quinta-feira, 17 de setembro de 2009

3ª Companhia (Convívio de Novembro)

(Por Fernando Moreira, Manuel Brazão e Luis Marques)

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No próximo dia 28 de Novembro, realiza-se mais um convívio anual da 3ª Companhia do Batalhão de Caçadores 4611/1972.
O Manuel Brazão assumiu o encargo de organizar este convívio anual, que ocorrerá na povoação de Pego, próximo da cidade de Abrantes.

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Espera-se que este encontro anual conte com a participação de muitos antigos militares da 3ª Companhia e seus familiares, bem como de todos aqueles que de qualquer modo estão ligados à 3ª Companhia e ao Batalhão de Caçadores 4611/1972.


O Hotel Abrantur, em Pêgo, Abrantes




Aspecto da sala de jantar

A ementa foi cuidadosamente escolhida pelo Manuel Brazão e promete agradar a todos, uma vez que é composta por pratos deliciosos e acepipes vários. Enfim, um mimo que o Brazão nos preparou.
Mas sobretudo, o que mais importa é o saudável convívio entre nós e pôr a conversa “em dia”, com as recordações “daquele tempo” e com as novidades de hoje.


Mas enquanto não chega o desejado encontro, aqui ficam algumas fotos do convívio do ano passado.









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segunda-feira, 31 de agosto de 2009

LUIANA - 3 MESES DE ISOLAMENTO

(Por Jorge Correia)



"É proibido chorar sem aprender,
Levantar-se um dia sem saber o que fazer
Ter medo de suas lembranças.

É proibido não rir dos problemas
Não lutar pelo que se quer,
Abandonar tudo por medo,
Não transformar sonhos em realidade."
  (fragmento de "É proibido" de Pablo Neruda)



O destacamento do Luiana (foto cedida por Manuel Almeida)
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Serpa Pinto, Julho de 1973:

Estava numa bela tarde de “dolce far niente” no quartel de Serpa Pinto, quando vejo o Figueira (sempre ele) aproximar-se de mim junto com outra pessoa,. Tratava-se do Alferes Miliciano Botelho Moniz pertencente ao quartel de Sá da Bandeira que ia a caminho do Luiana, comandar o destacamento. Apresenta-nos e diz-me que o vou acompanhar a ele (Botelho Moniz) com o meu grupo de combate para reforçar o destacamento do Luiana que tinha uma guarnição reduzida.

Outra imagem do Destacamento da Luiana (foto cedida por Manuel Almeida)
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OK! Já estava habituado a ser eu a alinhar, por ser o mais novo. Logo na apresentação gostei de Botelho Moniz e senti que ele também tinha gostado de mim, havia uma empatia. Colhemos informações um do outro e à noite voltámos a encontrarmo-nos. Percebi que estava algo apreensivo, fomos a um café jogar snooker e ele perguntou-me se eu jogava xadrez e ténis! Respondi afirmativamente e logo me lembrei do sacana do Vidigal que todas as tardes de sábado me ia acordar para ir jogar ténis com ele. Graças a Vidigal aprendi a jogar ténis, mais ou menos forçado e ainda por cima o manguelas do Vidigal assim que aparecia o Major para jogar, punha-me fora e jogava só com o Major.

Óptimo, respondeu Botelho Moniz à minha afirmativa, pois levava na sua bagagem um tabuleiro de xadrez e um par de raquetes de ténis e respectivas bolas. BM era filho do Coronel Botelho Moniz, comandante do quartel de Sá da Bandeira, era uma pessoa afável, elegante e muito educado. No dia seguinte lá embarcámos num avião Nordatlas para Luiana, eu, ele o cabo Silva e os soldados Esteves, Tavares, Marfunha e Chilombo.

Aspecto do Destacamento do Luiana (foto cedida por Manuel Almeida)
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Chegados ao Luiana, fomos recebidos por outro Alferes, Trigueiro de seu nome, três furriéis operacionais, um furriel enfermeiro e um 1º sargento. Tudo gente boa, menos o outro alferes que era um indivíduo truculento, natural de Sá da Bandeira todo armado em alto operacional (estes normalmente são os piores), felizmente Botelho Moniz ia comandar o destacamento. Lembro-me de me ter confessado que estava um pouco desolado, o destacamento era circular, de pequenas dimensões, com um Kimbo também pequeno ao lado e entre os dois uma casa de bom aspecto, porém fechada e desabitada,..esclarecem-nos que tinha pertencido ao chefe de posto, que tinha ido em tratamento psiquiátrico para a cidade do Luso e nunca mais tinha voltado. Tudo perspectivas animadoras, pensei eu.

