sexta-feira, 13 de novembro de 2009

O Baile das viúvas


(por Jorge Correia)

Em tempos não muito distantes, era frequente promover umas embaixadas até ao Algarve, o destino era mais propriamente São Brás de Alportel onde ficávamos instalados em casa do nosso amigo, camarada, companheiro, soba e sabe-se lá mais o quê,....Moita !! bem, na verdade não era bem uma casa normal, era mais uma mansão que o Moita costumava alugar no Verão a estrangeiros. A mansão tinha dois pisos, oito quartos todos com casa de banho privativa e um terraço panorâmico no piso de cima e em baixo, um salão enorme, uma cozinha igualmente enorme, piscina e churrasqueira. Em diferentes ocasiões fui lá com o Madeira, o Figueira, o Girão e o Ramalho. Nesta história como podem ver pelas fotos, os intervenientes foram o Madeira, o Ramalho e eu próprio.

Durante o dia, os passos já eram mais ou menos conhecidos, encontrávamo-nos com o Moita, íamos todos almoçar, visitávamos a Pousada, ao Domingo almoçávamos na quinta, enfim, frequentávamos os “mentideros” da região e conhecíamos os amigos do Moita, nos mesmos locais de sempre tal era a frequência que registávamos nestas nossas deambulações,...em duas ocasiões fomos mesmo ter com o grande ilustre Vidigal a Portimão.
Entretanto, depois do jantar com uma amena cavaqueira a acompanhar, colocava-se a velha questão,....e agora ??? o programa acabava invariavelmente por ser o mesmo de sempre....Destino: Baile das Viúvas. Numa localidade perto de São Brás, um clube de baile promove bailes onde senhoras viúvas e divorciadas, se relacionam com amigos já conhecidos e fazem novas amizades, num convívio salutar, pois é sabido que parar é morrer e há que criar motivos para continuar na luta por perspectivas de vida animadoras.
Por sabermos que isto é uma grande verdade, aqui vão estes três operacionais, ( o Moita não ia, pois não tinha ordem de soltura e a patroa estava atenta) aliás dois operacionais e um especialista de rádio transmissão (de pensamento) mas a culpa não era dele, era dos rádios que já estavam todos marados.
Onze horas da noite; avançamos decididos a partir tudo no clube de baile das viúvas. Entramos e fazemos imediatamente o reconhecimento do terreno, escolhemos uma mesa ao canto como é de bom-tom (somos gajos discretos) e estudamos o ambiente com vistas a um possível avanço táctico. Chegam os primeiros Gin´s Tónicos. Decidimos avançar para os nossos alvos preferenciais, três ainda esbeltas senhoras que nos parecem divorciadas (talvez) ....azareco, três tampas devolvem-nos à procedência e abancamos de novo no nosso canto, estudando novas estratégias para novas investidas com melhores garantias de sucesso. Chegam os segundos Gin´s Tónicos. Decidimos que desta vez teríamos que ir ao assalto de material mais pesado, tipo 2ª guerra em bom estado de conservação.
Partimos para os nossos alvos já previamente escolhidos e desta vez houve um sucesso a 100%. Convido uma senhora viúva para dançar, e ela simpaticamente, com um sorriso aceita e começamos num slow que era precisamente o meu forte nos idos anos 60 de boa memória. Nunca fui um bom dançarino, muito longe disso, nos anos 60 o meu tipo de dança baseava-se mais no esfreganço que no dansanço. Mas enfim, ali em consideração para com a minha parceira de ocasião, lá fui fazendo o meu melhor, mas a verdade é que o meu melhor, era muito pouco,...depois das primeiras pisadelas, pedi desculpa e lá fui conseguindo acertar o passo,..a minha viúva, essa via-se que dançava, era uma batida.
Ali mesmo ao meu lado reparo que estava o Madeira, esse sim, rodopiava em bom estilo, fazendo lembrar um dançarino ainda na activa,...a viúva dele acompanhava o ritmo com facilidade, formavam um bom par. Mais distante consigo avistar o Ramalho que num estilo mais pesadão, agarrava a sua viúva decididamente, tipo, 'esta é minha e já ninguém a agarra'. Bom, lá fomos indo enquanto a música o permitiu, pois quando mudaram o tom para coisas mais mexidas, ritmos latino-americanos e afins, encostámos ás boxes. As viúvas simpaticamente acompanharam-nos e em amena cavaqueira trocámos informações mútuas, do género "jogar conversa fora" como dizem os brasileiros. Desta vez já era tardote e vieram uma cervejas com chamuscas e sandes de fiambre. Quando regressava um slowzito, aí íamos nós feitos malandrecos dar mais um pezinho de dança. No fim, queremos saber a sempre abalizada e técnica opinião do Ramalho sobre o material de guerra que nos calhou,....com o seu ar formal responde, que naturalmente não têm nada a ver com os cafecos africanos, mas enfim, podiam estar em pior estado. Ficámos esclarecidos !!
Bom, com isto tudo, eram 4h da matina, hora de fecho do recinto. O Madeiral ainda sugere uma última aventura com as viúvas, no nosso quartel general, mas decidimos desistir, pois era chato prolongar a operação sem conhecimento do comando de operações.
E assim, acabamos por regressar aos nossos aposentos, mais uma vez com a sensação do dever cumprido, não sem antes irmos ao pão quente que marchava que nem gingas com umas bejecas. E pronto, dois operacionais e um especialista, vão a caminho dum xixi cama para um soninho retemperador.



