sábado, 7 de abril de 2012

Episódios de Angola ou as aventuras e desventuras de um militar – 2

(Por José Veiga)



O Zé Veiga em pose de "mercenário"

Episódio 4 – Episódios animalescos :)


Realço dois acontecimentos ocorridos na Coutada do Mucusso: o primeiro foi, quando chegámos ao destacamento pela primeira vez e encontrámos, nas imediações, um grupo de avestruzes residentes, que ás vezes chegavam a entrar até dentro da área restrita, sem que se importassem com os militares, estando já habituados àquele ambiente.

No entanto a partir de determinada altura, uma a uma, foram todas desaparecendo, levando a que o pessoal começasse a ficar intrigado, devido ao estranho da situação. E mais estranho era pois não cheirava a peru no forno nas redondezas.

Um dia o mistério desfez-se pois alguém deu com uma grande quantidade de penas de avestruz nas imediações do destacamento, pelo que chegamos à triste conclusão, que as hienas deram com elas, e não se afastaram enquanto as comeram todas. Ficámos sem a companhia daqueles majestosos animais que não faziam mal a ninguém, antes pelo contrário, pois davam um aspecto diferente ao lugar, no sentido positivo.



O outro, diferente em todos os sentidos, é que tínhamos no destacamento seis cães, uns de raça pastor alemão, outros “arraçados” de outra espécie, todos bem corpulentos, e que bem jeito nos faziam, porque qualquer animal selvagem que aparecesse nas imediações, era logo detectado e afugentado pois o pelotão canino estava sempre em prontidão.

Na Coutada do Mucusso em 1973 com um pastor alemão


Um dia algo se passou no pelotão canino pois os cães passaram de dóceis a raivosos, não obedecendo a ninguém, antes pelo contrário, insurgiam-se contra nós chegando mesmo a atacarem um militar que só não foi ferido porque conseguiu escapar a tempo levando a que o caso do pelotão canino se tornasse um caso difícil e um problema.
Decidiu-se, com bastante pena nossa, pelo abate ao efectivo desse pelotão que bem falta nos faziam pois constituíam um dos meios de alerta, mas não havia alternativa. Ficámos sem os cães, que tal como as avestruzes, já faziam parte da “mobília”.

(…)

Episódio 5 – A minha deserção!!

Este episódio reporta-se à rotação do Batalhão para Cabinda e ao modo como tive de lá chegar para não ser dado como desertor.
...No segundo ano de comissão tive a oportunidade de vir passar férias no "puto", que decorreram entre o princípio de Abril até 3 ou 4 de Maio de 1974!.. Dá-se entretanto o 25 de Abril, e estando sentado na sala juntamente com o meu saudoso PAI, a ver o desenrolar dos acontecimentos este dizia-me então; “… Já não vais regressar a Angola!...”
Mas o que é um facto é que as coisas nunca correm como é desejado e no dia previsto para o regresso a Angola lá embarquei com destino a Luanda e convicto de que iria para o Ambriz!! No Ambriz estaria a minha companhia, julgava eu pois era onde a tinha deixado antes de ir de férias...



A Porta d'Armas do Quartel de Ambriz


Para encontrar de novo os meus camaradas passei por momentos, que pensava... jamais pudessem acontecer!!!!!!!!!!
Imaginem que a minha saga tinha começado quando parti para férias e á chegada a Luanda, pronto para embarcar para Portugal...descobri que tinha deixado os documentos no Ambriz, esquecidos na Companhia!!! O que passei e suei para conseguir marcar uma audiência com o Comd. Geral de Angola, no Quartel-General de modo a dar-lhe conhecimento do acontecido. Foi impecável... bastou um simples papel que ele próprio redigiu, assinou, e chancelou para que eu viesse passar férias a Portugal...
Mas dizia eu que quando tudo corria, deduzia eu, pelo melhor venho a descobrir que o Batalhão e consequentemente a 2ª. Companhia se tinham mudado para Cabinda!!!
Se não me apresentasse seria dado como REFRATÁRIO, ou seja, caso não me desenrascasse corria o risco de ir preso!!!
Depois de várias diligências, acabei por ter que comprar bilhete de avião, com destino a Cabinda e tentar apresentar-me no aquartelamento, que como é de calcular nem imaginava onde se pudesse situar!