O destacamento no entanto tinha um ar limpo, havia um campo cimentado de futebol de salão, onde com Botelho Moniz também jogávamos ténis, a messe era conjunta de oficiais e sargentos e a casa dos sargentos era espaçosa e bem arejada, um luxo para as circunstâncias! Á noite, normalmente jogava xadrez com BM depois do jantar, reunia-me com o pessoal do meu grupo nos seus alojamentos e aos sábados íamos ver a festa do Kimbo com danças indígenas muito interessantes pela sua vertente cultural. Certa vez uma miúda do Kimbo ofereceu-se para ser minha mulher durante a minha permanência no destacamento, para isso bastava dar-lhe três panos coloridos, para fazer vestidos. Declinei amavelmente a proposta.

Jorge Correia e Botelho Moniz junto a um dos dois hipopótamos abatidos no Luiana. Estes dois hipopótamos alimentaram o Kimbo do Luiana durante dois meses.
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A vida no destacamento decorria pachorrentamente, fazia questão de a encarar como um centro de estágio, de manhã ia com o meu grupo buscar lenha, seguindo de imediato para a praia fluvial, onde os rastos indicavam que os crocodilos já tinham apanhado sol encaminhando-se para a água, por precaução atirávamos duas granadas para dentro de água antes de tomarmos banho, depois de almoço dormia a sesta e por volta das 4 h havia futebol. Não fazia operações porque não tinha levado a segunda dose da vacina da mosca do sono. Era uma chatice ficar sempre no destacamento, finalmente chegou a vacina e depois de injectada ainda fui a tempo de fazer uma operação a caminho da fronteira com a Namíbia. Uma berliet e dois unimogs, foi fantástico porque no percurso deparámos com imensos animais selvagens de grande porte, Elefantes, Hipopótamos (estes víamos quase todos os dias perto do destacamento) Búfalos, Pacaças, Leões, Zebras e Girafas já muito perto da Namíbia. Eu e o Furriel Filipe íamos de Unimog sentados em cima de dois sacos de areia e o Alferes Trigueiro ia na Berliet sentado em cima de quatro sacos de areia,...é só um pormenor.

A determinada altura um acontecimento chato; numa formatura de manhã ao pequeno-almoço o Alferes Botelho Moniz resolve fazer uma revista ao pessoal que estava de serviço. A propósito de uma alegada má uniformização BM dá uma violenta bofetada em Chilombo que o deita ao chão. Assisti ao acontecimento de longe, pois não estava de serviço e portanto não estava na formatura, mas senti-me humilhado e até ofendido por um soldado do meu grupo de combate ter sido agredido, numa situação em que tal não era de todo justificado. Os ânimos andavam por demais exaltados, Trigueiro era um provocador e já tinha havido pequenas escaramuças com quase todos os furriéis. No entanto a agressão partiu de quem menos se esperava, de Botelho Moniz. Nós sabíamos que Botelho Moniz era constantemente pressionado por Trigueiro para endurecer a disciplina no destacamento o que nas circunstâncias em que estávamos não era de todo aconselhável, só serviria para criar atritos como veio a acontecer. À noite, depois do jantar, tentei falar com o Alferes Botelho Moniz, depois de quase todos terem saído, ele estava a ler uma revista antiga e a beber um whisky e eu aproximei-me perguntando o que na verdade se tinha passado. Botelho Moniz com bons modos disse-me que não queria falar sobre o assunto, pois sentia a cabeça num turbilhão. Respeitei a decisão dele, mas inconformado decidi levar o caso adiante e escrevi ao Capitão, comandante da companhia a contar o que se tinha passado com um dos nossos homens, numa situação que por si só, haveria de levar a uma tentativa de sublevação no destacamento. Todos os furriéis e o próprio Sargento pegamos nas G3 e ocupámos o posto de cripto. Houve um momento de grande tensão. Depois de algumas horas e a conselho do Sargento acabámos por regressar aos aposentos,...não houve qualquer reacção. O Capitão não me respondeu, mas depreendi que tinha feito uma qualquer diligência, pois uns dias mais tarde apareceram no destacamento O Coronel Mendonça, o Capitão Amaro e o Tenente Capelão Geraldes, nenhum deles falou comigo, mas à hora do almoço houve um momento caricato, após uma troca de palavras que não consegui ouvir o Tenente Capelão Geraldes passou uma valente "piçada" ao Alferes Trigueiro,....pareceu-me óbvio o motivo da visita e a sua oportunidade.
Jorge Correia, Brazão, Carvalho e Nogueira no Quartel de Serpa Pinto

