BATALHÃO DE CAÇADORES 4611/72

BATALHÃO DE CAÇADORES 4611/72
conduta brava e em tudo distinta

terça-feira, 24 de Novembro de 2009

Recordações de Angola - 21 (Luis Silva)

(Por Luis Marques - Fotos de Luís Silva)

O Luís Silva foi 1º cabo operador de cripto da 3ª Companhia.

O Luis Silva esteve vários meses em M’pupa, destacado na C.C.S.


O Luís Silva e o Luís Moura Afonso (1º Cabo enfermeiro da C.C.S. há muito retirado do nosso convívio e agora localizado pelo João Rodrigues Cunha e pelo António Facas)

O Luis Silva, conhece bem o que foi a realidade das duas companhias do Batalhão de Caçadores 4611/1972. Ninguém como ele terá um conhecimento tão vasto e simultâneo, já que “pertenceu” a ambas e nas duas fez amizades.



O Luís Silva e o "Piçudo" a mascote da C.C.S.

Há dias tive oportunidade de com ele conviver, muitos anos depois de com ele ter partilhaado momentos e episódios passados em M’pupa. Pude constatar que as suas memórias sobre pessoas e factos ligados à C.C.S. estão bem vivas. O mesmo se dirá, com mais razão de ser, relativamente à 3ª Companhia.
O Luís Silva entregou-nos, por intermédio do António Elias, um conjunto de fotografias que reflectem um pouco do quotidiano das duas companhias. São documentos de elevado interesse que muito vão enriquecer o nosso álbum de recordações colectivo, pois contemplam recordações de locais bem diferentes como M’pupa, Serpa Pinto, Luanda e a Fazenda Tabi.


Em M´pupa

Em Serpa Pinto, à porta do seu quarto

Em M'pupa (tudo a fazer peito para impressionar...)

Com o António Lavado Ferreira (também 1º cabo cripto da 3ª Companhia), na 2ª noite após a chegada a Luanda)

Em Serpa Pinto

Em M'pupa, em pose para a fotografia (ao centro o soldado  José António Nunes, da C.C.S., já falecido)



Em M'pupa com uma cabeça de um bufalo caçado no dia anterior (segundo a legenda aposta na foto, teria cerca de 900 kilos)

Na primeira noite em Luanda (Amigo, Luís Silva, Facas, João Salgado, Jorge Correia, Lavado Ferreira e Arlindo Silva)


Na Fazenda Tabi, subindo a uma Palmeira


Ainda na Fazenda Tabi


Na Fazenda Tabi, fazendo protecção, enquanto se pescava à granada


Na Fazenda Tabe, junto à ribeira que servia para irrigação e na qual se apanhava camarão do rio "a granel"


Duas fotos na Fazenda Tabi
 

Fazenda Tabi, aquando da visita do comandante da RMA, General Luz Cunha (ver relato desta visita de autoria do António Facas, publicada em 9 de Maio de 2009)

O João Salgado e o Luis Silva, na Fazenda Tabi

terça-feira, 17 de Novembro de 2009

XI convívio anual dos ex-militares da C.C.S. do Batalhão de Caçadores 4611/72 (Epílogo)

Por José Manuel Francês (texto), e Fernando Moreira (imagens)

 

Respondendo presente ao convite que o Godinho e Dário nos fizeram, lá estivemos nós uma vez mais para festejar a amizade na realização do Convivio comemorativo dos 35 anos de regresso de Angola, desta vez em Évora , cidade a que militarmente o nosso Batalhão está ligado, pois foi no Regimento de Infantaria 16 que no Batalhão de Caçadores 4611/72 foi nado e criado.
O dia amanheceu chuvoso, mas de diversos pontos do país, do Minho ao Algarve, os nossos caminhos tinham um só destino: o local onde nos deveríamos concentrar.








Vários aspectos da concetração das "tropas"

Lá estavam o Godinho e o Dário à nossa espera, dando preciosas indicações para que ninguém se perdesse .
Com a energia do Padre Geraldes, foi celebrada a missa na bela Igreja da Graça , recordando aqueles que já partiram e celebrando a amizade dos presentes.
Depois, fomos até à praça onde se encontra o quartel, outrora chamado de Regimento de Infantaria  16 e que agora é o Comando de Instrução e Doutrina do Exército, onde fomos recebidos por uma guarda de honra militar que abrilhantou a homenagem aos mortos do Batalhão.












Vários aspectos da homenagem aos soldados do Batalhão já falecidos e àqueles que lutaram na Guerra do Ultramar

Com a presença do CORGA, ex 1º sargento, que há uns anos não estava connosco, foi-lhe confiada a representação da Companhia, quer na colocação de uma coroa de flores junto do monumento que invoca a memória dos militares que lutaram e morreram no ultramar existente em frente ao quartel, quer do descerrar da placa comemorativa da visita ao Quartel.


A lápida comemorativa da celebração do 35º aniversário da nossa partida para Angola

Foram momentos repletos de significado, e que caíram bem fundo no coração dos presentes.
Seguiu-se uma visita ao Quartel, tendo grande parte dos antigos militares tido a oportunidade de recordar uns com os outros a sua breve passagem por lá no ano de 1972


 A parada do antigo RI 16


Depois, bem depois, foi um belo almoço, onde bem mais importante do que a ementa que nos foi servida , foi o partilhar das recordações que de ano a ano se vão fortalecendo e reafirmando como os valores que nos unem.



























Imagens recolhidas durante o almoço comemorativo

Este ano, foi com enorme prazer que recebemos , não a visita, mas a integração de dois camaradas da 3ª Companhia , o Facas e o Brazão, que vieram conviver connosco, graças ao nosso Blogue , que tanto tem contribuído para a reunificação do pessoal do Batalhão.
Esteve também presente o Fernando Moreira, um jovem que em Cabinda conheceu e conviveu de muito perto com a 3ª Companhia, enquanto esta esteve aquartelada na Roça Lucola, pertencente a seu Pai  "mindele" Moreira.

lembrando o passado em Angola

O espirito de grupo e de corpo está bem representado neste jovem, que apesar de não ter sido militar connosco, se sente  membro desta família do 4611/72 quanto qualquer um de nós.
Foi decidido , em nome do Blogue que nos liga , oferecer ao Fernando Moreira, o estandarte do Batalhão como agradecimento pelo seu empenho e trabalho feito pela unificação do pessoal das várias companhias do Batalhão de Caçadores 4611/1972.
Dentro dester mesmo espírito, o Brazão convidou os presentes a participarem também no Convivio que a 28 se realizará em Abrantes, pelo pessoal da 3º Companhia.
Estão  lançadas as primeiras pedras para que o projecto de unificação dos Convivios do Batalhão seja uma realidade, e já no próximo ano de 2010 iremos procurar concretizar uma organização conjunta da CCS e 3ª Companhia, para a qual ficaram já nomeados como responsáveis o Brazão  o Carlos Rocha e o Luis Marques. Pode ser que com o decorrer do tempo se juntem a nós os ex-camaradas das 1ª e 2ª Companhias.
Todos somos poucos para procurar contactos com elementos das 1ª e 2º Companhia para que este projecto de globalidade seja um êxito.
Gratos estamos pois, pelo esforço da equipa que este ano realizou este belo encontro e convívio na bela cidade de Évora !!

sexta-feira, 13 de Novembro de 2009

O Baile das viúvas


(por Jorge Correia)

Em tempos não muito distantes, era frequente promover umas embaixadas até ao Algarve, o destino era mais propriamente São Brás de Alportel onde ficávamos instalados em casa do nosso amigo, camarada, companheiro, soba e sabe-se lá mais o quê,....Moita !! bem, na verdade não era bem uma casa normal, era mais uma mansão que o Moita costumava alugar no Verão a estrangeiros. A mansão tinha dois pisos, oito quartos todos com casa de banho privativa e um terraço panorâmico no piso de cima e em baixo, um salão enorme, uma cozinha igualmente enorme, piscina e churrasqueira. Em diferentes ocasiões fui lá com o Madeira, o Figueira, o Girão e o Ramalho. Nesta história como podem ver pelas fotos, os intervenientes foram o Madeira, o Ramalho e eu próprio.