O Madeira, o Ramalho e o Jorge Correia, recentemente na casa do António Moia em São Brás de Alportel


O Ramalho e o Jorge Correia em São Brás de Alportel (centro do mundo, como lhe chama o António Moita)


Nada de conclusões precipitadas. Trata-se do Jorge Correia, mas em Fortaleza, Brasil, quando ele por lá passou no final do mês de Outubro a caminho de São Luís do Maranhão.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

11 de Novembro de 1972

(Por Luis Marques)



Hoje é dia de São Martinho.
Há 37 anos atrás também era dia de São Martinho.
Mas faz hoje precisamente 37 anos que os militares da CCS do Batalhão de Caçadores 4611/1972 chegaram a terras angolanas.
Aeroporto de Figo Maduro, em Lisboa, dia 10 de Novembro de 1972, pelas 23:00 horas.


Aspecto do Aeroporto de Figo Maduro em 1972
Fez ontem 37 anos que, há mesma hora em que escrevo estas linhas, estávamos todos em Santa Margarida, com o coração bem apertado, apesar de a maior parte de nós procurar demonstrar o contrário.
Lembro-me da última refeição antes do embarque, o almoço. Na messe de Sargentos de Santa Margarida fomos surpreendidos por um suculento e saboroso bife com batatas fritas e arroz, e como sobremesa umas apetitosas castanhas assadas. Os militares que serviam na messe colocaram um cartaz de saudação, muito simpático, cujo teor já não me recordo.


O Ameixa (infelizmente já falecido), o Godinho, o Dário e o Cabecinha em Santa Margarida no dia 11 de Novembro de 1972, antes do embarque para Angola

Foi o primeiro dia de uma ausência de mais de dois anos.
A maior parte de nós só regressou a Portugal no final de Novembro de 1974.
Éramos então jovens de 20 anos, algo irreverentes, e em pleno vigor da vida, com a cabeça cheia de sonhos, que uns conseguiram concretizar, outros nem tanto...
Foi o início de um percurso por uma vereda que por vezes se revelou estreita e agreste.
Que pensamentos nos acometeram nessas 9 horas de viagem? Que medos e maus presságios viajaram connosco?


Certamente foi esta uma das primeira visões que tivémos de Luanda, no dia 12 de Novembro de 1972, pela manhã, antes de aterrarmos no aeroporto de Luanda (no caso o Bairro da Maianga)


A Baía de Luanda, capital da província de Angola, cidade onde desembarcámos na manhã do dia 12 de Novembro de 1972


O bulício da baixa da cidade de Luanda em 1972, foi para muitos de nós uma surpresa
Já no próximo dia 14, sábado, vamos todos poder reviver e lembrar, não só o dia 11 de Novembro de 1972, como os dois anos de comissão. Falo, como já compreenderam, do XI encontro anual da CCS do Batalhão de Caçadores 4611/72, que este ano se realiza em Évora, cidade onde o Batalhão teve o seu início.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

REENCONTROS - Mais um capítulo

(Por Jorge Correia e Luís Marques)


"Fica proibido deixar os teus amigos,

Não tentar compreender aquilo que viveram juntos,
Chamá-los somente quando precisas deles"

Pablo Neruda "Fica proibido" (fragmento)
 
 
 


Aspecto do jantar. Moita e Facas (encobertos), Girão, Ramalho, Madeira,Fernando,Figueira, Novo e Marques. faltam o Coreia (do lado de cá da objectiva) e o Cabral, que está encoberto pelo Moita


Local: Cidade do Barreiro, Restaurante Napolitano.
Presentes: José Cabral, António Moita, António Facas, Artur Girão, Jorge Correia, João Novo. Manuel Figueira, Fernando Moreira Carlos Madeira, Luis Ramalho e Luís Marques (muitos mais, no nosso pensamento).
Data: 27 de Outubro de 2009
Motivo (é preciso haver um?): despedida do Jorge Correia.
Ingredientes: muita conversa da treta e de grandes tretas, boa comida e bebida

Esta seria a síntese de mais um encontro entre alguns antigos camaradas do Batalhão de Caçadores 4611/1972 (CCS e 3ª Companhia) que ocorreu no final do passado mês de Outubro, ao final do dia.


Outro aspecto do jantar


Mas este encontro representou muito mais do que aquilo que atrás está referido.
A razão primeira (melhor dizendo: a desculpa) foi dar um abraço de despedida ao Jorge Correia, que estava de regresso a São Luís do Maranhão, Brasil.
Lá no fundo, verdadeiramente, foi mais um pretexto para reavivar velhas amizades e um pé-de-cantiga para dois dedos de boa conversa com amigos que se reencontram quando sentem vontade de estar uns com os outros.
Como não podia deixar de ser os temas das conversas tidas à mesa andaram à volta dos tópicos, Angola, Serpa Pinto, M’Pupa Cabinda, etc. E muitas descobertas e revelações continuam a ser feitas. Muitos sorrisos, gargalhadas e olhares errantes, recordando o passado, continuam a provocar essas cavaqueiras...
Aqueles que ainda não apareceram, juntem-se ao próximo encontro informal e sintam como são verdadeiros os sentimentos que nos cercam nessa alturas.



Girão, Facas, Moita Cabral, Madeira e Fernando (ambos de costas)


Figueira, Fernando, Madeira e Ramalho

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

XI convívio anual dos ex-militares da C.C.S. do Batalhão de Caçadores 4611/72 (2)

(Por António Godinho e Luis Marques)



O XI encontro dos antigos militares das C.C.S. do Batalhão de Caçadores 4611/1072, que irá decorrer em Évora no próximo dia 14 de Novembro, terá como um dos seus momentos altos o descerramento de uma placa comemorativa do acontecimento no salão de entrada do Comando de Instrução e Doutrina de Évora (ex – RI16).