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Depois deste episódio, a tensão continuou, mas as coisas ficaram um pouco mais definidas e o Alferes Trigueiro andou durante uns tempos de cabeça baixa, mal falava na messe a Botelho Moniz. Duas semanas antes de me vir embora, Botelho Moniz consegue ir no Nordatlas que nos abastecia de 15 em 15 dias, para o Luso, com o propósito de ir a uma consulta médica,... (antes de embarcar desabafa comigo que já não aguenta viver no mesmo quarto que aquele tipo, (Trigueiro). O Nordatlas voltou 15 dias depois, um dia antes da minha partida, mas chegou sem Botelho Moniz. Trigueiro estava no comando, mas para espanto geral, a comandar sozinho, andava mais pianinho, sabia provavelmente que não seria saudável arriscar-se a invectivar o pessoal que manifestava uma forte saturação e explodiria à menor provocação. No entanto ainda esboçou uma gracinha, quando me disse que era da praxe quem saía, pagar duas grades de cerveja,...sem grande paciência, retorqui que tinha por costume só pagar cerveja a amigos. Na altura, não me disse nada,..mas vim a saber mais tarde que me ameaçou com uma porrada, já depois de me vir embora, enfim, próprio de cobardes! No dia seguinte finalmente chega a minha rendição, antes do almoço vejo vir na minha direcção o meu querido amigo e sorridente Furriel Gomes....o inefável Gomes, o homem da parapsicologia. Apanhámos o avião Dakota pilotado por Sul-Africanos e chegámos à noite a Serpa Pinto. Em Novembro vim de férias ao Puto.
Durante uma operação algures no Cuando Cubango, o Jorge Correia e o Figueira
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Em Novembro de 74, a poucos dias do regresso definitivo, em Luanda, estava numa mesa do Pólo Norte com Figueira, Lopes e Facas e avisto numa outra mesa uma pessoa que me acena com o braço,..era Botelho Moniz, levanto-me e dirijo-me à sua mesa, apresenta-me a sua noiva e um casal amigo, digo-lhe que faltam poucos dias para regressar a casa, finalmente! Não tocamos no assunto Luiana, desejamo-nos mutuamente felicidades. Não soube nada mais dele.

  

Destacamento do Luiana (foto do Manuel Almeida)
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terça-feira, 25 de agosto de 2009

Operações - O Mau e o Bom

(Por António Moita, Fernando Moreira e Luís Marques)

"A morte e a guerra
não mais me pegam ao acaso.
Inscrevo sua dupla efígie na pedra
como se o dado de minha sorte
já não rolasse ao azar,
como se passasse do branco
ao preto e ao branco retornasse
sem nunca me sombrear.
Que venha a guerra! Cruel. Total.
O atómico clarim e a génese do fim.
Cauto, como convém aos sábios,
primeiro bradarei contra esse fato.
Mas, voraz como convém à espécie,
ao ver que invadem meus quintais,
das folhas da bananeira inventarei
a ideológica bandeira e explodirei
o corpo do inimigo antes que ataque.
E se ele não atirar primeiro, aproveito
seu descuido de homem fraco, invado sua casa
realizando minha fome milenar de canibal
rugindo sob a máscara de homem."

fragmento de "Os homens amam a guerra", de Affonso Romano de Sant'Anna

Do álbum de recordações do António Moita, publicamos mais um conjunto de fotografias que documentam a presença da 3ª Companhia nas "terras do fim do mundo", nome dado pelas gentes de Angola às terras do Cuando Cubango.
Estas fotografias retratam eloquentemente o dia-a-dia de uma Companhia operacional e mostram que paralelamente ao "bom" de viver numa cidade como Serpa Pinto, havia também o "mau", das cansativas operações no mato (melhor dizendo, savana) e das intermináveis colunas militares de reabastecimento.