 Para meu espanto quando cheguei a Cabinda, tinha um UNIMOGUE, da minha companhia, com o furriel Figueiredo de trms, à minha espera…(não fosse eu fugir)...!!

Em Cabinda em 1974
Quando cheguei a Cabinda já a 2ª. Companhia se tinha deslocado de Lândana para o Yabe, uns quilómetros para lá do aeroporto, a a caminho da fronteira com o Zaire.

Em Cabinda em 1974 com a "Maralha" da C.C.S..


Missão em Cabinda

Uma brincadeira com o nome José Veiga
Visita ao R.I. 16, em Évora, em 2011
Um abraço do
José Veiga

sábado, 24 de março de 2012

Episódios de Angola ou as aventuras e desventuras de um militar – 1

(Por José Veiga)


No Mucusso pedindo boleia para Vila do Conde


Episódio 1 – A viagem para o Mucusso

Após a nossa chegada a Luanda e de todo o processo estar concluído, chegou o dia, em que deixámos o Grafanil, e partimos em coluna motorizada rumo ao Sul de Angola, mais concretamente com destino à Coutada do Mucusso, que era o lugar que estava destinado para a 2º Companhia, e onde iríamos permanecer alojados durante muito tempo.

No entanto para lá chegarmos não bastou só ir de Berliet em coluna militar. Acabámos por chegar a um lugar, onde estavam destacados militares, não me recordo bem do nome, mas penso que seria o Dirico e onde ficámos em trânsito, até que por fim lá conseguimos chegar, uns de avião (C-47 Dakota) e outros de avioneta, que era o meio de transporte dos frescos e correio, obrigando a que fossem efectuadas várias viagens, devido à fraca capacidade de transporte.

Coutada do Mucusso em 1973

Em serviço na Coutada do Mucusso
Com estas peripécias todas lá se conseguiu reunir a companhia na Coutada do Mucusso onde rendemos a companhia de “velhinhos” que se encontrava de saída, em virtude de terem acabado a comissão de serviço. O Mucusso ficava no Sul de Angola, mais concretamente, no distrito de Cuango Cubango , era uma área, onde cabia Portugal inteiro, e, conforme também o nome sugere, era uma zona rica em flora e fauna, com variadas espécies de animais, em particular antílopes, e onde grande percentagem do deserto de Moçâmedes, também estava inserido, o que motivava a que esta área toda fosse conhecida pela designação de; “Terras do Fim do Mundo”. Era neste cenário que ia começar a nossa epopeia africana.

(…)

"Aprendendo" a pilotra um héli na Coutada do Mucusso

Episódio 2 – A caçada

Certo dia formámos um grupo, para ir caçar, e aconteceu que poucos quilómetros mais á frente, avistámos uma manada de palancas, após as termos perseguido abatemos duas, o que pelas nossas contas já daria para durante uma temporada comermos, bifes, estufado e outras iguarias, melhor dizendo… direito a rancho melhorado.

No entanto a uma das Palancas fui eu que lhe dei o tiro fatal que a abateu. Esta situação aconteceu, porque ao aproximar-me da peça a pensar que estava morta, e estando eu já a dois metros da mesma, ela levanta-se de repente, e eu instintivamente apontei a G3 e disparei dois tiros tendo a dita caído fulminada. Foi complicado em termos cardíacos mas na altura os nossos índices de adrenalina eram excelentes.