Durante o dia, os passos já eram mais ou menos conhecidos, encontrávamo-nos com o Moita, íamos todos almoçar, visitávamos a Pousada, ao Domingo almoçávamos na quinta, enfim, frequentávamos os “mentideros” da região e conhecíamos os amigos do Moita, nos mesmos locais de sempre tal era a frequência que registávamos nestas nossas deambulações,...em duas ocasiões fomos mesmo ter com o grande ilustre Vidigal a Portimão.
Entretanto, depois do jantar com uma amena cavaqueira a acompanhar, colocava-se a velha questão,....e agora ??? o programa acabava invariavelmente por ser o mesmo de sempre....Destino: Baile das Viúvas. Numa localidade perto de São Brás, um clube de baile promove bailes onde senhoras viúvas e divorciadas, se relacionam com amigos já conhecidos e fazem novas amizades, num convívio salutar, pois é sabido que parar é morrer e há que criar motivos para continuar na luta por perspectivas de vida animadoras.
Por sabermos que isto é uma grande verdade, aqui vão estes três operacionais, ( o Moita não ia, pois não tinha ordem de soltura e a patroa estava atenta) aliás dois operacionais e um especialista de rádio transmissão (de pensamento) mas a culpa não era dele, era dos rádios que já estavam todos marados.
Onze horas da noite; avançamos decididos a partir tudo no clube de baile das viúvas. Entramos e fazemos imediatamente o reconhecimento do terreno, escolhemos uma mesa ao canto como é de bom-tom (somos gajos discretos) e estudamos o ambiente com vistas a um possível avanço táctico. Chegam os primeiros Gin´s Tónicos. Decidimos avançar para os nossos alvos preferenciais, três ainda esbeltas senhoras que nos parecem divorciadas (talvez) ....azareco, três tampas devolvem-nos à procedência e abancamos de novo no nosso canto, estudando novas estratégias para novas investidas com melhores garantias de sucesso. Chegam os segundos Gin´s Tónicos. Decidimos que desta vez teríamos que ir ao assalto de material mais pesado, tipo 2ª guerra em bom estado de conservação.
Partimos para os nossos alvos já previamente escolhidos e desta vez houve um sucesso a 100%. Convido uma senhora viúva para dançar, e ela simpaticamente, com um sorriso aceita e começamos num slow que era precisamente o meu forte nos idos anos 60 de boa memória. Nunca fui um bom dançarino, muito longe disso, nos anos 60 o meu tipo de dança baseava-se mais no esfreganço que no dansanço. Mas enfim, ali em consideração para com a minha parceira de ocasião, lá fui fazendo o meu melhor, mas a verdade é que o meu melhor, era muito pouco,...depois das primeiras pisadelas, pedi desculpa e lá fui conseguindo acertar o passo,..a minha viúva, essa via-se que dançava, era uma batida.
Ali mesmo ao meu lado reparo que estava o Madeira, esse sim, rodopiava em bom estilo, fazendo lembrar um dançarino ainda na activa,...a viúva dele acompanhava o ritmo com facilidade, formavam um bom par. Mais distante consigo avistar o Ramalho que num estilo mais pesadão, agarrava a sua viúva decididamente, tipo, 'esta é minha e já ninguém a agarra'. Bom, lá fomos indo enquanto a música o permitiu, pois quando mudaram o tom para coisas mais mexidas, ritmos latino-americanos e afins, encostámos ás boxes. As viúvas simpaticamente acompanharam-nos e em amena cavaqueira trocámos informações mútuas, do género "jogar conversa fora" como dizem os brasileiros. Desta vez já era tardote e vieram uma cervejas com chamuscas e sandes de fiambre. Quando regressava um slowzito, aí íamos nós feitos malandrecos dar mais um pezinho de dança. No fim, queremos saber a sempre abalizada e técnica opinião do Ramalho sobre o material de guerra que nos calhou,....com o seu ar formal responde, que naturalmente não têm nada a ver com os cafecos africanos, mas enfim, podiam estar em pior estado. Ficámos esclarecidos !!
Bom, com isto tudo, eram 4h da matina, hora de fecho do recinto. O Madeiral ainda sugere uma última aventura com as viúvas, no nosso quartel general, mas decidimos desistir, pois era chato prolongar a operação sem conhecimento do comando de operações.
E assim, acabamos por regressar aos nossos aposentos, mais uma vez com a sensação do dever cumprido, não sem antes irmos ao pão quente que marchava que nem gingas com umas bejecas. E pronto, dois operacionais e um especialista, vão a caminho dum xixi cama para um soninho retemperador.



O Madeira, o Ramalho e o Jorge Correia, recentemente na casa do António Moia em São Brás de Alportel


O Ramalho e o Jorge Correia em São Brás de Alportel (centro do mundo, como lhe chama o António Moita)


Nada de conclusões precipitadas. Trata-se do Jorge Correia, mas em Fortaleza, Brasil, quando ele por lá passou no final do mês de Outubro a caminho de São Luís do Maranhão.

quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

11 de Novembro de 1972

(Por Luis Marques)



Hoje é dia de São Martinho.
Há 37 anos atrás também era dia de São Martinho.
Mas faz hoje precisamente 37 anos que os militares da CCS do Batalhão de Caçadores 4611/1972 chegaram a terras angolanas.
Aeroporto de Figo Maduro, em Lisboa, dia 10 de Novembro de 1972, pelas 23:00 horas.


Aspecto do Aeroporto de Figo Maduro em 1972
Fez ontem 37 anos que, há mesma hora em que escrevo estas linhas, estávamos todos em Santa Margarida, com o coração bem apertado, apesar de a maior parte de nós procurar demonstrar o contrário.
Lembro-me da última refeição antes do embarque, o almoço. Na messe de Sargentos de Santa Margarida fomos surpreendidos por um suculento e saboroso bife com batatas fritas e arroz, e como sobremesa umas apetitosas castanhas assadas. Os militares que serviam na messe colocaram um cartaz de saudação, muito simpático, cujo teor já não me recordo.


O Ameixa (infelizmente já falecido), o Godinho, o Dário e o Cabecinha em Santa Margarida no dia 11 de Novembro de 1972, antes do embarque para Angola

Foi o primeiro dia de uma ausência de mais de dois anos.
A maior parte de nós só regressou a Portugal no final de Novembro de 1974.
Éramos então jovens de 20 anos, algo irreverentes, e em pleno vigor da vida, com a cabeça cheia de sonhos, que uns conseguiram concretizar, outros nem tanto...
Foi o início de um percurso por uma vereda que por vezes se revelou estreita e agreste.
Que pensamentos nos acometeram nessas 9 horas de viagem? Que medos e maus presságios viajaram connosco?


Certamente foi esta uma das primeira visões que tivémos de Luanda, no dia 12 de Novembro de 1972, pela manhã, antes de aterrarmos no aeroporto de Luanda (no caso o Bairro da Maianga)


A Baía de Luanda, capital da província de Angola, cidade onde desembarcámos na manhã do dia 12 de Novembro de 1972


O bulício da baixa da cidade de Luanda em 1972, foi para muitos de nós uma surpresa
Já no próximo dia 14, sábado, vamos todos poder reviver e lembrar, não só o dia 11 de Novembro de 1972, como os dois anos de comissão. Falo, como já compreenderam, do XI encontro anual da CCS do Batalhão de Caçadores 4611/72, que este ano se realiza em Évora, cidade onde o Batalhão teve o seu início.

quarta-feira, 4 de Novembro de 2009

REENCONTROS - Mais um capítulo

(Por Jorge Correia e Luís Marques)


"Fica proibido deixar os teus amigos,

Não tentar compreender aquilo que viveram juntos,
Chamá-los somente quando precisas deles"

Pablo Neruda "Fica proibido" (fragmento)
 
 
 


Aspecto do jantar. Moita e Facas (encobertos), Girão, Ramalho, Madeira,Fernando,Figueira, Novo e Marques. faltam o Coreia (do lado de cá da objectiva) e o Cabral, que está encoberto pelo Moita


Local: Cidade do Barreiro, Restaurante Napolitano.
Presentes: José Cabral, António Moita, António Facas, Artur Girão, Jorge Correia, João Novo. Manuel Figueira, Fernando Moreira Carlos Madeira, Luis Ramalho e Luís Marques (muitos mais, no nosso pensamento).
Data: 27 de Outubro de 2009
Motivo (é preciso haver um?): despedida do Jorge Correia.
Ingredientes: muita conversa da treta e de grandes tretas, boa comida e bebida

Esta seria a síntese de mais um encontro entre alguns antigos camaradas do Batalhão de Caçadores 4611/1972 (CCS e 3ª Companhia) que ocorreu no final do passado mês de Outubro, ao final do dia.


Outro aspecto do jantar


Mas este encontro representou muito mais do que aquilo que atrás está referido.
A razão primeira (melhor dizendo: a desculpa) foi dar um abraço de despedida ao Jorge Correia, que estava de regresso a São Luís do Maranhão, Brasil.
Lá no fundo, verdadeiramente, foi mais um pretexto para reavivar velhas amizades e um pé-de-cantiga para dois dedos de boa conversa com amigos que se reencontram quando sentem vontade de estar uns com os outros.
Como não podia deixar de ser os temas das conversas tidas à mesa andaram à volta dos tópicos, Angola, Serpa Pinto, M’Pupa Cabinda, etc. E muitas descobertas e revelações continuam a ser feitas. Muitos sorrisos, gargalhadas e olhares errantes, recordando o passado, continuam a provocar essas cavaqueiras...
Aqueles que ainda não apareceram, juntem-se ao próximo encontro informal e sintam como são verdadeiros os sentimentos que nos cercam nessa alturas.



Girão, Facas, Moita Cabral, Madeira e Fernando (ambos de costas)


Figueira, Fernando, Madeira e Ramalho

segunda-feira, 26 de Outubro de 2009

XI convívio anual dos ex-militares da C.C.S. do Batalhão de Caçadores 4611/72 (2)

(Por António Godinho e Luis Marques)



O XI encontro dos antigos militares das C.C.S. do Batalhão de Caçadores 4611/1072, que irá decorrer em Évora no próximo dia 14 de Novembro, terá como um dos seus momentos altos o descerramento de uma placa comemorativa do acontecimento no salão de entrada do Comando de Instrução e Doutrina de Évora (ex – RI16).




Dada a importância deste acto, a presença dos antigos militares da C.C.S. é muito importante.
Uma vez que o programa que antecede o almoço propriamente dito é muito vasto e o tempo para o completar é escasso, aqui fica o horário do referido programa:



10:00- Concentração em frente ao quartel do Comando de Instrução e Doutrina (antigo RI16).
10:30- Missa na Igreja da Nossa Senhora da Pobreza.
11:30- Homenagem aos militares falecidos junto do monumento em frente ao Comando de Instrução e Doutrina.
11:45- Descerramento de uma placa da companhia no salão de entrada do quartel do Comando de Instrução e Doutrina.
12:00- Visita ás instalações do Comando de Instrução e Doutrina.
12:30- Partida para o local do almoço.
13:00- Almoço

 Não faltes ao XI encontro anual.

segunda-feira, 19 de Outubro de 2009

JUSTIFICAÇÕES / EXORCISAR FANTASMAS

(por Filipe Silva e Martins Correia)


Diz Filipe Silva:

Amigo Correia, um abraço para ti e todos os companheiros de armas (fórum).