Na savana do Cuando Cubango



O Lopes e o Joaquim Silva

O Alferes Figueira e o 1º Cabo Lopes



Imagem da progressão no terreno



Outra imagem da progressão no terreno


Um ângulo curioso (talvez à espera de um prémio Pullitzer)


O 1º Cabo Pinheiro


O elefante branco era o símbolo do pelotão de transporte do sector SE (Serpa Pinto). Esta foto documenta a largada de 2 Grupos de Combate, o 1º e o 4º, para uma operação da 3ª Companhia (na foto estão o Correia, o Figueira, o Brandão e o Girão. Do lado de cá da objectiva, está o António Moita)



Colunas Militares de Reabastecimento (M.V.L.)

Um momento de descanso durante um MVL. Em primeiro plano, o Vidigal, o António Moita e o Lopes. Em segundo plano pessoal do 3º Grupo de Combate.
Esta Coluna de reabastecimento teve a particularidade da presença do Vidigal, cuja especialidade era "cheirador de chouriços" (inspecção de alimentos). A sua presença deveu-se ao facto do Tenente Coronel, 2º comandante do Sector, num acesso de ciúmes, o ter castigado para que ele estivesse alguns dias afastado de Serpa Pinto.


O mesmo momento. Desta vez o Vidigal em vez de andar a "cheirar chouriços", tirou a fotografia
Operações na savana




Momentos de descanso durante uma operação nas imensas "chanas" das "terras do fim do mundo"




Os rios e as lagoas eram por nós utilizados para a higiene de ocasião. Por vezes com vários dias de intervalo...


“Durante séculos pensei
que a guerra fosse o desvio
e a paz a rota.
Enganei-me.
São paralelas margens de um mesmo rio,
a mão e a luva,o pé e a bota.
Mais que gémeas
são xifópagas,
par e ímpar, sorte e azar
são o ouroboro - cobra circular
eternamente a nos devorar.”
respigado do poema "Os homens amam a guerra", de Affonso Romano de Sant'Anna

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

REENCONTROS - Mais um capítulo

(Por Fernando Moreira)

Tanto tempo à deriva, na fronteira do esquecimento sem a poder nunca atravessar, eis que os caminhos se cruzam.
Ficamos frente a frente e, olhos nos olhos apercebemo-nos que temos bocados de nós que não são nossos.
Permanecem em nós mas foram feitos pelos outros. Pelos que ficam e pelos que vão, pelos que estão sempre presentes e pelos que retornam.
Caminham ao nosso lado e fazem parte da nossa sombra, imutáveis e indissociáveis, como convém… “
(Autor desconhecido – Texto da .net)



Ramalho, Cabral, Girão e o Facas em Vendas Novas (Falta o Fernando que estava do lado de cá da objectiva)


Bom dia,
Tenho aproveitado as férias, tempo em que consigo estar comigo, pois aí o Bruno dá-me alguma folga, para, a par do descanso, conseguir estar com os amigos.
Já estive com o Moita, no seu Kimbo em S. Brás de Alportel, onde gentilmente me mostrou os recantos pitorescos da terra, e onde acabámos por não estar sós, pois telefonou-se a alguns, falou-se de outros e de muitas outras histórias que o tempo não apagou. Assim que abrimos a gaveta das recordações, com páginas mais amarelas ou menos, elas saltam fácilmente cá para fora.

A Igreja de São Braz de Alportel, Kimbo do António Moita

De regresso a Lisboa e e-mails trocados, horas marcadas e muita ansiedade na bagagem lá partimos ontem para o Kimbo do Facas para mais uma sessão de “introspecção colectiva” se é que tal existe... creio que sim!
Cheguei e fui directo ao “Ti Américo” onde me sentei na esplanada a beber um fino traçado e a trincar umas “castanhas-caju”, fim de tarde ameno e calmo como convém àquelas paragens, no caminho o Ramalho, o Girão e o Cabral, e a despachar-se de uns exames o Facas.


A Igreja de Vendas Novas (um dos Kimbos do António Facas)

Mas o Grupo não se ficou por ali; encontrámo-nos no estacionamento do quartel e após dois dedos de conversa seguimos para sermos apresentados ao canito de nome “Samba” e rumámos para o Restaurante das Piscinas de Vendas Novas.

Muita conversa enquanto não chega a hora do repasto


Vocês dirão que é incrível não terem sido tiradas fotos, mas o facto é que a conversa foi de tal modo agradável que as máquinas não sairam das bolsas.
O resto já poderão adivinhar, após muita conversa, boa comida e são convívio chega aquilo que ninguém quer... regressar.
Mas fica a vontade de uma próxima!
Até lá!!!