(…)


Coutada do Mucusso

Episódio 3 – O dia em que a Berliet virou submarino

Em relação ao menos bom, que também aconteceu, recordo algumas situações de quando íamos para o mato, em reconhecimento, ou noutras operações, que eram designadas pelo comando superior, onde estávamos inseridos, e que em média podiam durar entre três, ou mais dias, a palmilhar terreno em busca de algo relacionado ou parecido com o inimigo, chamados de “turras” por ser diminutivo de terrorista. Felizmente no Mucusso, enquanto lá estivemos, não aconteceu, para nosso bem, nada de significativo que mereça referência neste domínio.

Em 1972, na Coutada do Mucusso, à porta da enfermaria, com duas "beldades" lá do sítio, À direita esta o "Cuba", cantineiro

Porém numa ocasião, aconteceu, num dia em que fomos ao Calai, que era um posto fronteiriço distando uns bons 200 quilómetros do nosso destacamento e que fazia fronteira com a Namíbia, um episódio que merece referência.

Esta operação, de abastecimento de gasóleo, demorava normalmente entre três a quatro dias, dando tempo para trocarmos a nossa moeda por Rands, que era a moeda em circulação do outro lado da fronteira, e procedermos a algumas compras nas lojas existentes, normalmente artigos para higiene pessoal e de vestuário, em especial t’shirt`s.
Numa picada na Coutada do Mucusso

Como não há bela sem senão… No regresso de uma dessas viagens, acabámos por ter um acidente junto da margem do rio Cuíto com uma Berliet que, mal travada, deslizou e acabou por ir parar ao fundo do rio. Neste local existia uma jangada, presa com um cabo de aço entre uma margem e outra, onde com cuidado e bem orientadas, as Berliet, iam para cima da mesma, para atravessar de um lado para o outro. Esta passagem constituía um ponto estratégico, pois para além de proporcionar mais rapidez nas operações militares, era também muito importante para o pessoal civil no seu dia-a-dia. Ficamos ali retidos durante dois dias, até que nos socorressem pois a Berliet tinha, a todo o custo, de ser tirada do fundo do rio e tínhamos de igualmente recuperar as G3, que se encontravam dentro da mesma.
A jangada do Rio Cuito (Dirico) onde ocoreu o acidente

A dificuldade naquela zona do rio, era a existência de um lar de hipopótamos, e não eram poucos, e para se fazer alguma coisa com segurança, era necessário lançar primeiro umas granadas para os afugentar, só então se voluntariaram dois camaradas que mergulharam numa primeira tentativa de recuperação das armas, e posteriormente para a colocação de cabos que permitissem tentar sacar a viatura do fundo do rio. Armas recuperadas, não na totalidade, pois ficaram sete no fundo, uma delas era minha, a Berliet também após bastante tempo, e com enorme custo, acabou por ser recuperada.

Após estarem as operações de resgate encerradas e estar tudo sob controlo lá seguiu a viatura, que foi rebocada até ao destacamento, onde acabou por ser alvo de uma grande manutenção devido a que tinha água, por tudo quanto era sítio. No final tudo correu bem... digo eu!!!


A equipe de futebol da "Formação" na Coutada do Mucusso. Reparem no campo de futebol com a relva (capim) bem tratada
 


Ida ao Calai - abastecimento de combustível


Parte da equipa das transmissões

Com o cabo cripto Oliveir em 1973

Com o Furriel Figueiredo

Com o Rocha de tranmissões


Um abraço,
Zé Veiga

domingo, 4 de março de 2012

RELEMBRAR O PASSADO!

(Por José Manuel Francês)

Esta história poderia começar como tantas outras...