O 4º Grupo de Combate da 3ª Companhia (o pelotão do Filipe Silva)



Já li e reli a tua mensagem justificativa do “célebre pé”, e tenho de exorcizar alguns fantasmas desse passado próximo, ou seja de 1972.
Após terminar, em Lamego, o 2º ciclo em Operações Especiais de Infantaria, vulgo Ranger, a 17 de Março de 1972, fui colocado no RI 16 em Évora, onde se estava a reunir o Batalhão 4611 / 72.
De salientar que estava mobilizado desde 28 de Fevereiro de 1972... Ainda não tinha terminado a especialidade como Ranger no CIOE , do qual era comandante o tenente coronel Mendonça, que me não lembro de ter conhecido lá.
De Évora fomos recambiados para Abrantes e logo de seguida para Santa Margarida para o célebre IAO, a aguardar embarque para Angola.
Quando me apresentei ao comandante Mendonça, levei logo uma descasca por me apresentar de cabelo rapado.
Começaram, aí, as nossas discussões periódicas, dado eu ter tido de lhe explicar que se tratava dum mero acto de higiene, mas podendo ele passar a considerá-lo de protesto a partir daquela data.
A 2ª foi quando me mandaram para casa, 10 dias de férias de embarque, com um rol de fardas para comprar. De imediato perguntei ao dito Mendonça: - Como é que é isto, até temos de comprar enxoval para ir para a guerra ?
A resposta do “bicho” foi: - Veja lá se não pode dispor de alguns milhares de escudos, que depois o exército lhe pagará !
Fiz-lhe logo as contas: - 850 escudos para a renda da casa, mais a alimentação da mulher e do filho, pediatra, etc., a pagar com os 170 escudos que me pagaram durante 6 meses, acha que tenho poucas dívidas? O Cristo é que fazia o milagre da multiplicação!
Após este auspicioso inicio de guerra, lá fomos para Serpa Pinto, onde se desenrola toda a problemática do Pé do Correia, que para mim culmina com a nomeação de comandante interino de companhia, com todas as responsabilidades inerentes ao cargo e um “chorudo vencimento” de 12 mil escudos mensais. Vejam que o 1º Sarg. Campos ganhava 17...
Esta constatação, e o facto de ter tido 4 dias de quartel nos primeiros 6 meses, por ter de fazer todo o tipo de operações, a nível de companhia, a nível de batalhão, a nível de sector e terminando com MVL, acções psicológicas e até uma base táctica, conduziu a mais uma confrontação com o Mendonça.
Desta vez o caso foi mais sério e meteu ameaças de ambos os lados.


Imagem de Serpa Pinto em 1973

O Campos, quando eu regressei de mais uma operação, julgo que de Vila Nova da Armada, apresentou-me dezanove participações de furriéis ( mais de uma contemplava alguns ).
Fiquei furibundo e rasguei-lhas todas nas trombas... Por seu lado ele apresentou a despacho um requerimento, dirigido ao Mendonça, para mudança de companhia por incompatibilidade com o comandante interino... E eu despachei!
Pouco tempo depois, recebi ordem para não sair da unidade em qualquer tipo de missão, até ordem do Mendonça, que se apresentou na companhia umas duas semanas depois.
Começou de peito feito a berrar que nem cabra desmamada e aos murros na secretária, no que eu o imitei de imediato. Acabei por lhe dizer que estava farto de gente que passava o pouco tempo que eu tinha, sem estar no mato, a participar dos furriéis e de tudo e todos. E que se ele se sentia mal na companhia eu não tinha o direito de o obrigar a ficar, e não pensasse que eu ia pedir desculpa ao Campos por lhe ter dito que ele era uma aberração e que lhe aplicava 20 dias de cadeia para ele aprender a respeitar os oficiais milicianos !
Mais uma vez o Mendonça me ameaçou com uma porrada, e ficou apopléctico quando eu lhe disse que já vinha tarde, pois eu já tinha um louvor do comandante da região militar de Angola, que até tinha muitas estrelas...
As coisas azedaram ao ponto de eu lhe ter dito que ou ele arranjava um comandante para a companhia, até ao fim do mês, ou desertava!
Respondeu-me que se eu estava mal que fosse agradecer ao capitão Correia, que tinha partido um pé no quarto, de propósito, para não ter de ir para o mato ! Julgo que foi daqui que surgiu a lenda “do pé”...
Não sei se ele acreditou ou não no que eu lhe disse, pois respondeu que já sabia que eu era o único oficial da companhia que cumpria com a palavra, fossem quais fossem as consequências, mas que também sabia que eu cumpria rigorosamente as ordens de combate.
Que tivesse calma e paciência que um novo capitão já estava nomeado.
Foi quando, julgo que nos finais de Maio de 72, apareceu o Teixeira.
A partir desta altura as coisas passaram à normalidade.
Um abraço amigo, para todos.

Filipe Silva



Diz Martins Correia:

Caríssimo Filipe:







A estrada de Serpa Pinto em direcção a Nova Lisboa


Tu fazes-me lembrar uma engenheira que trabalhou comigo na R.T.P. Parece que um de vocês é uma clonagem do outro. Além de serem ambos competentes, aquilo que em consciência têm a dizer ou a fazer, não estão com meias medidas.
Algum tempo depois de me porem essa engenheira no meu Departamento, alguns perguntavam-me: "Consegues aturá-la?" "É muito chata?". Como as pessoas confundem a nossa frontalidade com o ser-se chato!...Porém dei-me lindamente com ela. Sempre que ela não concordava comigo, com um sorriso nos lábios, "não mas perdoava". Como não há ninguém perfeito, com ela, sabia sempre das minhas falhas, o que não acontecia com outros que só ratavam pelas costas. Porém, na área da engenharia, ela era a mais competente. Trabalhos mais complicados, era a ela que eu recorria. E mesmo que alguma coisa ela não soubesse, arranjava sempre uma saída, para chegar à solução. Contudo, achava piada que ela, quando tinha de lidar com certas pessoas do tipo do nosso Tenente-coronel Mendonça, ia ao meu gabinete e dizia-me: "Com este fale o engenheiro, porque eu não tenho paciência para o aturar e o engenheiro é mais diplomático". Lembro-me que, nos últimos tempos que eu estive na R.T.P., tinha que ser sempre eu a falar com o responsável de S. Tomé e Príncipe.
Quando eu saí da R.T.P., única empresa onde sempre trabalhei, aproveitando uma "deixa" da lei, através da qual consegui receber uma indemnização e ao mesmo tempo uma reforma por inteiro e antecipada de 7 anos, tive que falar com a Administração, para me deixarem sair. E eu gostava tanto dessa engenheira (profissionalmente, nada de confusões) que a propus, para me substituir, porque era necessário garantir que não haveria no futuro falhas com os PALOP´s (Nós éramos os responsáveis pela instalação e manutenção das redes de emissão da RTPi nesses países).
Portanto Filipe, não te arrependas de ter sido frontal com ninguém, quando essa frontalidade é emanada pela nossa consciência que nos diz que algo deve ser dito ou feito. O nosso valor está na nossa competência. Só os incompetentes e orgulhosos é que não aceitam ouvir as críticas e as opiniões dos outros. Pelo que te conheço, sempre te considerei uma pessoa competente e sempre contei contigo, enquanto estive na companhia.
Quanto ao conselho do Mendonça de "agradecer ao capitão Correia, que tinha partido um pé no quarto, de propósito, para não ter de ir para o mato !", essa define a maldade ou estupidez do tipo que proferiu tais palavras. Só acredito que tenha sido por maldade, para denegrir a minha imagem e até porque eu sempre considerei esse indivíduo mesmo mau. Não acredito que tenha sido só por estupidez. Como é que se faz, para partir intencionalmente no quarto um pé e a coisa resultar logo à primeira? E quem acredita que logo no início da comissão e na 1ª operação parta já um pé, para não ter de ir para o mato? Quando terminasse a comissão, quantas vezes teria partido os pés, os braços e não sei que mais?... No final regressaria mesmo deficiente, não por força da guerra, mas por me ter auto mutilado no quarto!!!...Essa é demasiado estúpida, para ser dita conscientemente!!!...
A ser verdade que me recusava a ir para o mato, então no Toto, zona muito mais perigosa, nunca teria saído do quartel, até porque a tal não era obrigado. Aliás dormi sempre sozinho fora do quartel na única casa habitada entre o quartel e a sanzala.
Já em Luanda, fui sozinho num jipe com o meu condutor a um musseque tratar de uns assuntos a casa de um antigo militar da Chefia do Serviço de Material, onde eu estava colocado, quando sabia que isso era altamente perigoso. Esse musseque era um barril de pólvora e uns dias mais tarde, estava eu de Oficial de Dia ao Quartel General, rebentou lá um rebelião que me obrigou a ir várias vezes a falar com o General, Comandante da Região, transmitir os apelos de socorro que me chegavam, dizendo que havia lá muitos mortos, muitos deles decapitados.

O palácio do Governador em Sepa Pinto

Também em Luanda, estive presente num grande tiroteio com vários mortos. Aqui sim, no critério do Sr. Mendonça, era de ter partido um pé, para não estar de Oficial de Dia ao Quartel-general, porque este tiroteio era previsível e veio na sequência de um grande desfile militar anunciado com antecedência. Este desfile foi impressionante. Eram militares oriundos de Angola, que fizeram uma marcha silenciosa entre a zona dos quartéis e o Palácio do Governador, passando em frente do Quartel-general. Era uma marcha que impressionava pelo seu silêncio e pelo número de militares que passaram durante 25 minutos, numa formação a 6 ininterrupta. Na zona, uma companhia de Comandos mantinha a segurança e, quando estavam a passar os últimos militares da marcha, rebentou o tiroteio. Como Oficial de Dia ao Quartel-general, já tinha sido chamado pelo General, para controlar todos aqueles que estavam a manter a segurança ao Quartel General e estavam na posse de uma metralhadora (não me lembro do nome dela). Junto de cada um, tive de pôr despercebidamente um militar de confiança, para abater de imediato o outro, se ele se virasse com a metralhadora contra os nossos. Assisti a todo o tiroteio e no final ainda recolhi do chão um relógio óptimo, Seiko Automático, que ainda hoje funciona bem e que mantenho como recordação. É este o capitão Correia que "partiu um pé de propósito para não ir ao mato". Como eu tenho pena que o Sr. Mendonça já tenha morrido!!!...
E com os teus escritos, não resisti em falar mais um pouco de mim e da revolta que ainda hoje sinto pelo comportamento do Sr. Mendonça para comigo, prejudicando dessa maneira a 3ª Companhia.
Para ti, Filipe, os meus parabéns pela tua verticalidade e frontalidade.