Dada a importância deste acto, a presença dos antigos militares da C.C.S. é muito importante.
Uma vez que o programa que antecede o almoço propriamente dito é muito vasto e o tempo para o completar é escasso, aqui fica o horário do referido programa:



10:00- Concentração em frente ao quartel do Comando de Instrução e Doutrina (antigo RI16).
10:30- Missa na Igreja da Nossa Senhora da Pobreza.
11:30- Homenagem aos militares falecidos junto do monumento em frente ao Comando de Instrução e Doutrina.
11:45- Descerramento de uma placa da companhia no salão de entrada do quartel do Comando de Instrução e Doutrina.
12:00- Visita ás instalações do Comando de Instrução e Doutrina.
12:30- Partida para o local do almoço.
13:00- Almoço

 Não faltes ao XI encontro anual.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

JUSTIFICAÇÕES / EXORCISAR FANTASMAS

(por Filipe Silva e Martins Correia)


Diz Filipe Silva:

Amigo Correia, um abraço para ti e todos os companheiros de armas (fórum).



O 4º Grupo de Combate da 3ª Companhia (o pelotão do Filipe Silva)



Já li e reli a tua mensagem justificativa do “célebre pé”, e tenho de exorcizar alguns fantasmas desse passado próximo, ou seja de 1972.
Após terminar, em Lamego, o 2º ciclo em Operações Especiais de Infantaria, vulgo Ranger, a 17 de Março de 1972, fui colocado no RI 16 em Évora, onde se estava a reunir o Batalhão 4611 / 72.
De salientar que estava mobilizado desde 28 de Fevereiro de 1972... Ainda não tinha terminado a especialidade como Ranger no CIOE , do qual era comandante o tenente coronel Mendonça, que me não lembro de ter conhecido lá.
De Évora fomos recambiados para Abrantes e logo de seguida para Santa Margarida para o célebre IAO, a aguardar embarque para Angola.
Quando me apresentei ao comandante Mendonça, levei logo uma descasca por me apresentar de cabelo rapado.
Começaram, aí, as nossas discussões periódicas, dado eu ter tido de lhe explicar que se tratava dum mero acto de higiene, mas podendo ele passar a considerá-lo de protesto a partir daquela data.
A 2ª foi quando me mandaram para casa, 10 dias de férias de embarque, com um rol de fardas para comprar. De imediato perguntei ao dito Mendonça: - Como é que é isto, até temos de comprar enxoval para ir para a guerra ?
A resposta do “bicho” foi: - Veja lá se não pode dispor de alguns milhares de escudos, que depois o exército lhe pagará !
Fiz-lhe logo as contas: - 850 escudos para a renda da casa, mais a alimentação da mulher e do filho, pediatra, etc., a pagar com os 170 escudos que me pagaram durante 6 meses, acha que tenho poucas dívidas? O Cristo é que fazia o milagre da multiplicação!
Após este auspicioso inicio de guerra, lá fomos para Serpa Pinto, onde se desenrola toda a problemática do Pé do Correia, que para mim culmina com a nomeação de comandante interino de companhia, com todas as responsabilidades inerentes ao cargo e um “chorudo vencimento” de 12 mil escudos mensais. Vejam que o 1º Sarg. Campos ganhava 17...
Esta constatação, e o facto de ter tido 4 dias de quartel nos primeiros 6 meses, por ter de fazer todo o tipo de operações, a nível de companhia, a nível de batalhão, a nível de sector e terminando com MVL, acções psicológicas e até uma base táctica, conduziu a mais uma confrontação com o Mendonça.
Desta vez o caso foi mais sério e meteu ameaças de ambos os lados.


Imagem de Serpa Pinto em 1973

O Campos, quando eu regressei de mais uma operação, julgo que de Vila Nova da Armada, apresentou-me dezanove participações de furriéis ( mais de uma contemplava alguns ).
Fiquei furibundo e rasguei-lhas todas nas trombas... Por seu lado ele apresentou a despacho um requerimento, dirigido ao Mendonça, para mudança de companhia por incompatibilidade com o comandante interino... E eu despachei!
Pouco tempo depois, recebi ordem para não sair da unidade em qualquer tipo de missão, até ordem do Mendonça, que se apresentou na companhia umas duas semanas depois.
Começou de peito feito a berrar que nem cabra desmamada e aos murros na secretária, no que eu o imitei de imediato. Acabei por lhe dizer que estava farto de gente que passava o pouco tempo que eu tinha, sem estar no mato, a participar dos furriéis e de tudo e todos. E que se ele se sentia mal na companhia eu não tinha o direito de o obrigar a ficar, e não pensasse que eu ia pedir desculpa ao Campos por lhe ter dito que ele era uma aberração e que lhe aplicava 20 dias de cadeia para ele aprender a respeitar os oficiais milicianos !
Mais uma vez o Mendonça me ameaçou com uma porrada, e ficou apopléctico quando eu lhe disse que já vinha tarde, pois eu já tinha um louvor do comandante da região militar de Angola, que até tinha muitas estrelas...
As coisas azedaram ao ponto de eu lhe ter dito que ou ele arranjava um comandante para a companhia, até ao fim do mês, ou desertava!
Respondeu-me que se eu estava mal que fosse agradecer ao capitão Correia, que tinha partido um pé no quarto, de propósito, para não ter de ir para o mato ! Julgo que foi daqui que surgiu a lenda “do pé”...
Não sei se ele acreditou ou não no que eu lhe disse, pois respondeu que já sabia que eu era o único oficial da companhia que cumpria com a palavra, fossem quais fossem as consequências, mas que também sabia que eu cumpria rigorosamente as ordens de combate.
Que tivesse calma e paciência que um novo capitão já estava nomeado.
Foi quando, julgo que nos finais de Maio de 72, apareceu o Teixeira.
A partir desta altura as coisas passaram à normalidade.
Um abraço amigo, para todos.