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Baú de memórias (O meu café!)

(Por Fernando Moreira)

Café em Cabinda

Ramalho, Cabral, Moita e Girão
(foto do António Moita)

Estava aqui a dar uma volta pela .net e dei, como sempre, uma pulada ao "Fórum 4611" e ao olhar para o marcador verifiquei que, mesmo em férias, continua a disparar.

Há dias, estando em conversa com o Moita e na qual entrou também o Vidigal via telefone, ficou-me uma expressão do mesmo em que ele me dizia que nunca teve tanta informação dos tempos de Angola como nos últimos meses.

Sentado no meu sofá pensava em como todos nós decerto já sentimos a falta de passar pelo site do Fórum como se ele fosse o café, o nosso café, onde por hábito tomamos o dito com os amigos ou que por lá passamos com a esperança de encontrar alguém conhecido, neste caso na esperança de encontrar uma noticia fresca.
E é disto que o Fórum vive, noticias frescas...
Portanto meus amigos vamos lá a tomar umas pastilhas de fósforo e a rebuscar no baú das vossas memórias umas historietas do tempo de passagem por terras Angolanas e se puder ser colorida com umas fotos tanto melhor.
Aproveitem as férias para esse exercício.
Alguém disse que recordar é viver, eu digo que também pode magoar, pois sabemos que nem tudo foram rosas mas tudo fez parte... mesmo que seja uma história mais sentida.

PS: Se por acaso tropeçarem com algum site ou Fórum de ex militares que tenham feito campanha em Angola e/ou Cabinda experimentem deixar uma mensagem a noticiar o Fórum 4611 e a perguntarem pelos elementos da 1ª e 2ª. Companhia. Continua a ser estranho não aparecer ninguém.
"Quando voltei encontrei os meus passos
Ainda frescos sobre a húmida areia."

Camilo Pessanha, in 'Clepsidra'

Pegadas (foto de Fernando Moreira)

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Estória de Angola ou será história ?

(Por Jorge Correia)


"Mais facilmente se julgaria um homem segundo os seus sonhos
do que segundo os seus pensamentos"


Victor Hugo

O Facas, o Carvalho e o Jorge Correia, em Cabinda, em 1974


Angola, Agosto de 1974.
Eu, o alferes Figueira e o furriel Gomes, fomos dos primeiros a deixar Cabinda a caminho de Luanda, numa fragata da marinha de guerra.
Deixámos o pessoal devidamente instalado no Grafanil e avançámos para Luanda, onde ficámos instalados no Hotel Lisboa, na baixa luandense.
Alugámos um Autobianchi A111 para nos deslocarmos para o Grafanil e para a praia da Barracuda, basicamente.
Cerca de uma ou duas semanas depois, chega o grosso do pessoal e instalam-se também por Luanda com visitas periódicas ao Grafanil.
A determinada altura, houve a necessidade de transportar os nossos soldados naturais de Angola que estavam agregados à 3ª Companhia, ao seu quartel de origem, o quartel de Sá da Bandeira. Vem falar comigo o Figueira e diz-me que o capitão perguntou se não havia voluntários para a missão. Respondo-lhe que não me importo de alinhar caso possa ir à civil e no "meu" carro. Feito... lá vamos nós no Autobianchi a acompanhar as três Berliet´s com o nosso pessoal pertencente ao quartel de Sá da Bandeira, entregá-los no seu local de origem e despedirmo-nos deles. Vão comigo o Figueira e o Gomes.