Um forte abraço


Martins Correia

segunda-feira, 12 de Outubro de 2009

"Soltas" de Angola

(Por Jorge Correia)

História 1
LOCAL: CABINDA
PROTAGONISTA PRINCIPAL: FACAS



O Facas em Cabinda tocava numa banda musical (na altura dizia-se Conjunto) e costumava ensaiar à noite. Era baterista.
A malta costumava à noite, juntar-se e ir ao Cinema Chiloango, o cinema mais moderno de Cabinda . A determinado momento, mais ou menos a meio do filme, ouvíamos o Facas começar a arrear forte e feio na bateria, e...segue o ensaio.


Claro, a malta comentava em voz baixa: "lá está o Facas a fazer barulho e a não nos deixar ver o filme em silêncio"
No dia seguinte lá íamos "protestar no gozo" junto do Facas, "é pá ó Facas vê lá se deixas o pessoal ver os filmes descansado, sem aquele barulho da tua bateria". "Bate mais devagarinho na bateria pá"
Claro que acabava tudo em risada geral.




História 2 (esta é um bocadinho mais pesada)
LOCAL: CABINDA


Na Roça Lucola, quando um pelotão ficava de serviço, o capitão queria que todos os elementos desse pelotão ficassem no aquartelamento, (talvez para o defender de perigosos guerrilheiros), porém eu gostava de me desenfiar quando não era o sargento de dia. Além disso achava desnecessário e estúpido ficar na Roça se não estava de serviço. Desenfiei-me, fui para a cidade prá nigth.



Na Roça Lucola a pensar como me ia desenfiar nessa noite !!!!!

No regresso vinha o pessoal no Unimog a subir na rampa de acesso à Roça e estava à nossa espera o capitão, pois a primeira casa da Roça era a casa dos oficiais. Manda parar o Unimog e manda-me descer do mesmo. Desço e ficamos frente a frente. Ameaça-me com uma porrada, que me manda para o norte de Cabinda, etc. O tom ameaçador dele cresce, estava visivelmente fora de si. Pelo canto do olho vejo que quem estava de sentinela à casa dos oficiais era o Marfunha do meu grupo de combate, ou seja vi que tinha uma G3 á mão de semear se fosse preciso. O capitão em Serpa Pinto tinha agredido o Furriel Lopes que chegou a formalizar uma participação contra ele e veio mais tarde a desistir da queixa (fez mal, digo eu) . Sempre com ar ameaçador e colérico lá foi libertando a sua bilis. Durante todo o seu tresloucado discurso, eu não disse uma única palavra, limitei-me a ouvir e a estar atento ao que poderia ocorrer. Certamente que eu não iria queixar-me a ninguém...eu ia actuar.


História 3 (esta é para descontrair)
LOCAL: LUIANA


Num determinado momento, a poucos metros do destacamento do Luiana, deslocávamo-nos num Unimog, eu o Alferes Lisboa Botelho e mais 3 soldados, quando avistámos um elefante que seguia solitário,...normalmente, os solitários eram os elefantes que por qualquer razão (normalmente doentes) tinham sido excluídos da manada. Lisboa Botelho que andava quase sempre com a sua espingarda própria de caça grossa, desceu do Unimog, fez pontaria e disparou; o elefante abanou e parou, ficámos todos na expectativa do que se seguiria. Lentamente o elefante, virou-se na nossa direcção abanou as orelhas, produziu um som aterrador e começou a correr direito a nós. Foi o pânico, ao princípio não sabíamos se ficávamos em cima ou em baixo do Unimog. Nisto vejo que Lisboa Botelho com uma frieza impressionante, ajoelha, faz de novo pontaria e desta vez para alívio de todos acerta em cheio na cabeça do elefante que tomba. No Unimog e sem os preparativos necessários partimos para o destacamento e regressamos no dia seguinte numa Berliet. Para espanto nosso quando chegamos não avistamos o elefante, pois estava totalmente coberto por abutres que já tinham comido metade do bicho. Com alguns disparos lá os conseguimos afugentar, não sem que antes um que parecia morto, ainda desse uma bicada no tornozelo de um dos nossos homens que sangrou abundantemente.


Na nossa praia fluvial do Luiana

 

Lisboa Botelho tinha levado dois especialistas do Kimbo que com as suas catanas, e quais cirurgiões exímios, descarnaram o elefante para retirar as presas, tinha dois dentes de marfim lindos. Lisboa Botelho ficou com os dentes, o que lhes fez não sei!! mas concerteza não os deitou ao rio.



Campo de futebol do Tabi, antes das obras para o Mundial de futebol da África do Sul.



 
Em Santa Margarida já com o jornal na mão para dar uns cheiros !!

sexta-feira, 9 de Outubro de 2009

Recordações de Angola - 21

(Por Eduardo Veiga, Anónio Facas e Luis Marques)

Por intermédio do António Facas, o Eduardo Veiga remeteu-nos estas três fotos que pelo seu interesse para a "construção" da "História do Batalhão" e em particular da 3ª Companhia passamos a publicar.
São três fotos que muito vão enriquecer o nosso álbum colectivo.


Vítor Rodrigues e Eduardo Veiga e a Berliet MG-74-14

Esta foto foi tirada após o  acidente ocorrido em 19 de Janeiro de 1973 e que vitimou mortalmente o soldado condutor José Almeida Paiva, natural de Santa Marinha, Seia (ficou também ferido o soldado César Dias)


O Cabo Costa (Montijo), já falecido,  Vítor Rodrigues (escriturário), João Almeida Silva (condutor) e o Eduardo Veiga




A saída de Cabinda, em Novembro de 1974, a caminho de Luanda a bordo da fragata "Sacadura Cabral". Entre outros, o Eduardo Veiga, o ex-furriel Luís Lopes  e mais à direita o Deodato

segunda-feira, 28 de Setembro de 2009

Martins Correia - a saída de Serpa Pinto

(Por Martins Correia)

"A guerra é mãe e rainha de todas as coisas;
alguns transforma em deuses, outros, em homens;
de alguns faz escravos, de outros, homens livres"

Heráclito  de Éfeso (*) in "fragmentos"

À medida que o blog do Fórum 4611 vai sendo actualizado com novos trabalhos, é com grande prazer que o vou consultando. Alguns dos relatos ou fotografias fazem-me recordar os velhos tempos em que estava convosco. Outros porém entristecem-me, porque não os pude partilhar com aquele grupo de amigos excepcionais que levei da “Metrópole” e com aqueles que a nós se juntaram já em Angola. Penso sempre: “Será que eles estão convencidos de que os abandonei e que os troquei por uns tempos bem passados em Luanda?”. Pois bem, não foi nada disso e acho que, utilizando os muitos endereços que já tenho, chegou a hora de contar a todos vós o que se passou e que durante tantos anos me “ficou atravessado”.
Em 1971 fui chamado pela 2ª. vez, para fazer o serviço militar. Na 1ª vez já havia cumprido quase 4 anos (de 1965 a 1969) e tinha estado em vários quartéis. Em todos eles, embora em serviço fosse cumprida a disciplina militar, fora de serviço, no bar de oficiais ou mesmo no restaurante, havia uma grande camaradagem entre todos os oficiais, independentemente da sua patente. Lembro-me que no Regimento de Cavalaria 8, em Castelo Branco, várias vezes a minha despesa do bar me foi paga pelo Comandante e no Regimento de Cavalaria 7, em Lisboa, não têm conto as noitadas que passei a jogar pocker com o 2º. Comandante (que graças a Deus perdeu uns bons continhos, para eu pôr na minha conta bancária…).
Como passei à disponibilidade sem ter ido ao “Ultramar”, fui chamado em 1971, a fim de tirar o C.P.C. (Curso Para Capitães) em Mafra. Eu era na altura Tenente e a boa camaradagem com os outros oficiais, também aí era excelente. Lembro-me que um dos nossos instrutores era na altura o Major Pezarat Correia e que era espectacular. Já depois do 25 de Abril de 1974, me encontrei várias vezes com ele em Luanda e continuava a mesma pessoa com quem dava gosto conviver.

Terminado o curso em Mafra, fui fazer no início de 1972 um estágio junto dos “Rangeres” em Lamego. Era Comandante do quartel o nosso conhecido Tenente-coronel Mendonça. Como ele já faleceu, não quero estar aqui a adjectiva-lo. Só tenho pena de ele ter falecido sem eu ter tido a oportunidade de conversar um dia com ele. Para se fazer uma ideia do seu comportamento para com os outros oficiais, fosse ele miliciano ou do quadro, só quero aqui lembrar as figuras caricatas às horas das refeições (almoço e jantar): Por mais fome ou pressa que os outros oficiais tivessem, ninguém entrava no restaurante sem entrar primeiro o Tenente-coronel. Quando ele chegava ao bar, todos os oficiais, sem excepção, se punham em sentido e só depois de ele entrar no restaurante, é que todos os outros podiam entrar. O seu comportamento demonstrava uma arrogância e um desprezo por todos os inferiores sem qualificação. Numa dessas alturas houve um de nós que disse: “Soube que o Tenente-coronel Mendonça está para ser mobilizado este ano, portanto vai calhar a alguns de nós. Esses vão estar bem lixados”. Mais tarde, quando fui mobilizado e soube o nome do meu comandante de Batalhão, “fiquei para morrer”. Tinha que me calhar a mim!!!...