Filipe Silva



Diz Martins Correia:

Caríssimo Filipe:







A estrada de Serpa Pinto em direcção a Nova Lisboa


Tu fazes-me lembrar uma engenheira que trabalhou comigo na R.T.P. Parece que um de vocês é uma clonagem do outro. Além de serem ambos competentes, aquilo que em consciência têm a dizer ou a fazer, não estão com meias medidas.
Algum tempo depois de me porem essa engenheira no meu Departamento, alguns perguntavam-me: "Consegues aturá-la?" "É muito chata?". Como as pessoas confundem a nossa frontalidade com o ser-se chato!...Porém dei-me lindamente com ela. Sempre que ela não concordava comigo, com um sorriso nos lábios, "não mas perdoava". Como não há ninguém perfeito, com ela, sabia sempre das minhas falhas, o que não acontecia com outros que só ratavam pelas costas. Porém, na área da engenharia, ela era a mais competente. Trabalhos mais complicados, era a ela que eu recorria. E mesmo que alguma coisa ela não soubesse, arranjava sempre uma saída, para chegar à solução. Contudo, achava piada que ela, quando tinha de lidar com certas pessoas do tipo do nosso Tenente-coronel Mendonça, ia ao meu gabinete e dizia-me: "Com este fale o engenheiro, porque eu não tenho paciência para o aturar e o engenheiro é mais diplomático". Lembro-me que, nos últimos tempos que eu estive na R.T.P., tinha que ser sempre eu a falar com o responsável de S. Tomé e Príncipe.
Quando eu saí da R.T.P., única empresa onde sempre trabalhei, aproveitando uma "deixa" da lei, através da qual consegui receber uma indemnização e ao mesmo tempo uma reforma por inteiro e antecipada de 7 anos, tive que falar com a Administração, para me deixarem sair. E eu gostava tanto dessa engenheira (profissionalmente, nada de confusões) que a propus, para me substituir, porque era necessário garantir que não haveria no futuro falhas com os PALOP´s (Nós éramos os responsáveis pela instalação e manutenção das redes de emissão da RTPi nesses países).
Portanto Filipe, não te arrependas de ter sido frontal com ninguém, quando essa frontalidade é emanada pela nossa consciência que nos diz que algo deve ser dito ou feito. O nosso valor está na nossa competência. Só os incompetentes e orgulhosos é que não aceitam ouvir as críticas e as opiniões dos outros. Pelo que te conheço, sempre te considerei uma pessoa competente e sempre contei contigo, enquanto estive na companhia.
Quanto ao conselho do Mendonça de "agradecer ao capitão Correia, que tinha partido um pé no quarto, de propósito, para não ter de ir para o mato !", essa define a maldade ou estupidez do tipo que proferiu tais palavras. Só acredito que tenha sido por maldade, para denegrir a minha imagem e até porque eu sempre considerei esse indivíduo mesmo mau. Não acredito que tenha sido só por estupidez. Como é que se faz, para partir intencionalmente no quarto um pé e a coisa resultar logo à primeira? E quem acredita que logo no início da comissão e na 1ª operação parta já um pé, para não ter de ir para o mato? Quando terminasse a comissão, quantas vezes teria partido os pés, os braços e não sei que mais?... No final regressaria mesmo deficiente, não por força da guerra, mas por me ter auto mutilado no quarto!!!...Essa é demasiado estúpida, para ser dita conscientemente!!!...
A ser verdade que me recusava a ir para o mato, então no Toto, zona muito mais perigosa, nunca teria saído do quartel, até porque a tal não era obrigado. Aliás dormi sempre sozinho fora do quartel na única casa habitada entre o quartel e a sanzala.
Já em Luanda, fui sozinho num jipe com o meu condutor a um musseque tratar de uns assuntos a casa de um antigo militar da Chefia do Serviço de Material, onde eu estava colocado, quando sabia que isso era altamente perigoso. Esse musseque era um barril de pólvora e uns dias mais tarde, estava eu de Oficial de Dia ao Quartel General, rebentou lá um rebelião que me obrigou a ir várias vezes a falar com o General, Comandante da Região, transmitir os apelos de socorro que me chegavam, dizendo que havia lá muitos mortos, muitos deles decapitados.

O palácio do Governador em Sepa Pinto

Também em Luanda, estive presente num grande tiroteio com vários mortos. Aqui sim, no critério do Sr. Mendonça, era de ter partido um pé, para não estar de Oficial de Dia ao Quartel-general, porque este tiroteio era previsível e veio na sequência de um grande desfile militar anunciado com antecedência. Este desfile foi impressionante. Eram militares oriundos de Angola, que fizeram uma marcha silenciosa entre a zona dos quartéis e o Palácio do Governador, passando em frente do Quartel-general. Era uma marcha que impressionava pelo seu silêncio e pelo número de militares que passaram durante 25 minutos, numa formação a 6 ininterrupta. Na zona, uma companhia de Comandos mantinha a segurança e, quando estavam a passar os últimos militares da marcha, rebentou o tiroteio. Como Oficial de Dia ao Quartel-general, já tinha sido chamado pelo General, para controlar todos aqueles que estavam a manter a segurança ao Quartel General e estavam na posse de uma metralhadora (não me lembro do nome dela). Junto de cada um, tive de pôr despercebidamente um militar de confiança, para abater de imediato o outro, se ele se virasse com a metralhadora contra os nossos. Assisti a todo o tiroteio e no final ainda recolhi do chão um relógio óptimo, Seiko Automático, que ainda hoje funciona bem e que mantenho como recordação. É este o capitão Correia que "partiu um pé de propósito para não ir ao mato". Como eu tenho pena que o Sr. Mendonça já tenha morrido!!!...
E com os teus escritos, não resisti em falar mais um pouco de mim e da revolta que ainda hoje sinto pelo comportamento do Sr. Mendonça para comigo, prejudicando dessa maneira a 3ª Companhia.
Para ti, Filipe, os meus parabéns pela tua verticalidade e frontalidade.