Arrancámos de Luanda, e dormimos a primeira noite em Nova Lisboa, depois duma estafante viagem, com muito calor e muitos camiões na estrada para ultrapassar.
No dia seguinte saímos bem cedo a caminho de Sá da Bandeira, onde chegámos a meio da tarde e entrámos todos no quartel.
O Figueira dispensa-nos de formalidades a vai com a guia de marcha do pessoal ,fazer a entrega burocrática. Nunca mais os vimos.
Estávamos numa altura de alguma efervescência, com algumas notícias e boatos alarmantes. Lembro-me que veio um alferes do quartel ter connosco e perguntar-nos como estavam as coisas em Luanda, se havia distúrbios ou quaisquer outras movimentações. Dissemos-lhe que não, estava tudo calmo e íamos todos os dias para a praia e para o cinema e as boates à noite.
Bom.. como estávamos ali, aproveitámos para dar uma volta maior no regresso e assim conhecermos um pouco mais de Angola.
Voltámos por Lobito, onde ficámos hospedados num hotel de sonho, o Hotel Términus pertencente ao Caminho de Ferro de Benguela. Um hotel romântico decorado com bambu e com saída directa para a praia....
À noite íamos para o Porto do Lobito para os bares americanos que eram porta sim porta sim. Conhecemos também Benguela.
Quando finalmente nos pusemos a caminho e chegámos à saída do Lobito, deparámos com uma barragem na estrada feita por camionistas que não deixavam passar ninguém, pois estavam a protestar por serem apedrejados nas estradas e queriam que as autoridades os protegessem. Saímos do carro e dissemos que estávamos em missão, que precisávamos de ir para Luanda, que éramos dois furriéis e um alferes apontando para o Figueira.
Os camionistas olharam para nós com desdém e disseram-nos que nem um Major tinha passado, portanto nós também não iríamos passar.
Estávamos à civil e desarmados e lá demos meia volta para o nosso aconchego do Hotel Términus, onde fomos obrigados a ficar mais quatro dias.
Quando finalmente desbloquearam a estrada, arrancámos rumo a Novo Redondo, onde acabámos por permanecer vários dias, pois conhecemos umas deliciosas miúdas que andavam no liceu local e uma delas era recepcionista do Hotel onde ficámos hospedados, na Marginal de Novo Redondo.
Não conto mais pormenores para não cansar muito. Seguidamente fizemos o último trecho da viagem, saídos de Novo Redondo, passámos ainda por Porto Amboím e chegámos nessa noite a Luanda.... cansados mas satisfeitos !!!

O Facas e o Jorge Correia na Roça Lucola (pelo ar de ambos, estavam a aprontar "alguma")

Passados vinte anos, acordo com um pesadelo... tinha sonhado, que juntamente com o Figueira e o Gomes, estávamos formalmente equipados a preceito e a despedirmo-nos dos nossos soldados de Sá da Bandeira com um aperto de mão e um abraço e a desejar-lhes as maiores felicidades para a sua vida futura, pois tinham sido nossos companheiros durante dois anos nas matas.
E, certamente, eles mereciam que isso tivesse acontecido.
Voltei a sonhar com este acontecimento mais umas três ou quatro vezes e acreditem que eu desejaria muito poder voltar atrás e que isto fosse possível de acontecer.
Durante alguns tempos andei pensativo sobre o que teria acontecido com os nossos companheiros de percurso num país a que se seguiu uma guerra civil devastadora.
Bom... um certo dia fui almoçar com o Figueira num restaurante em Lisboa e contei-lhe o que me estava a acontecer.. contei-lhe dos sonhos. Ele desvalorizou o assunto, penso que para me proteger, que não valia a pena pensar no caso e que tinha corrido tudo bem, que não era grave. Nunca mais sonhei com o caso, mas que continuo a pensar que a coisa podia ter corrido de outra maneira, lá isso penso.

O Jorge Correia nos dias de hoje, em terras brasileiras

(O Jorge Correia, ex-furriel miliciano da 3ª Companhia, vive há 6 anos em São Luís, capital do Estado do Maranhão, no Nordeste brasileiro. Terra de muito sol e calor, como ele gosta. Clima tropical e que ainda proporciona, ao contrário de outras cidades brasileiras, uma vida calma e com baixos índices de violência. Luis Marques)

quarta-feira, 22 de julho de 2009

José Francisco Oliveira Costa "o Montijo"

(Por Fernando Moreira, Filipe Silva e Artur Girão)
"A morte não nos diz respeito, nem mortos nem vivos:
Vivos, porque ainda o estamos, mortos, porque já não existimos"
Michel de Montaigne, in "Ensaios"

O Costa "Montijo", Girão e Brazão na despedida de Cabinda (foto do Vítor Fernandes)