O Coronel Mário Hernâni Vasques de Mendonça (ao centro)  durante uma visita de militares sul-africanos ao comando do Batalhão, em M'pupa



Já em Abrantes e com o Batalhão formado, estava eu no bar com os outros 2 Capitães operacionais do Batalhão (Esteves e Read) e um deles disse: “Já vistes que o Mendonça só fala com patentes superiores ou, quando muito com majores e capitães do quadro e não liga nenhuma à malta? Quando sairmos daqui e formos para Santa Margarida e depois em Angola fazemos-lhe o mesmo, que ele não há-de ter com quem falar. Conversas com ele, só de serviço.” Todos concordámos, mas já em Santa Margarida, de vez em quando, lá via o Esteves ou o Read no bar a dar conversa ao Tenente-coronel Mendonça. Eu mantive o combinado e, conversas, só de serviço. Nunca gostei de pessoas importantes, até porque, para mim, não as há mais importantes do que eu e, mesmo assim, eu nunca gostei de me armar em mais importante do que os outros. Aliás sempre gostei de ajudar os outros, de modo a que os outros possam sempre ver em mim um amigo e alguém igual a eles.
Foi assim que, logo em Santa Margarida, eu e o Tenente-coronel Mendonça entrámos em rota de colisão. Foi aí que comecei a prever que todos vocês iriam ser prejudicados por minha causa. Lembro-me de eu vos obrigar a cumprir as actividades previstas em planeamento (algumas vezes coisas sem interesse nenhum), porque já sabia que tinha o Tenente-coronel à “perna”. Várias vezes fui chamado perante ele para me chatear, porque havia uns quantos grupos de militares que andavam por ali à “balda” sem fazer nada e não cumpriam os planos previstos. Todas as vezes tive o prazer de lhe dizer cinicamente que ele ainda não conhecia o pessoal dele e que aqueles militares não eram da minha companhia. Portanto se queria ralhar com algum comandante de companhia que ralhasse com o Esteves ou com o Read.

  O natal de 1972 em Serpa Pinto

Entretanto vamos para Angola e a situação agrava-se. À nossa chegada a Luanda tive de passar 2 ou 3 dias no Quartel General a receber instruções e documentação. Logo aí tive a informação de que o “meu Amigo” me quis tramar e portanto a vós todos também “por tabela”. No Quartel General determinaram que a 3ª Companhia ficaria em Serpa Pinto, porque eu era o Capitão mais antigo do Batalhão. Porém o Tenente-coronel queria a toda a força pôr-nos, salvo erro no Cuito ou em Mavinga, mas no Quartel General impuseram-lhe que ficássemos em Serpa Pinto.

Já em Serpa Pinto, soube que as companhias operacionais anteriores à nossa nunca fizeram operações. Serviam só para defesa do Sector, patrulhamentos na zona e apoio às colunas de reabastecimento. A nossa companhia seria para fazer o mesmo. Porém, depois de muita insistência do Tenente-coronel Mendonça, junto do Brigadeiro, Comandante de Zona, este cedeu.




O Capitão Luís Martins Correia em frente à Secretaria da 3ª Companhia


Assim, no dia 29 de Dezembro de 1972, o Tenente-coronel Mendonça, foi a Serpa Pinto e chamou-me, para me comunicar que nos primeiros dias de Janeiro eu iria sair para uma operação com 3 grupos de combate com a duração de 3 semanas. Aceitei a notícia e pus-me a escrever à minha mulher, para ela, durante essas 3 semanas, não esperar correspondência minha.




O alojamento dos oficiais em Serpa Pinto (José Manuel Duarte, Luís Martins Correia e Filipe Silva)


Enquanto eu estava a escrever o aerograma, estava a assistir a um duelo renhidíssimo, entre a então Alferes Duarte, que partilhava o quarto comigo, e um bravo mosquito que teimava em não se deixar matar. No meio daquela luta interminável, tive que “admoestar” o Alferes Duarte, perguntando mesmo que “raio de Alferes” me tinha saído, se nem um mosquito era capaz de matar!!!… Entretanto fui-lhe dizendo que, quando eu acabasse de escrever o aerograma, eu mataria o mosquito. E assim foi. No fim da escrita, armei-me com a minha almofada, pus-me em cima dos pés da cama, fiz pontaria ao mosquito, dei um pulo em direcção a ele e…pum!... disparei a almofada. O tiro foi certeiro e o mosquito veio parar morto ao chão. Mas eu, como não podia ficar indefinidamente no ar, também tive de vir para o chão. Só que no fulgor da luta, eu não preparei bem a minha retirada e fui aterrar em cima da minha mala da roupa que estava aos pés da cama. Um dos meus pés ficou meio em cima da mala meio de fora e torci-o com muita violência. Fiquei completamente KO, sem poder pôr o pé no chão. No dia seguinte de manhã, tinha o pé com dores terríveis e todo preto e, coxeando muito, fui falar com o Tenente-coronel Mendonça, contando-lhe tudo o que acontecera e dizendo-lhe que eu não poderia ir naquela operação. A resposta foi: “Vai sim senhor”. “Mas eu não consigo andar”- dizia-lhe eu. “ Vai na mesma e, quando já não puder andar mais, será evacuado de helicóptero”. “ Mas então terei de ser evacuado logo à partida, porque eu não consigo andar”- retorqui-lhe eu. “Vai na mesma”, continuava ele a dizer. Eu dei a conversa por terminada e fui para o hospital. Contei tudo ao médico, que ficou espantado com o procedimento do Tenente-coronel Mendonça e disse: “Então vai na mesma? Oh! nosso cabo, engessa aqui o pé do nosso Capitão. Agora ele que o mande para a operação…” E no final pediu a minha evacuação para Nova Lisboa.
 



Martins Correia no Quimbo de Serpa Pinto


Logo que regressei de Nova Lisboa, o médico pediu a minha evacuação para o Hospital Militar de Luanda, onde eu já tinha tudo preparado, para passar aos serviços auxiliares, porque “a corda tinha partido”. Ainda a comissão estava no início e já o nosso Tenente-coronel estava a ultrapassar todos os limites. E, por causa da “vontade que ele me tinha”, estavam todos vós a pagar também com mais operações. Não achei justo e não me restou outra solução que não fosse sair daquele Batalhão.



Martins Correia em Luanda



Estava eu no Hospital de Luanda (onde estive 3 meses) e soube por um de vós, que foi a Luanda tratar de assuntos da Companhia, que estava planeada uma operação com 3 grupos de combate da nossa companhia para uma data próxima e com a duração de 3 semanas, porque nessa altura já previam que eu tivesse regressado a Serpa Pinto.
O dia da operação chegou, mas eu continuava em Luanda. Soube depois por outro de vós que foi a Luanda, que tinham adiado a operação por um mês, porque nessa altura eu já lá estaria. Mas eu continuei a não estar e o nosso Tenente-coronel adiou-a por mais um mês. Já não me lembro se a operação foi feita. Suponho que sim e que foi o então Alferes Filipe que me substituiu. Eu, quando voltei a Serpa Pinto, já ia como Capitão Auxiliar e a aguardar nova colocação.



Os Capitães Read e Esteves e um grupo de militares da 1ª Companhia no dia da despedida do Martins Correia de Serpa Pinto



Tinha na altura a promessa de um General de Luanda que eu aí iria ficar colocado. Mais tarde foi-me dito que essa decisão teve de ser alterada, porque o nosso Tenente-coronel enviara para o Quartel General informações péssimas a meu respeito e, para não dar muito nas vistas, mandaram-me para uma C.C.S. que estava a acabar a comissão, com a promessa cumprida de que depois seria colocado em Luanda, como fiquei.


Mulher e filha do Ex-capitão Luís Martins Correia em Serpa Pinto (o Martins Correia só conheceu a sua filha, nesta altura)


Passei bons tempos em Luanda, mas também tenho muito boas recordações do Toto, para onde fui viver com a minha mulher e a minha 1ª filha. Quis o acaso que, no dia em que eu saí de Serpa Pinto, apareceu-me lá de surpresa a minha mulher, para me mostrar a minha 1ª filha que eu ainda não conhecia. Porém, também ela não sabia que eu me vinha embora nesse dia e por isso fomos os 3 rumo ao Toto.



A despedida de Martins Correia de Serpa Pinto (um Grupo da 1ª Companhia)



Éramos os únicos a viver numa casa fora do quartel e recordo com graça as vezes que à noite, quando regressava a casa, altas horas da noite, depois de uma patuscada no quartel, deparava com uma G3 apontada a mim, quando eu abria a porta. Recordo ainda um MVL ao Vale do Loge, onde eu me integrei e levei a minha mulher comigo, deixando a filha no Toto. Ainda estou a ver a cara de pânico da minha mulher, quando, a meio caminho numa zona de floresta densa, se ouviu um tiro.
Recordo ainda as aulas de tiro com pistola que, sem sucesso, eu dava à minha mulher. A 5m de distância, não conseguia acertar num vulto humano. Era um caso perdido.

Recordo também as vezes que eu saía muito cedo de casa vestido de camuflado e regressava muito tarde, dizendo à minha mulher que ia para a caça, quando na verdade eu pedia ao Comandante de Batalhão, para me deixar ir integrado na companhia operacional que lá estava, para ir fazer acções de patrulhamento em zonas onde havia muitos carreiros de passagem de guerrilheiros.

E são estas recordações que me fazem sentir pena que não as tenha vivido com todos vós e que não tenha vivido também convosco as vossas recordações reproduzidas em tantas fotografias e histórias que enviais para o nosso blog. E tudo isto por causa do espírito arrogante e prepotente do nosso Tenente-coronel Mendonça. Nunca lhe perdoei.