Um forte abraço


Martins Correia

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

"Soltas" de Angola

(Por Jorge Correia)

História 1
LOCAL: CABINDA
PROTAGONISTA PRINCIPAL: FACAS



O Facas em Cabinda tocava numa banda musical (na altura dizia-se Conjunto) e costumava ensaiar à noite. Era baterista.
A malta costumava à noite, juntar-se e ir ao Cinema Chiloango, o cinema mais moderno de Cabinda . A determinado momento, mais ou menos a meio do filme, ouvíamos o Facas começar a arrear forte e feio na bateria, e...segue o ensaio.


Claro, a malta comentava em voz baixa: "lá está o Facas a fazer barulho e a não nos deixar ver o filme em silêncio"
No dia seguinte lá íamos "protestar no gozo" junto do Facas, "é pá ó Facas vê lá se deixas o pessoal ver os filmes descansado, sem aquele barulho da tua bateria". "Bate mais devagarinho na bateria pá"
Claro que acabava tudo em risada geral.




História 2 (esta é um bocadinho mais pesada)
LOCAL: CABINDA


Na Roça Lucola, quando um pelotão ficava de serviço, o capitão queria que todos os elementos desse pelotão ficassem no aquartelamento, (talvez para o defender de perigosos guerrilheiros), porém eu gostava de me desenfiar quando não era o sargento de dia. Além disso achava desnecessário e estúpido ficar na Roça se não estava de serviço. Desenfiei-me, fui para a cidade prá nigth.



Na Roça Lucola a pensar como me ia desenfiar nessa noite !!!!!

No regresso vinha o pessoal no Unimog a subir na rampa de acesso à Roça e estava à nossa espera o capitão, pois a primeira casa da Roça era a casa dos oficiais. Manda parar o Unimog e manda-me descer do mesmo. Desço e ficamos frente a frente. Ameaça-me com uma porrada, que me manda para o norte de Cabinda, etc. O tom ameaçador dele cresce, estava visivelmente fora de si. Pelo canto do olho vejo que quem estava de sentinela à casa dos oficiais era o Marfunha do meu grupo de combate, ou seja vi que tinha uma G3 á mão de semear se fosse preciso. O capitão em Serpa Pinto tinha agredido o Furriel Lopes que chegou a formalizar uma participação contra ele e veio mais tarde a desistir da queixa (fez mal, digo eu) . Sempre com ar ameaçador e colérico lá foi libertando a sua bilis. Durante todo o seu tresloucado discurso, eu não disse uma única palavra, limitei-me a ouvir e a estar atento ao que poderia ocorrer. Certamente que eu não iria queixar-me a ninguém...eu ia actuar.


História 3 (esta é para descontrair)
LOCAL: LUIANA


Num determinado momento, a poucos metros do destacamento do Luiana, deslocávamo-nos num Unimog, eu o Alferes Lisboa Botelho e mais 3 soldados, quando avistámos um elefante que seguia solitário,...normalmente, os solitários eram os elefantes que por qualquer razão (normalmente doentes) tinham sido excluídos da manada. Lisboa Botelho que andava quase sempre com a sua espingarda própria de caça grossa, desceu do Unimog, fez pontaria e disparou; o elefante abanou e parou, ficámos todos na expectativa do que se seguiria. Lentamente o elefante, virou-se na nossa direcção abanou as orelhas, produziu um som aterrador e começou a correr direito a nós. Foi o pânico, ao princípio não sabíamos se ficávamos em cima ou em baixo do Unimog. Nisto vejo que Lisboa Botelho com uma frieza impressionante, ajoelha, faz de novo pontaria e desta vez para alívio de todos acerta em cheio na cabeça do elefante que tomba. No Unimog e sem os preparativos necessários partimos para o destacamento e regressamos no dia seguinte numa Berliet. Para espanto nosso quando chegamos não avistamos o elefante, pois estava totalmente coberto por abutres que já tinham comido metade do bicho. Com alguns disparos lá os conseguimos afugentar, não sem que antes um que parecia morto, ainda desse uma bicada no tornozelo de um dos nossos homens que sangrou abundantemente.


Na nossa praia fluvial do Luiana

 

Lisboa Botelho tinha levado dois especialistas do Kimbo que com as suas catanas, e quais cirurgiões exímios, descarnaram o elefante para retirar as presas, tinha dois dentes de marfim lindos. Lisboa Botelho ficou com os dentes, o que lhes fez não sei!! mas concerteza não os deitou ao rio.



Campo de futebol do Tabi, antes das obras para o Mundial de futebol da África do Sul.



 
Em Santa Margarida já com o jornal na mão para dar uns cheiros !!

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Recordações de Angola - 21

(Por Eduardo Veiga, Anónio Facas e Luis Marques)

Por intermédio do António Facas, o Eduardo Veiga remeteu-nos estas três fotos que pelo seu interesse para a "construção" da "História do Batalhão" e em particular da 3ª Companhia passamos a publicar.
São três fotos que muito vão enriquecer o nosso álbum colectivo.