Era uma vez um menino que se habituara a ouvir na rádio de então as crónicas de um jornalista da época, Ferreira da Costa de seu nome, que de Luanda enviava aos microfones da Emissora Nacional histórias de um tempo em que a guerra colonialista começava e que o sistema vigente o obrigou a alterar a sua forma de começar, pois dizia ele..." Daqui Luanda, fala Ferreira da Costa!"... E o Povo tentava perceber que aquilo andava. Uma das múltiplas formas de escapar à censura do lápis azul!
Meu saudoso Pai dizia então à minha Mãe, para a tranquilizar, "tem calma que o rapaz ainda é muito novo e quando chegar à idade de ir para a tropa já esta guerra deve ter acabado há muito!".
Puro engano! A politica de então, com a teimosia de não querer perceber o que se passava, prolongou a situação, e sujeitou gerações de jovens a inúmeras situações ,algumas dramáticas, das quais ainda hoje se sentem os efeitos negativos em tantos e tantos Camaradas.
Muito mais depressa do que seria de esperar chegou o dia de me apresentar na Câmara Municipal de VN Gaia onde a 25.07.1990 fui fazer a inspecção militar... Coxos e mancos, dizia-se, tudo servia e eu que felizmente saúde não me faltava... Dei comigo a receber ordem de apresentação no RI5 das Caldas da Rainha, onde entrei para a 6ª Companhia de instrução com o nº 2007/71 do 3º pelotão.
Findo o período de instrução, ainda hoje sem entender porquê, decidiu o Exército dar-me a especialidade de Enfermeiro e deu-me Guia de Marcha para me apresentar no RI16-BSCF em Campo de Ourique, onde fui o º 360/71/AP - aluno nº 88/71.
Curso efectuado no Hospital Militar em Lisboa, fui de seguida para o HMPE de Elvas, já como 1º cabo miliciano, fazer o estágio.
Tempos que obrigaram a longos períodos de separação da família, mas também cheios de gratas recordações dos novos amigos que se foram fazendo.
Terminada a estadia em Elvas, fui colocado na RAP 2 em Vila Nova de Gaia, sabendo eu que não escaparia à mobilização para o Ultramar.
Na ordem de serviço nº 138 de 14.06.1972 era então publicada a minha ordem de mobilização para o BAT CAÇ 4611/72 - RI16 / RMA.


A mobilização


A mobilização

A 28.08.72 passei rapidamente por Évora, sede do Batalhão ao qual iria pertencer, e fui recambiado de imediato para me apresentar em Santa Margarida no dia seguinte.
Iniciava-se assim a minha vida de elemento pertencente à CCS do BAT CAÇ 4611/72 , de que ainda hoje me orgulho, não só pela prestação que tivemos todos a nível cívico e militar, durante a nossa estadia em Angola , mas sobretudo porque fizemos nascer uma verdadeira FAMÍLIA que nos une ainda hoje a todos .
Chegados a Luanda, ao entrar no Campo Militar do Grafanil , um Camarada que aguardava a hora de embarcar já no seu regresso, mais cacimbado do que alguma vez mais encontrei alguém disse-me: "Olha lá ó maçarico... Não te esqueças de contar os 730 dias que te faltam... se os conseguires contar todos és um felizardo..."



 730 dias...


Aquela história incomodou-me, tenho que o admitir, mas ao chegar a M'PUPA com o SPM 6676 , local do nosso 1º aquartelamento, decidi fazer dois Mapas/calendários, que fui dia a dia inutilizando , dando assim conta dos dias que passavam e que faltavam para chegar aos tais 730 que me fariam um felizardo !


730 dias...


Terminado o período de comissão, chegou então o dia em que recebi o documento que me "passava à disponibilidade"...a 17 de Dezembro de 1974.

Passagem à disponibilidade

passagem à "peluda"
 Hoje, passados tantos anos já, com muitos 730 dias somados, posso partilhar convosco estas datas e documentos, porque felizmente o meu Pai soube guardar-me estes registos.
Senão... restariam apenas os dados memoriais dos mesmos.
O homem de hoje, que foi menino, recorda com saudade os tempos passados então, e guarda no coração a alegria dos Amigos que fez e que estão sempre presentes na minha vida.



domingo, 12 de fevereiro de 2012

A História de um civil adiado – Ex-Militar do 4611/72

(Por Eduardo Veiga)