Há alguns meses atrás encontrei-me num almoço dos antigos alunos de Castelo Branco com o Coronel Amaro (na altura Capitão Amaro do nosso Batalhão). Só passados estes anos é que o voltei a encontrar e nem sabia que ele também tinha sido, como eu, aluno em Castelo Branco. No meio da conversa é que nos reconhecemos como tendo pertencido ambos ao Batalhão 4611 e veio à baila a conversa da minha entorse no pé. Segundo ele, era do conhecimento geral que eu tinha torcido um pé de propósito, para não ir à operação!!!... Passado todo este tempo, não imaginam a indignação que senti naquele momento. É revoltante como o nosso Tenente-coronel Mendonça fez passar junto dos outros esta calúnia, para me difamar. Se ele fosse vivo, naquele dia teria ido falar com ele.

Mas o certo é que, por causa do comportamento do Tenente-coronel Mendonça, vi-me obrigado a separar-me de vós, porque deixei de o poder suportar e porque de modo algum vocês poderiam a estar a ser castigados por minha causa.

Tenho consciência de que sempre vos tentei ajudar. Se o não consegui, aqui fica o meu pedido de desculpas. Sei que o nosso 1º Sargento Campos às vezes não ficava nada satisfeito comigo, porque eu não dava os castigos que ele queria e autorizava certas coisas que eu próprio sabia que não podia autorizar. Lembro-me, por exemplo de um pedido do soldado Miúdo. Veio ter comigo, dizendo que tinha sido anteriormente castigado e portanto naquele ano não podia ir de férias e já não via a família há 1 ano. Chamei o 1º Sargento Campos e disse-lhe que tirasse o Miúdo da escala de serviço e lhe passasse um papel de licença. Lembro-me da cara de chateado do 1º Sargento, mas era largamente compensador ver a cara de felicidade do Miúdo. O 1º Sargento Campos que me desculpe.

Espero que, com este meu desabafo, tenha ficado bem claro nas vossas mentes que nunca vos abandonei, que sempre tivestes em mim um amigo, que teima em ser sempre vosso amigo e com quem podereis contar sempre. A história de torcer um pé de propósito, para não ir numa operação, não passa de um calúnia aberrante, sem pés nem cabeça. Felizmente o Duarte poderá comprovar tudo isto e o aerograma que naquele dia escrevi à minha mulher também.




Um grande abraço para todos do amigo


Martins Correia

(*)  Heráclito de Éfeso- foi um filósofo pré-socrático que recebeu o cognome de "pai da dialética". e a alcunha de "Obscuro", pois desprezava a plebe, recusou-se a participar da política (que era essencial aos gregos), e tinha também desprezo pelos poetas, filósofos e pela religião. Sua alcunha derivou-se principalmente devido ao livro (Sobre a Natureza) que escreveu com um estilo obscuro, próximo a sentenças oraculares..

sexta-feira, 25 de Setembro de 2009

Recordações de Angola - 20

(Por António Godinho e Luis Marques)

Do António Godinho recebemos um conjunto de fotos que pela sua importância passamos a publicar.

Entre elas ganha destaque uma das poucas fotos (quiçá mesmo a única) do José Carlos Ramalho da Silva, 1º cabo mecânico da CCS, natural da Vidigueira, a primeira vítima mortal do Batalhão de Caçadores 4611/1972. A foto foi tirada em Dezembro de 1972 quando o Silva se banhava nas águas do rio Cuito, junto à tal jangada já por diversas vezes referida aqui no fórum 4611, local onde nós íamos abastecer de água o aquartelamento.



O José Carlos Ramalho da Silva

O Silva faleceu passado pouco tempo depois, no dia 13 de Janeiro de 1973, afogado nas águas do Rio Cubango, na povoação do Calai e já não teve oportunidade de ver esta foto.
Na altura do triste acontecimento, estava eu a comandar o destacamento militar do Calai. Tenho uma ideia muito precisa trágico acontecimento, bem como de tudo o que se seguiu à tragédia. O corpo do Silva foi de imediato arrastado pela forte corrente do rio Cubango na sua vertiginosa corrida em direcção ao delta do Okavango (Botswana) e só foi localizado pelos nativos alguns dias depois, a vários quilómetros a leste do Calai.
Quase 37 anos decorridos sobre a sua morte, curvamo-nos muito sentidamente sobre a memória do 1º Cabo José Carlos Ramalho Silva. Que descanse na paz eterna.
Quero ainda destacar uma foto recente do edifício da nossa unidade mobilizadora, o Regimento de Infantaria 16, em Évora, local que servirá de “ponto de encontro” no nosso próximo convívio em Novembro de 2009, convívio esse que, como sabem, será organizado pelo António Godinho.



O antigo Qurtel do Regimento de Infantaria 16, em Évora, actualmente o Comando de Instrução e Doutrina

Estas fotos que o António Godinho nos enviou, deverão servir de incentivo para todos os restante ex-camaradas do Batalhão para que “rebusquem” nos seus álbuns “daquele tempo” as fotografias que certamente guardam e no-las enviem, pois que cada fotografia conservada dará lugar a uma história e ajudará todos nós e relembrar o tempo vivido em Angola, reavivando a nossa memória e ajudando a construir uma “história viva” sobre a nossa passagem por aquela terra, já que desempenhámos um dos papéis principais desse momento da nossa história. Sobretudo para que não continuemos a ser esquecidos, o nosso testemunho é importante. O António Godinho já nos prometeu remeter mais fotos para publicação no blogue.






Ameixa, Godinho, Dário e o Cabecinha no dia da partida de Santa Margarida com destino a Angola


A chegada a M'pupa


Coluna com destino à 2ª Companhia na Coutada do Mucusso



Godinho, Chameia (o miúdo que lavava a roupa de alguns militares em M'pupa) e o Caixinha


O Godinho limpando o Aquartelamento de M'pupa


Oliveira e Godinho


O Godinho e o Brito, no dia da unidade em M'pupa



Madeira, Godinho, Mariano, Calado e Santos, na Praia de Cabinda em 1974

sexta-feira, 18 de Setembro de 2009

XI convívio anual dos ex-militares da C.C.S. do Batalhão de Caçadores 4611/72

(Por António Godinho, Dário Ramos e Luis Marques)




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No próximo dia 14 de Novembro de 2009, realiza-se o XI encontro - convívio dos ex-militares da C.C.S. do Batalhão de Caçadores 4611/72.
O encontro decorrerá na cidade de Évora e seus arredores e terá como momento alto o descerrar de uma placa comemorativa do encontro no antigo Regimento de Infantaria 16 (hoje denominado Comando de Instrução e Doutrina) , unidade de mobilização de todos os militares do Batalhão e ainda uma homenagem aos antigos militares da C.C.S. e do restante Batalhão já falecidos.




O Regimento de Infataria 16, em Évora (foto actual)
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Este ano o encontro da C.C.S. conta com a organização do António Godinho e do Dário Ramos, dois alentejanos de primeira escolha, o que constitui uma garantia de que iremos saborear deliciosa comida alentejana, sempre tão apreciada.
O almoço e o convívio que se segue terá lugar na "Quinta Nona do Degebe", situado num lugar de encanto na Estrada do Redondo, à saida de Évora.


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Exortam-se todos os nossos antigos camaradas da C.C.S. e sua famílias a participarem neste encontro, bem como todos os restante antigos militares do Batalhão e todos aqueles que de qualquer maneira estão relacionados connosco ou com o Batalhão.
Não faltes! Vem conviver com os teus amigos e camaradas e traz a tua família e amigos.





      Convocatória                                                         Localização                                                              Ementa
(Clica para aumentar)


Enquanto se aguarda ansiosamente pelo encontro de Novembro, eis aqui algumas imagens do convívio de 2008:




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quinta-feira, 17 de Setembro de 2009

3ª Companhia (Convívio de Novembro)

(Por Fernando Moreira, Manuel Brazão e Luis Marques)

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No próximo dia 28 de Novembro, realiza-se mais um convívio anual da 3ª Companhia do Batalhão de Caçadores 4611/1972.
O Manuel Brazão assumiu o encargo de organizar este convívio anual, que ocorrerá na povoação de Pego, próximo da cidade de Abrantes.

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Espera-se que este encontro anual conte com a participação de muitos antigos militares da 3ª Companhia e seus familiares, bem como de todos aqueles que de qualquer modo estão ligados à 3ª Companhia e ao Batalhão de Caçadores 4611/1972.


O Hotel Abrantur, em Pêgo, Abrantes




Aspecto da sala de jantar

A ementa foi cuidadosamente escolhida pelo Manuel Brazão e promete agradar a todos, uma vez que é composta por pratos deliciosos e acepipes vários. Enfim, um mimo que o Brazão nos preparou.
Mas sobretudo, o que mais importa é o saudável convívio entre nós e pôr a conversa “em dia”, com as recordações “daquele tempo” e com as novidades de hoje.


Mas enquanto não chega o desejado encontro, aqui ficam algumas fotos do convívio do ano passado.









(clica nas imagens para aumentar)

segunda-feira, 31 de Agosto de 2009

LUIANA - 3 MESES DE ISOLAMENTO

(Por Jorge Correia)



"É proibido chorar sem aprender,
Levantar-se um dia sem saber o que fazer
Ter medo de suas lembranças.

É proibido não rir dos problemas
Não lutar pelo que se quer,
Abandonar tudo por medo,
Não transformar sonhos em realidade."
  (fragmento de "É proibido" de Pablo Neruda)



O destacamento do Luiana (foto cedida por Manuel Almeida)
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Serpa Pinto, Julho de 1973:

Estava numa bela tarde de “dolce far niente” no quartel de Serpa Pinto, quando vejo o Figueira (sempre ele) aproximar-se de mim junto com outra pessoa,. Tratava-se do Alferes Miliciano Botelho Moniz pertencente ao quartel de Sá da Bandeira que ia a caminho do Luiana, comandar o destacamento. Apresenta-nos e diz-me que o vou acompanhar a ele (Botelho Moniz) com o meu grupo de combate para reforçar o destacamento do Luiana que tinha uma guarnição reduzida.