Vítor Rodrigues e Eduardo Veiga e a Berliet MG-74-14

Esta foto foi tirada após o  acidente ocorrido em 19 de Janeiro de 1973 e que vitimou mortalmente o soldado condutor José Almeida Paiva, natural de Santa Marinha, Seia (ficou também ferido o soldado César Dias)


O Cabo Costa (Montijo), já falecido,  Vítor Rodrigues (escriturário), João Almeida Silva (condutor) e o Eduardo Veiga




A saída de Cabinda, em Novembro de 1974, a caminho de Luanda a bordo da fragata "Sacadura Cabral". Entre outros, o Eduardo Veiga, o ex-furriel Luís Lopes  e mais à direita o Deodato

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Martins Correia - a saída de Serpa Pinto

(Por Martins Correia)

"A guerra é mãe e rainha de todas as coisas;
alguns transforma em deuses, outros, em homens;
de alguns faz escravos, de outros, homens livres"

Heráclito  de Éfeso (*) in "fragmentos"

À medida que o blog do Fórum 4611 vai sendo actualizado com novos trabalhos, é com grande prazer que o vou consultando. Alguns dos relatos ou fotografias fazem-me recordar os velhos tempos em que estava convosco. Outros porém entristecem-me, porque não os pude partilhar com aquele grupo de amigos excepcionais que levei da “Metrópole” e com aqueles que a nós se juntaram já em Angola. Penso sempre: “Será que eles estão convencidos de que os abandonei e que os troquei por uns tempos bem passados em Luanda?”. Pois bem, não foi nada disso e acho que, utilizando os muitos endereços que já tenho, chegou a hora de contar a todos vós o que se passou e que durante tantos anos me “ficou atravessado”.
Em 1971 fui chamado pela 2ª. vez, para fazer o serviço militar. Na 1ª vez já havia cumprido quase 4 anos (de 1965 a 1969) e tinha estado em vários quartéis. Em todos eles, embora em serviço fosse cumprida a disciplina militar, fora de serviço, no bar de oficiais ou mesmo no restaurante, havia uma grande camaradagem entre todos os oficiais, independentemente da sua patente. Lembro-me que no Regimento de Cavalaria 8, em Castelo Branco, várias vezes a minha despesa do bar me foi paga pelo Comandante e no Regimento de Cavalaria 7, em Lisboa, não têm conto as noitadas que passei a jogar pocker com o 2º. Comandante (que graças a Deus perdeu uns bons continhos, para eu pôr na minha conta bancária…).
Como passei à disponibilidade sem ter ido ao “Ultramar”, fui chamado em 1971, a fim de tirar o C.P.C. (Curso Para Capitães) em Mafra. Eu era na altura Tenente e a boa camaradagem com os outros oficiais, também aí era excelente. Lembro-me que um dos nossos instrutores era na altura o Major Pezarat Correia e que era espectacular. Já depois do 25 de Abril de 1974, me encontrei várias vezes com ele em Luanda e continuava a mesma pessoa com quem dava gosto conviver.

Terminado o curso em Mafra, fui fazer no início de 1972 um estágio junto dos “Rangeres” em Lamego. Era Comandante do quartel o nosso conhecido Tenente-coronel Mendonça. Como ele já faleceu, não quero estar aqui a adjectiva-lo. Só tenho pena de ele ter falecido sem eu ter tido a oportunidade de conversar um dia com ele. Para se fazer uma ideia do seu comportamento para com os outros oficiais, fosse ele miliciano ou do quadro, só quero aqui lembrar as figuras caricatas às horas das refeições (almoço e jantar): Por mais fome ou pressa que os outros oficiais tivessem, ninguém entrava no restaurante sem entrar primeiro o Tenente-coronel. Quando ele chegava ao bar, todos os oficiais, sem excepção, se punham em sentido e só depois de ele entrar no restaurante, é que todos os outros podiam entrar. O seu comportamento demonstrava uma arrogância e um desprezo por todos os inferiores sem qualificação. Numa dessas alturas houve um de nós que disse: “Soube que o Tenente-coronel Mendonça está para ser mobilizado este ano, portanto vai calhar a alguns de nós. Esses vão estar bem lixados”. Mais tarde, quando fui mobilizado e soube o nome do meu comandante de Batalhão, “fiquei para morrer”. Tinha que me calhar a mim!!!...






O Coronel Mário Hernâni Vasques de Mendonça (ao centro)  durante uma visita de militares sul-africanos ao comando do Batalhão, em M'pupa



Já em Abrantes e com o Batalhão formado, estava eu no bar com os outros 2 Capitães operacionais do Batalhão (Esteves e Read) e um deles disse: “Já vistes que o Mendonça só fala com patentes superiores ou, quando muito com majores e capitães do quadro e não liga nenhuma à malta? Quando sairmos daqui e formos para Santa Margarida e depois em Angola fazemos-lhe o mesmo, que ele não há-de ter com quem falar. Conversas com ele, só de serviço.” Todos concordámos, mas já em Santa Margarida, de vez em quando, lá via o Esteves ou o Read no bar a dar conversa ao Tenente-coronel Mendonça. Eu mantive o combinado e, conversas, só de serviço. Nunca gostei de pessoas importantes, até porque, para mim, não as há mais importantes do que eu e, mesmo assim, eu nunca gostei de me armar em mais importante do que os outros. Aliás sempre gostei de ajudar os outros, de modo a que os outros possam sempre ver em mim um amigo e alguém igual a eles.
Foi assim que, logo em Santa Margarida, eu e o Tenente-coronel Mendonça entrámos em rota de colisão. Foi aí que comecei a prever que todos vocês iriam ser prejudicados por minha causa. Lembro-me de eu vos obrigar a cumprir as actividades previstas em planeamento (algumas vezes coisas sem interesse nenhum), porque já sabia que tinha o Tenente-coronel à “perna”. Várias vezes fui chamado perante ele para me chatear, porque havia uns quantos grupos de militares que andavam por ali à “balda” sem fazer nada e não cumpriam os planos previstos. Todas as vezes tive o prazer de lhe dizer cinicamente que ele ainda não conhecia o pessoal dele e que aqueles militares não eram da minha companhia. Portanto se queria ralhar com algum comandante de companhia que ralhasse com o Esteves ou com o Read.

