar-me sair de volta por ser "muito perigoso aquele percurso", dizia o desalmado.
Consegui explicar-lhe que tinha que ir, pois tinha lá 3 soldados e 1 civil sem qualquer meio de comunicação ou transporte. Após ter sido convencido deixou-me abastecer de combustível e rações de combate e lá fui de volta.
Ao chegar ao local a que chamávamos de “Chana Grande”, eu, "experiente condutor sem carta", ligo as redutoras e lá vou de peito feito para enfrentar o que restava do percurso.
Perto da picada que seguia para o Lupiri, havia umas curvas “marafadas” mesmo no limite da chana e a Berliet parou, pois a areia era muita e a viatura não tinha força suficiente para a vencer.
Eu levava sempre uma catana comigo e comecei a cortar bissapa para por debaixo das rodas para ganhar maior aderência (prática que era usual nas viaturas civis, sendo que esta era a principal razão porque os civis levavam sempre um ajudante. Frequentemente ouvia-se: “Mete pau filho da p…”).
Passado algum tempo, que me pareceu uma eternidade, exausto, sem forças, a viatura não saia do mesmo lugar. Aí, parei, descansei e pensei; nunca vi isto acontecer a uma Berliet, o que é que está aqui de errado?
Sabem o que foi? Quando pensei ter colocado as redutoras, desliguei-as e só com tracção a 2 rodas nem as Berliets andavam naquela areia. Passadas algumas horas, sem mais incidentes, lá estava de volta à minha secção.

Estas duas fotos mostram o António Moita nas margens da Lagoa Capua, nas "Terras do fim do mundo"
















