Outra imagem do Destacamento da Luiana (foto cedida por Manuel Almeida)
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OK! Já estava habituado a ser eu a alinhar, por ser o mais novo. Logo na apresentação gostei de Botelho Moniz e senti que ele também tinha gostado de mim, havia uma empatia. Colhemos informações um do outro e à noite voltámos a encontrarmo-nos. Percebi que estava algo apreensivo, fomos a um café jogar snooker e ele perguntou-me se eu jogava xadrez e ténis! Respondi afirmativamente e logo me lembrei do sacana do Vidigal que todas as tardes de sábado me ia acordar para ir jogar ténis com ele. Graças a Vidigal aprendi a jogar ténis, mais ou menos forçado e ainda por cima o manguelas do Vidigal assim que aparecia o Major para jogar, punha-me fora e jogava só com o Major.

Óptimo, respondeu Botelho Moniz à minha afirmativa, pois levava na sua bagagem um tabuleiro de xadrez e um par de raquetes de ténis e respectivas bolas. BM era filho do Coronel Botelho Moniz, comandante do quartel de Sá da Bandeira, era uma pessoa afável, elegante e muito educado. No dia seguinte lá embarcámos num avião Nordatlas para Luiana, eu, ele o cabo Silva e os soldados Esteves, Tavares, Marfunha e Chilombo.

Aspecto do Destacamento do Luiana (foto cedida por Manuel Almeida)
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Chegados ao Luiana, fomos recebidos por outro Alferes, Trigueiro de seu nome, três furriéis operacionais, um furriel enfermeiro e um 1º sargento. Tudo gente boa, menos o outro alferes que era um indivíduo truculento, natural de Sá da Bandeira todo armado em alto operacional (estes normalmente são os piores), felizmente Botelho Moniz ia comandar o destacamento. Lembro-me de me ter confessado que estava um pouco desolado, o destacamento era circular, de pequenas dimensões, com um Kimbo também pequeno ao lado e entre os dois uma casa de bom aspecto, porém fechada e desabitada,..esclarecem-nos que tinha pertencido ao chefe de posto, que tinha ido em tratamento psiquiátrico para a cidade do Luso e nunca mais tinha voltado. Tudo perspectivas animadoras, pensei eu.

O destacamento no entanto tinha um ar limpo, havia um campo cimentado de futebol de salão, onde com Botelho Moniz também jogávamos ténis, a messe era conjunta de oficiais e sargentos e a casa dos sargentos era espaçosa e bem arejada, um luxo para as circunstâncias! Á noite, normalmente jogava xadrez com BM depois do jantar, reunia-me com o pessoal do meu grupo nos seus alojamentos e aos sábados íamos ver a festa do Kimbo com danças indígenas muito interessantes pela sua vertente cultural. Certa vez uma miúda do Kimbo ofereceu-se para ser minha mulher durante a minha permanência no destacamento, para isso bastava dar-lhe três panos coloridos, para fazer vestidos. Declinei amavelmente a proposta.

Jorge Correia e Botelho Moniz junto a um dos dois hipopótamos abatidos no Luiana. Estes dois hipopótamos alimentaram o Kimbo do Luiana durante dois meses.
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A vida no destacamento decorria pachorrentamente, fazia questão de a encarar como um centro de estágio, de manhã ia com o meu grupo buscar lenha, seguindo de imediato para a praia fluvial, onde os rastos indicavam que os crocodilos já tinham apanhado sol encaminhando-se para a água, por precaução atirávamos duas granadas para dentro de água antes de tomarmos banho, depois de almoço dormia a sesta e por volta das 4 h havia futebol. Não fazia operações porque não tinha levado a segunda dose da vacina da mosca do sono. Era uma chatice ficar sempre no destacamento, finalmente chegou a vacina e depois de injectada ainda fui a tempo de fazer uma operação a caminho da fronteira com a Namíbia. Uma berliet e dois unimogs, foi fantástico porque no percurso deparámos com imensos animais selvagens de grande porte, Elefantes, Hipopótamos (estes víamos quase todos os dias perto do destacamento) Búfalos, Pacaças, Leões, Zebras e Girafas já muito perto da Namíbia. Eu e o Furriel Filipe íamos de Unimog sentados em cima de dois sacos de areia e o Alferes Trigueiro ia na Berliet sentado em cima de quatro sacos de areia,...é só um pormenor.

A determinada altura um acontecimento chato; numa formatura de manhã ao pequeno-almoço o Alferes Botelho Moniz resolve fazer uma revista ao pessoal que estava de serviço. A propósito de uma alegada má uniformização BM dá uma violenta bofetada em Chilombo que o deita ao chão. Assisti ao acontecimento de longe, pois não estava de serviço e portanto não estava na formatura, mas senti-me humilhado e até ofendido por um soldado do meu grupo de combate ter sido agredido, numa situação em que tal não era de todo justificado. Os ânimos andavam por demais exaltados, Trigueiro era um provocador e já tinha havido pequenas escaramuças com quase todos os furriéis. No entanto a agressão partiu de quem menos se esperava, de Botelho Moniz. Nós sabíamos que Botelho Moniz era constantemente pressionado por Trigueiro para endurecer a disciplina no destacamento o que nas circunstâncias em que estávamos não era de todo aconselhável, só serviria para criar atritos como veio a acontecer. À noite, depois do jantar, tentei falar com o Alferes Botelho Moniz, depois de quase todos terem saído, ele estava a ler uma revista antiga e a beber um whisky e eu aproximei-me perguntando o que na verdade se tinha passado. Botelho Moniz com bons modos disse-me que não queria falar sobre o assunto, pois sentia a cabeça num turbilhão. Respeitei a decisão dele, mas inconformado decidi levar o caso adiante e escrevi ao Capitão, comandante da companhia a contar o que se tinha passado com um dos nossos homens, numa situação que por si só, haveria de levar a uma tentativa de sublevação no destacamento. Todos os furriéis e o próprio Sargento pegamos nas G3 e ocupámos o posto de cripto. Houve um momento de grande tensão. Depois de algumas horas e a conselho do Sargento acabámos por regressar aos aposentos,...não houve qualquer reacção. O Capitão não me respondeu, mas depreendi que tinha feito uma qualquer diligência, pois uns dias mais tarde apareceram no destacamento O Coronel Mendonça, o Capitão Amaro e o Tenente Capelão Geraldes, nenhum deles falou comigo, mas à hora do almoço houve um momento caricato, após uma troca de palavras que não consegui ouvir o Tenente Capelão Geraldes passou uma valente "piçada" ao Alferes Trigueiro,....pareceu-me óbvio o motivo da visita e a sua oportunidade.
Jorge Correia, Brazão, Carvalho e Nogueira no Quartel de Serpa Pinto

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Depois deste episódio, a tensão continuou, mas as coisas ficaram um pouco mais definidas e o Alferes Trigueiro andou durante uns tempos de cabeça baixa, mal falava na messe a Botelho Moniz. Duas semanas antes de me vir embora, Botelho Moniz consegue ir no Nordatlas que nos abastecia de 15 em 15 dias, para o Luso, com o propósito de ir a uma consulta médica,... (antes de embarcar desabafa comigo que já não aguenta viver no mesmo quarto que aquele tipo, (Trigueiro). O Nordatlas voltou 15 dias depois, um dia antes da minha partida, mas chegou sem Botelho Moniz. Trigueiro estava no comando, mas para espanto geral, a comandar sozinho, andava mais pianinho, sabia provavelmente que não seria saudável arriscar-se a invectivar o pessoal que manifestava uma forte saturação e explodiria à menor provocação. No entanto ainda esboçou uma gracinha, quando me disse que era da praxe quem saía, pagar duas grades de cerveja,...sem grande paciência, retorqui que tinha por costume só pagar cerveja a amigos. Na altura, não me disse nada,..mas vim a saber mais tarde que me ameaçou com uma porrada, já depois de me vir embora, enfim, próprio de cobardes! No dia seguinte finalmente chega a minha rendição, antes do almoço vejo vir na minha direcção o meu querido amigo e sorridente Furriel Gomes....o inefável Gomes, o homem da parapsicologia. Apanhámos o avião Dakota pilotado por Sul-Africanos e chegámos à noite a Serpa Pinto. Em Novembro vim de férias ao Puto.
Durante uma operação algures no Cuando Cubango, o Jorge Correia e o Figueira
(clica para aumentar)
 

Em Novembro de 74, a poucos dias do regresso definitivo, em Luanda, estava numa mesa do Pólo Norte com Figueira, Lopes e Facas e avisto numa outra mesa uma pessoa que me acena com o braço,..era Botelho Moniz, levanto-me e dirijo-me à sua mesa, apresenta-me a sua noiva e um casal amigo, digo-lhe que faltam poucos dias para regressar a casa, finalmente! Não tocamos no assunto Luiana, desejamo-nos mutuamente felicidades. Não soube nada mais dele.

  

Destacamento do Luiana (foto do Manuel Almeida)
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terça-feira, 25 de Agosto de 2009

Operações - O Mau e o Bom

(Por António Moita, Fernando Moreira e Luís Marques)

"A morte e a guerra
não mais me pegam ao acaso.
Inscrevo sua dupla efígie na pedra
como se o dado de minha sorte
já não rolasse ao azar,
como se passasse do branco
ao preto e ao branco retornasse
sem nunca me sombrear.
Que venha a guerra! Cruel. Total.
O atómico clarim e a génese do fim.
Cauto, como convém aos sábios,
primeiro bradarei contra esse fato.
Mas, voraz como convém à espécie,
ao ver que invadem meus quintais,
das folhas da bananeira inventarei
a ideológica bandeira e explodirei
o corpo do inimigo antes que ataque.
E se ele não atirar primeiro, aproveito
seu descuido de homem fraco, invado sua casa
realizando minha fome milenar de canibal
rugindo sob a máscara de homem."

fragmento de "Os homens amam a guerra", de Affonso Romano de Sant'Anna

Do álbum de recordações do António Moita, publicamos mais um conjunto de fotografias que documentam a presença da 3ª Companhia nas "terras do fim do mundo", nome dado pelas gentes de Angola às terras do Cuando Cubango.
Estas fotografias retratam eloquentemente o dia-a-dia de uma Companhia operacional e mostram que paralelamente ao "bom" de viver numa cidade como Serpa Pinto, havia também o "mau", das cansativas operações no mato (melhor dizendo, savana) e das intermináveis colunas militares de reabastecimento.