  O natal de 1972 em Serpa Pinto

Entretanto vamos para Angola e a situação agrava-se. À nossa chegada a Luanda tive de passar 2 ou 3 dias no Quartel General a receber instruções e documentação. Logo aí tive a informação de que o “meu Amigo” me quis tramar e portanto a vós todos também “por tabela”. No Quartel General determinaram que a 3ª Companhia ficaria em Serpa Pinto, porque eu era o Capitão mais antigo do Batalhão. Porém o Tenente-coronel queria a toda a força pôr-nos, salvo erro no Cuito ou em Mavinga, mas no Quartel General impuseram-lhe que ficássemos em Serpa Pinto.

Já em Serpa Pinto, soube que as companhias operacionais anteriores à nossa nunca fizeram operações. Serviam só para defesa do Sector, patrulhamentos na zona e apoio às colunas de reabastecimento. A nossa companhia seria para fazer o mesmo. Porém, depois de muita insistência do Tenente-coronel Mendonça, junto do Brigadeiro, Comandante de Zona, este cedeu.




O Capitão Luís Martins Correia em frente à Secretaria da 3ª Companhia


Assim, no dia 29 de Dezembro de 1972, o Tenente-coronel Mendonça, foi a Serpa Pinto e chamou-me, para me comunicar que nos primeiros dias de Janeiro eu iria sair para uma operação com 3 grupos de combate com a duração de 3 semanas. Aceitei a notícia e pus-me a escrever à minha mulher, para ela, durante essas 3 semanas, não esperar correspondência minha.




O alojamento dos oficiais em Serpa Pinto (José Manuel Duarte, Luís Martins Correia e Filipe Silva)


Enquanto eu estava a escrever o aerograma, estava a assistir a um duelo renhidíssimo, entre a então Alferes Duarte, que partilhava o quarto comigo, e um bravo mosquito que teimava em não se deixar matar. No meio daquela luta interminável, tive que “admoestar” o Alferes Duarte, perguntando mesmo que “raio de Alferes” me tinha saído, se nem um mosquito era capaz de matar!!!… Entretanto fui-lhe dizendo que, quando eu acabasse de escrever o aerograma, eu mataria o mosquito. E assim foi. No fim da escrita, armei-me com a minha almofada, pus-me em cima dos pés da cama, fiz pontaria ao mosquito, dei um pulo em direcção a ele e…pum!... disparei a almofada. O tiro foi certeiro e o mosquito veio parar morto ao chão. Mas eu, como não podia ficar indefinidamente no ar, também tive de vir para o chão. Só que no fulgor da luta, eu não preparei bem a minha retirada e fui aterrar em cima da minha mala da roupa que estava aos pés da cama. Um dos meus pés ficou meio em cima da mala meio de fora e torci-o com muita violência. Fiquei completamente KO, sem poder pôr o pé no chão. No dia seguinte de manhã, tinha o pé com dores terríveis e todo preto e, coxeando muito, fui falar com o Tenente-coronel Mendonça, contando-lhe tudo o que acontecera e dizendo-lhe que eu não poderia ir naquela operação. A resposta foi: “Vai sim senhor”. “Mas eu não consigo andar”- dizia-lhe eu. “ Vai na mesma e, quando já não puder andar mais, será evacuado de helicóptero”. “ Mas então terei de ser evacuado logo à partida, porque eu não consigo andar”- retorqui-lhe eu. “Vai na mesma”, continuava ele a dizer. Eu dei a conversa por terminada e fui para o hospital. Contei tudo ao médico, que ficou espantado com o procedimento do Tenente-coronel Mendonça e disse: “Então vai na mesma? Oh! nosso cabo, engessa aqui o pé do nosso Capitão. Agora ele que o mande para a operação…” E no final pediu a minha evacuação para Nova Lisboa.
 



Martins Correia no Quimbo de Serpa Pinto


Logo que regressei de Nova Lisboa, o médico pediu a minha evacuação para o Hospital Militar de Luanda, onde eu já tinha tudo preparado, para passar aos serviços auxiliares, porque “a corda tinha partido”. Ainda a comissão estava no início e já o nosso Tenente-coronel estava a ultrapassar todos os limites. E, por causa da “vontade que ele me tinha”, estavam todos vós a pagar também com mais operações. Não achei justo e não me restou outra solução que não fosse sair daquele Batalhão.



Martins Correia em Luanda



Estava eu no Hospital de Luanda (onde estive 3 meses) e soube por um de vós, que foi a Luanda tratar de assuntos da Companhia, que estava planeada uma operação com 3 grupos de combate da nossa companhia para uma data próxima e com a duração de 3 semanas, porque nessa altura já previam que eu tivesse regressado a Serpa Pinto.
O dia da operação chegou, mas eu continuava em Luanda. Soube depois por outro de vós que foi a Luanda, que tinham adiado a operação por um mês, porque nessa altura eu já lá estaria. Mas eu continuei a não estar e o nosso Tenente-coronel adiou-a por mais um mês. Já não me lembro se a operação foi feita. Suponho que sim e que foi o então Alferes Filipe que me substituiu. Eu, quando voltei a Serpa Pinto, já ia como Capitão Auxiliar e a aguardar nova colocação.