No seguimento que tenho feito aos “desaparecidos em combate” fui aos Bombeiros do Montijo em busca do Ex-1º.Cabo. José Francisco Oliveira Costa que tinha a especialidade de apontador de morteiro mas que por vezes fazia uns biscates como electricista auto, individuo alto e de farto vozeirão.
Foi-me dada a notícia que o José Costa faleceu o ano passado de morte súbita.
É isto que me assusta quando tento reaver as minhas memórias, ou reajustá-las, é o não conseguir chegar a tempo.
Soube que ele tem um filho, possui o mesmo nome do pai, José Costa, e tem uma oficina na auto na Atalaia-Montijo.
Desloquei-me lá e apresentei-lhe as minhas condolências e transmiti-lhe alguma memória que ainda possuía àcerca do Costa, do seu alto porte e farto vozeirão. Dizem-me os bombeiros do Montijo, ex-companheiros, e o seu filho que ele era mesmo assim.
Deixei-lhe ficar o endereço do Blogue do 4611 para o caso de ele ter interesse em ver por onde o pai tinha andado enquanto militar, pois o percurso de cada um acaba por ser, nestes casos, o percurso colectivo.
Achei que deviam saber e para algum que tivesse sido próximo do Costa naqueles tempos aqui fica o contacto do Filho: José Costa – 969064982.


O José Costa, "o Montijo" de braço dado com o Matão

Fernando Moreira

Costa,
A tua partida para o outro lado da vida, camarada de armas, padecimentos e alegrias, não foi em vão.
Em qualquer sítio ou lugar em que te encontres, certamente receberás os nossos pensamentos de amizade e agradecimento por nos teres deixado privar contigo ...
Bem hajas Costa, a tua memória ficará para sempre gravada nos nossos corações.

Filipe Silva

O "Montijo" numa missão de patrulhamento no Miconje (foto do José Duarte)


O José Costa "Montijo", fazia parte do 4º grupo de combate da 3ª Companhia.
Era um atirador de morteiro excelente.
Uma vez, num exercício de tiro, em Serpa Pinto, o Filipe indicou-lhe uma árvore a uns bons 200~300 metros.
Ficou a floresta mais pobre ao primeiro morteiro.
Bom tipo... sorridente, amigo do amigo, solidário.
Fica na minha memória como um bom camarada.

Artur Girão

"A morte não pode ser pensada, pois é ausência de pensamento.~

Temos de viver como se fôssemos eternos"

André Maurois,in, "Em que Acredito"

quarta-feira, 8 de julho de 2009

São Brás de Alportel, Abril de 2008

(Por Luís Marques e António Moita)
No dia 26 de Abril de 2008, os ex-militares da 3ª Companhia do Batalhão de Caçadores 4611/72 reuniram-se num alegre convívio em terras algarvias.
O encontro contou com a organização do António Moita e ocorreu em São Brás de Alportel (vila que é carinhosamente apelidada pelo António Moita de “centro do universo”).
Tendo em conta a distância entre o “centro do universo” e o local de residência da grande maioria dos antigos militares da 3ª Companhia, as previsões mais optimistas não apontavam para uma grande participação. Puro engano. Verificou-se uma adesão muito satisfatória, estando presentes cerca de 45 convivas, entre antigos militares e suas famílias, o que não deixa de ser digno de registo para um encontro previsto para durar três dias. Para além de ex-militares da 3ª Companhia, estiveram ainda presentes o Vidigal, o Vaz e o Leal, que de muito perto conviveram com eles, durante o ano em que aquela permaneceu em Serpa Pinto.
Este encontro foi como que a preparação do encontro anual da 3ª Companhia, que aconteceu em Novembro de 2008 e que foi organizado pelo Leal (da chefia do comando do sector de Serpa Pinto), e que teve lugar em Miranda do Corvo.
Para recordar o encontro realizado em São Brás de Alportel, aqui ficam algumas fotos. As primeiras foram tiradas no restaurante onde se realizou o almoço e as seguintes foram obtidas na antiga
residência de férias do Bispo do Algarve Esta casa, com a implantação da República, deixou de pertencer à igreja. Mais tarde foi escola primária (lá o António Moita aprendeu as primeiras letras) e nos dias de hoje é a Escola de Artes e Ofícios. o último conjunto de fotos, foram obtidas em casa do António Moita.
Todas estas fotos foram cedidas pelo Vítor Fernandes.



Imagens do almoço do dia 26 de Abril de 2008









Imagens obtidas na antiga residência de férias do Bispo do Algarve



Em casa do António Moita, em São Brás de Alportel



BATALHÃO DE CAÇADORES 4611/72

BATALHÃO DE CAÇADORES 4611/72
conduta brava e em tudo distinta