EduardoVeiga
O registo da minha história refere:
Eduardo Jorge Veiga
Soldado Nº Mec 093543-71
Incorporado: 27SET71 a 22NOV71 na CICA 2 Figueira da Foz
Especialidade: 22NOV71 a 23JAN72 RI 6 no Porto (Senhora da Hora)
Serviço efectivo: 23JAN72 a 4DEZ72 GCTA Grupo Comp.Trem Auto (Quartel Mestre General) Lisboa
Mobilizado para Angola a 4DEZ72 pelo RI 2 Onde nunca fui (entendo que fosse por o BCAÇ 3839 / CCAÇ 3343 pertencerem a essa unidade) e ao mesmo tempo mobilizado pelo RI 16 onde também nunca estive.
Adidos de Lisboa via Luanda a 18DEZ72 e CMR 113/Luanda a 19DEZ72
27DEZ72 Fui integrado no BCAÇ 3839 / CCAÇ 3343 localizado no AMBRIZETE (Missão Católica)
??/??/1972 Fui para a CMR 113 a aguardar recolocação e enviaram-me para o BCAÇ 4611/72 3ªCCAÇ em Serpa Pinto





Vamos então ao trajecto;

Não é pretensiosismo mas chegou a altura de deixar os fantasmas para trás e viver os dias em sossego, é uma história com um desafio que podia ser de qualquer um, mas esta é minha…
Não há insubstituível, mas eu sou, como eu não existe outro; ou se quisermos dizer de outra forma, não há insubstituíveis, mas não há repetíveis, fica à escolha.

Como é sabido da maioria dos que me conhecem, fui para Angola em rendição individual para o BCAÇ 3839, mais propriamente a CCAÇ 3343 situado no Ambrizete cujo aquartelamento se localizava dentro de uma igreja católica (missão) e foi com a minha chegada a terras africanas que começaram os temores de quem era amparo de Mãe, casado e aguardava um filho.
Com o tempo que já tinha de serviço militar não era provável que fosse mobilizado, porém, como é sabido a única certeza é a morte e nem essa tem hora e dia marcado.



BCAÇ3839 CCAÇ 3343 Ambrizete (missão) a Igreja era o dormitorio


Cheguei a Luanda no dia 19/12/1972, tendo-me apresentado na CMR113 (Companhia Metropolitana de Recompletamento 113) que ficava no RI-20, unidade dos naturais e a partir dali fui integrado no respectivo Batalhão 3839 Ccaç 3343

Ao chegar ao Ambrizete, passado algum tempo transferiram-me para a Musserra, localizada a Sul entre Ambrizete e Ambriz, em pleno interior, com mais 11 camaradas. Para quem não sabia o que era uma guerra de guerrilha o medo era constante, todos os pensamentos estavam com a minha mãe, mulher e filho, foram estes familiares que me obrigaram a olhar para dentro e dizer; “eu tenho que sair daqui porque alguém está à minha espera”.


Ambrizete. O Eduardo Veiga é o 4º a contar da esquerda, em pé
Foram meses em que a companhia real eram os camaradas e a incerteza do continuar vivo, SOBREVIVI a esta etapa,… outras se seguiriam.
Com o retorno à Metrópole do BCAÇ 3839 fui transferido para o BCAÇ 4611/72, mais propriamente para a 3ª CCAÇ e em boa hora aconteceu tal mudança (Deus por vezes parece que está a dormir mas dormita), porque para além de tudo, me permitiu conhecer amigos que ainda hoje permanecem na minha memória e não só.