Os Capitães Read e Esteves e um grupo de militares da 1ª Companhia no dia da despedida do Martins Correia de Serpa Pinto



Tinha na altura a promessa de um General de Luanda que eu aí iria ficar colocado. Mais tarde foi-me dito que essa decisão teve de ser alterada, porque o nosso Tenente-coronel enviara para o Quartel General informações péssimas a meu respeito e, para não dar muito nas vistas, mandaram-me para uma C.C.S. que estava a acabar a comissão, com a promessa cumprida de que depois seria colocado em Luanda, como fiquei.


Mulher e filha do Ex-capitão Luís Martins Correia em Serpa Pinto (o Martins Correia só conheceu a sua filha, nesta altura)


Passei bons tempos em Luanda, mas também tenho muito boas recordações do Toto, para onde fui viver com a minha mulher e a minha 1ª filha. Quis o acaso que, no dia em que eu saí de Serpa Pinto, apareceu-me lá de surpresa a minha mulher, para me mostrar a minha 1ª filha que eu ainda não conhecia. Porém, também ela não sabia que eu me vinha embora nesse dia e por isso fomos os 3 rumo ao Toto.



A despedida de Martins Correia de Serpa Pinto (um Grupo da 1ª Companhia)



Éramos os únicos a viver numa casa fora do quartel e recordo com graça as vezes que à noite, quando regressava a casa, altas horas da noite, depois de uma patuscada no quartel, deparava com uma G3 apontada a mim, quando eu abria a porta. Recordo ainda um MVL ao Vale do Loge, onde eu me integrei e levei a minha mulher comigo, deixando a filha no Toto. Ainda estou a ver a cara de pânico da minha mulher, quando, a meio caminho numa zona de floresta densa, se ouviu um tiro.
Recordo ainda as aulas de tiro com pistola que, sem sucesso, eu dava à minha mulher. A 5m de distância, não conseguia acertar num vulto humano. Era um caso perdido.

Recordo também as vezes que eu saía muito cedo de casa vestido de camuflado e regressava muito tarde, dizendo à minha mulher que ia para a caça, quando na verdade eu pedia ao Comandante de Batalhão, para me deixar ir integrado na companhia operacional que lá estava, para ir fazer acções de patrulhamento em zonas onde havia muitos carreiros de passagem de guerrilheiros.

E são estas recordações que me fazem sentir pena que não as tenha vivido com todos vós e que não tenha vivido também convosco as vossas recordações reproduzidas em tantas fotografias e histórias que enviais para o nosso blog. E tudo isto por causa do espírito arrogante e prepotente do nosso Tenente-coronel Mendonça. Nunca lhe perdoei.


Há alguns meses atrás encontrei-me num almoço dos antigos alunos de Castelo Branco com o Coronel Amaro (na altura Capitão Amaro do nosso Batalhão). Só passados estes anos é que o voltei a encontrar e nem sabia que ele também tinha sido, como eu, aluno em Castelo Branco. No meio da conversa é que nos reconhecemos como tendo pertencido ambos ao Batalhão 4611 e veio à baila a conversa da minha entorse no pé. Segundo ele, era do conhecimento geral que eu tinha torcido um pé de propósito, para não ir à operação!!!... Passado todo este tempo, não imaginam a indignação que senti naquele momento. É revoltante como o nosso Tenente-coronel Mendonça fez passar junto dos outros esta calúnia, para me difamar. Se ele fosse vivo, naquele dia teria ido falar com ele.

Mas o certo é que, por causa do comportamento do Tenente-coronel Mendonça, vi-me obrigado a separar-me de vós, porque deixei de o poder suportar e porque de modo algum vocês poderiam a estar a ser castigados por minha causa.

Tenho consciência de que sempre vos tentei ajudar. Se o não consegui, aqui fica o meu pedido de desculpas. Sei que o nosso 1º Sargento Campos às vezes não ficava nada satisfeito comigo, porque eu não dava os castigos que ele queria e autorizava certas coisas que eu próprio sabia que não podia autorizar. Lembro-me, por exemplo de um pedido do soldado Miúdo. Veio ter comigo, dizendo que tinha sido anteriormente castigado e portanto naquele ano não podia ir de férias e já não via a família há 1 ano. Chamei o 1º Sargento Campos e disse-lhe que tirasse o Miúdo da escala de serviço e lhe passasse um papel de licença. Lembro-me da cara de chateado do 1º Sargento, mas era largamente compensador ver a cara de felicidade do Miúdo. O 1º Sargento Campos que me desculpe.

Espero que, com este meu desabafo, tenha ficado bem claro nas vossas mentes que nunca vos abandonei, que sempre tivestes em mim um amigo, que teima em ser sempre vosso amigo e com quem podereis contar sempre. A história de torcer um pé de propósito, para não ir numa operação, não passa de um calúnia aberrante, sem pés nem cabeça. Felizmente o Duarte poderá comprovar tudo isto e o aerograma que naquele dia escrevi à minha mulher também.




Um grande abraço para todos do amigo


Martins Correia

(*)  Heráclito de Éfeso- foi um filósofo pré-socrático que recebeu o cognome de "pai da dialética". e a alcunha de "Obscuro", pois desprezava a plebe, recusou-se a participar da política (que era essencial aos gregos), e tinha também desprezo pelos poetas, filósofos e pela religião. Sua alcunha derivou-se principalmente devido ao livro (Sobre a Natureza) que escreveu com um estilo obscuro, próximo a sentenças oraculares..

BATALHÃO DE CAÇADORES 4611/72

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conduta brava e em tudo distinta