Da CMR113, em Luanda, levaram-me ao machimbombo que fazia a ligação para Serpa Pinto com um stock de duas rações de combate (RR ou RC) uma G3 encontrando um machimbombo (autocarro) carregado de nativos locais, senti-me que nem um RAMBO, o exército tinha destas coisas que mais parecem saídas de um filme de 5ª.classe,… o que faria eu com a G3 num machimbombo com 50 nativos, galinhas, cabras e não sei que mais! Certamente que NADA!
No entanto houve uma situação que me tocou, pois digo-vos que quando o dito machimbombo parava os meus companheiros de viagem era a mim que vinham oferecer comida e bebida, (estou a escrever esta palavras comovido como devem calcular), pois eu estava em guerra com as pessoas que me tiravam os medos e me alimentavam dos meus receios.
Depois de dois dias de viagem de Luanda a Serpa Pinto com paragem em Silva Porto para pernoitar, para quem tinha tantos receios os mesmos deixaram de existir.
Finalmente cheguei a Serpa Pinto, hoje conhecida por Menongue, encontrando à minha espera, com um ar lisboeta, o Deodato. Fiquei mais descansado ao constatar que a minha colocação era numa cidade e mais agradado por ter sido bem aceite naquele grupo de camaradas.
Fiz APSIC’s com o Filipe e Elias, algumas operações, e nos MVL havia sempre pessoal que pedia para trocar (os meus medos eram reprimidos e vistos por outros como uma abstracção dos acontecimentos, quanto mais longe melhor) pois a permanência no quartel fazia-nos pensar mais.
Falava-se do que tinha acontecido ao Paiva, um acontecimento que marcou a companhia e ocorrido precisamente no dia do meu aniversário, uma coisa era real, não eram só os acidentes a que nós, condutores auto, estávamos sujeitos pois nas picadas, fossem no Ambrizete ou no Leste as minas também eram o pão-nosso de cada dia.
A diferença mais notada, nesta transição de companhias, era a relação com os superiores, pois de onde eu tinha vindo havia uma união mais forte, que na 3ª.Compª. só começou a acontecer a partir da nossa colocação no TABÍ.
A nossa rotação de Serpa Pinto para o TABÍ foi mais um episódio rocambolesco do Exército Português no ultramar, a mudança de uma companhia completa em carros civis sem apoio militar só podia ser estratégia do segredo.
No TABÍ, as coisas não eram tão simples, sentia-se o Norte, pessoas mais informadas e mais sofridas com a guerra, se não era bom para nós, para eles também não era melhor ou talvez fosse pior, as conversas deles eram sempre dirigidas ao acontecimento, os militares que não andavam distraídos davam por isso em conversas e até nos olhares.
Todos em surdina sentimos que não estávamos em Serpa Pinto, notou-se que todos éramos poucos para tanto de vigilância. Eu já tinha sentido aquele clima de “segurança” quando da minha passagem pelo Ambrizete, quando aí estivera anteriormente.
Ficou-me na memória um caso que já foi mencionado pelo Facas e vivido também pelo Deodato, em que o carro que eu devia levar a Luanda um Mercedes 322 não queria andar e o atraso custou a vida de outros (julgo da milicia) que não quiseram esperar. Ficámos sempre com a ideia de que a emboscada estava preparada para nós! Deus continuava a não dormir !!
Outros casos recordo, que se tornavam hilariantes; quando levávamos doentes ao hospital de Luanda íamos na célebre Mercedes 322, que gastava mais óleo que combustível, e como a lona estava em mau estado e a polícia militar podia mandar-nos parar íamos sem lona o que tinha como consequência que quem saia constipado chegava com pneumonia. Após deixarmos os doentes no hospital só tínhamos que esperar no AMAZONAS, que se encontrassem despachados.




Houve também um, este menos agradável, caso de tentativa de ataque no TABÍ. As operações neste sector eram mais cirúrgicas e com elevado grau de risco, para quem marchava e para os condutores pois as minas eram o que ninguém desejava e o rebentamento de uma podia ocorrer a qualquer momento. Cada regresso dos operacionais no terreno sem baixas era um alívio e uma alegria para todos, podíamos não dar por isso, mas hoje, é assim que sinto o contentamento de não ter acontecido nada a ninguém.
Outros haverá que mais coisas têm para contar, foi uma zona de muitas operações e muito devem ter por dizer os atiradores. DESCARREGUEM.
A saída para Cabinda, primeiro para o Subantando e depois para o Lucola como não podia deixar de ser, tinha que envolver mais qualquer coisa, ou não seria eu.
Estava de férias na Metrópole quando da rotação da companhia para Cabinda, e a confusão que deu até chegar ao Lucola? Tinha havido o 25 de Abril e o avião partiu sem os passageiros especiais Veiga e Deodato, chegámos com um dia de atraso a Luanda e logo ai começaram as complicações,… adidos com eles!!! Tínhamos de aguardar o transporte que ninguém sabia quando se processaria, e se não tivéssemos optado por embarcar por conta própria ainda hoje lá estávamos, à espera!!
Antes do Lucola ainda estive um dia não sei onde, possivelmente no Subantando, só depois é que fomos transferidos para a Roça Lucola. Era um local aprazível apesar das tendas que tinham como segurança o AR quente. Estávamos perto da cidade e o conflito era praticamente inexistente, limitando-se a nossa actividade a criar condições de habitabilidade no aquartelamento e efectuando uns patrulhamentos à cidade, chegando ainda a efectuar missões junto à fronteira com o Zaire.
Não foi por acaso que fomos para Cabinda, o território apesar de calmo podia comparar-se a um vulcão pronto a entrar em actividade e o pior estava por vir, e aí sim, ao fim de tanto tempo no teatro da guerra sem que nada nos tivesse acontecido, surge uma rebelião que quase nos leva a actuar a sério. No fim da comissão voltavam os mesmos medos e temores de quando lá cheguei. Sobrevivi, outros inocentes que lá ficaram passaram as amarguras do terror de uma guerra feita pelos novos SENHORES DA GUERRA.

Não quero deixar de mencionar que até à minha ida para o serviço militar, a religião não me dizia absolutamente nada, mas alguma coisa havia que podem chamar de loucura, parvoíce, estupidez ou outros adjectivos, que me levaram a comprar uma Bíblia católica que li enquanto estive em Angola e que ainda hoje consulto. (Falo de religião, não de padres)
À minha Mãe esteja onde estiver, à minha mulher aos meus filhos aos meus netos e aos meus tios com 95 anos, agradeço ainda hoje a força, as palavras e a nova vida que me conseguiram transmitir e dar, a Deus agradeço poder partilhar estas minhas palavras convosco.

Um Abraço muito grande
Eduardo Jorge Veiga


Eduardo Veiga e esposa









3839 Cuango69
Secção Auto Missão

Musserra

Musserra Cond.Veiga,Fonseca,Oliveira e o seringas Araujo


Mussera


Mussera

Mussera
  
Nossa Senhora do Grafanil
 
Recordar o Grafanil

Excelentes condições militares no Grafanil

Caála









Facas ilusionista,Veiga,Arraiolos,Vitor



Ferreira 2ºE,Arraiolos mala,Dinis mala,Veiga mala,ao lado o Macedo barbeiro,atrás do Dinis o Macedo Mecânico

Gonçalves,Dias,Macedo,Silva,Clemente,Feitor,Acácio,Matão,Veiga,Melo

Jangada do Caíundo-Veiga,Gonçalves,Dinis



 
Em pé Esq, Acácio,Clemente,Veiga,Silva,Alves,Ferreira,Melo,Dias

Psico ao Caála.  Atrás está o Elias.




S.Pinto Lavagem de Estrada no Rio KWEBA

S.Pinto-Silva,Vitor,Ciríaco,Sancha,Veiga




Rotação de Serpa Pinto para a Fazenda Tabi

Transito de Serpa Pinto para Tabí  Alves,Dias,Gonçalves,Melo,Veiga o Dias e Gonçalves faleceram
Tabí e a 322 Mercedes
Fazennda Tabi
 


Lucola-Deodato,Veiga,Serrano




Cabinda - Locola

Cabinda - Maiombe

Cabinda - Fazenda Lucola


Saida de Cabinda

 
Regresso a Casa


BATALHÃO DE CAÇADORES 4611/72

BATALHÃO DE CAÇADORES 4611/72
conduta brava e em tudo distinta