Na savana do Cuando Cubango



O Lopes e o Joaquim Silva

O Alferes Figueira e o 1º Cabo Lopes



Imagem da progressão no terreno



Outra imagem da progressão no terreno


Um ângulo curioso (talvez à espera de um prémio Pullitzer)


O 1º Cabo Pinheiro


O elefante branco era o símbolo do pelotão de transporte do sector SE (Serpa Pinto). Esta foto documenta a largada de 2 Grupos de Combate, o 1º e o 4º, para uma operação da 3ª Companhia (na foto estão o Correia, o Figueira, o Brandão e o Girão. Do lado de cá da objectiva, está o António Moita)



Colunas Militares de Reabastecimento (M.V.L.)

Um momento de descanso durante um MVL. Em primeiro plano, o Vidigal, o António Moita e o Lopes. Em segundo plano pessoal do 3º Grupo de Combate.
Esta Coluna de reabastecimento teve a particularidade da presença do Vidigal, cuja especialidade era "cheirador de chouriços" (inspecção de alimentos). A sua presença deveu-se ao facto do Tenente Coronel, 2º comandante do Sector, num acesso de ciúmes, o ter castigado para que ele estivesse alguns dias afastado de Serpa Pinto.


O mesmo momento. Desta vez o Vidigal em vez de andar a "cheirar chouriços", tirou a fotografia
Operações na savana




Momentos de descanso durante uma operação nas imensas "chanas" das "terras do fim do mundo"




Os rios e as lagoas eram por nós utilizados para a higiene de ocasião. Por vezes com vários dias de intervalo...


“Durante séculos pensei
que a guerra fosse o desvio
e a paz a rota.
Enganei-me.
São paralelas margens de um mesmo rio,
a mão e a luva,o pé e a bota.
Mais que gémeas
são xifópagas,
par e ímpar, sorte e azar
são o ouroboro - cobra circular
eternamente a nos devorar.”
respigado do poema "Os homens amam a guerra", de Affonso Romano de Sant'Anna

quarta-feira, 19 de Agosto de 2009

REENCONTROS - Mais um capítulo

(Por Fernando Moreira)

Tanto tempo à deriva, na fronteira do esquecimento sem a poder nunca atravessar, eis que os caminhos se cruzam.
Ficamos frente a frente e, olhos nos olhos apercebemo-nos que temos bocados de nós que não são nossos.
Permanecem em nós mas foram feitos pelos outros. Pelos que ficam e pelos que vão, pelos que estão sempre presentes e pelos que retornam.
Caminham ao nosso lado e fazem parte da nossa sombra, imutáveis e indissociáveis, como convém… “
(Autor desconhecido – Texto da .net)



Ramalho, Cabral, Girão e o Facas em Vendas Novas (Falta o Fernando que estava do lado de cá da objectiva)


Bom dia,
Tenho aproveitado as férias, tempo em que consigo estar comigo, pois aí o Bruno dá-me alguma folga, para, a par do descanso, conseguir estar com os amigos.
Já estive com o Moita, no seu Kimbo em S. Brás de Alportel, onde gentilmente me mostrou os recantos pitorescos da terra, e onde acabámos por não estar sós, pois telefonou-se a alguns, falou-se de outros e de muitas outras histórias que o tempo não apagou. Assim que abrimos a gaveta das recordações, com páginas mais amarelas ou menos, elas saltam fácilmente cá para fora.

A Igreja de São Braz de Alportel, Kimbo do António Moita

De regresso a Lisboa e e-mails trocados, horas marcadas e muita ansiedade na bagagem lá partimos ontem para o Kimbo do Facas para mais uma sessão de “introspecção colectiva” se é que tal existe... creio que sim!
Cheguei e fui directo ao “Ti Américo” onde me sentei na esplanada a beber um fino traçado e a trincar umas “castanhas-caju”, fim de tarde ameno e calmo como convém àquelas paragens, no caminho o Ramalho, o Girão e o Cabral, e a despachar-se de uns exames o Facas.


A Igreja de Vendas Novas (um dos Kimbos do António Facas)

Mas o Grupo não se ficou por ali; encontrámo-nos no estacionamento do quartel e após dois dedos de conversa seguimos para sermos apresentados ao canito de nome “Samba” e rumámos para o Restaurante das Piscinas de Vendas Novas.

Muita conversa enquanto não chega a hora do repasto


Vocês dirão que é incrível não terem sido tiradas fotos, mas o facto é que a conversa foi de tal modo agradável que as máquinas não sairam das bolsas.
O resto já poderão adivinhar, após muita conversa, boa comida e são convívio chega aquilo que ninguém quer... regressar.
Mas fica a vontade de uma próxima!
Até lá!!!

terça-feira, 18 de Agosto de 2009

Baú de memórias (O meu café!)

(Por Fernando Moreira)

Café em Cabinda

Ramalho, Cabral, Moita e Girão
(foto do António Moita)

Estava aqui a dar uma volta pela .net e dei, como sempre, uma pulada ao "Fórum 4611" e ao olhar para o marcador verifiquei que, mesmo em férias, continua a disparar.

Há dias, estando em conversa com o Moita e na qual entrou também o Vidigal via telefone, ficou-me uma expressão do mesmo em que ele me dizia que nunca teve tanta informação dos tempos de Angola como nos últimos meses.

Sentado no meu sofá pensava em como todos nós decerto já sentimos a falta de passar pelo site do Fórum como se ele fosse o café, o nosso café, onde por hábito tomamos o dito com os amigos ou que por lá passamos com a esperança de encontrar alguém conhecido, neste caso na esperança de encontrar uma noticia fresca.
E é disto que o Fórum vive, noticias frescas...
Portanto meus amigos vamos lá a tomar umas pastilhas de fósforo e a rebuscar no baú das vossas memórias umas historietas do tempo de passagem por terras Angolanas e se puder ser colorida com umas fotos tanto melhor.
Aproveitem as férias para esse exercício.
Alguém disse que recordar é viver, eu digo que também pode magoar, pois sabemos que nem tudo foram rosas mas tudo fez parte... mesmo que seja uma história mais sentida.

PS: Se por acaso tropeçarem com algum site ou Fórum de ex militares que tenham feito campanha em Angola e/ou Cabinda experimentem deixar uma mensagem a noticiar o Fórum 4611 e a perguntarem pelos elementos da 1ª e 2ª. Companhia. Continua a ser estranho não aparecer ninguém.
"Quando voltei encontrei os meus passos
Ainda frescos sobre a húmida areia."

Camilo Pessanha, in 'Clepsidra'

Pegadas (foto de Fernando Moreira)

sexta-feira, 24 de Julho de 2009

Estória de Angola ou será história ?

(Por Jorge Correia)


"Mais facilmente se julgaria um homem segundo os seus sonhos
do que segundo os seus pensamentos"


Victor Hugo

O Facas, o Carvalho e o Jorge Correia, em Cabinda, em 1974


Angola, Agosto de 1974.
Eu, o alferes Figueira e o furriel Gomes, fomos dos primeiros a deixar Cabinda a caminho de Luanda, numa fragata da marinha de guerra.
Deixámos o pessoal devidamente instalado no Grafanil e avançámos para Luanda, onde ficámos instalados no Hotel Lisboa, na baixa luandense.
Alugámos um Autobianchi A111 para nos deslocarmos para o Grafanil e para a praia da Barracuda, basicamente.
Cerca de uma ou duas semanas depois, chega o grosso do pessoal e instalam-se também por Luanda com visitas periódicas ao Grafanil.
A determinada altura, houve a necessidade de transportar os nossos soldados naturais de Angola que estavam agregados à 3ª Companhia, ao seu quartel de origem, o quartel de Sá da Bandeira. Vem falar comigo o Figueira e diz-me que o capitão perguntou se não havia voluntários para a missão. Respondo-lhe que não me importo de alinhar caso possa ir à civil e no "meu" carro. Feito... lá vamos nós no Autobianchi a acompanhar as três Berliet´s com o nosso pessoal pertencente ao quartel de Sá da Bandeira, entregá-los no seu local de origem e despedirmo-nos deles. Vão comigo o Figueira e o Gomes.

Arrancámos de Luanda, e dormimos a primeira noite em Nova Lisboa, depois duma estafante viagem, com muito calor e muitos camiões na estrada para ultrapassar.
No dia seguinte saímos bem cedo a caminho de Sá da Bandeira, onde chegámos a meio da tarde e entrámos todos no quartel.
O Figueira dispensa-nos de formalidades a vai com a guia de marcha do pessoal ,fazer a entrega burocrática. Nunca mais os vimos.
Estávamos numa altura de alguma efervescência, com algumas notícias e boatos alarmantes. Lembro-me que veio um alferes do quartel ter connosco e perguntar-nos como estavam as coisas em Luanda, se havia distúrbios ou quaisquer outras movimentações. Dissemos-lhe que não, estava tudo calmo e íamos todos os dias para a praia e para o cinema e as boates à noite.
Bom.. como estávamos ali, aproveitámos para dar uma volta maior no regresso e assim conhecermos um pouco mais de Angola.
Voltámos por Lobito, onde ficámos hospedados num hotel de sonho, o Hotel Términus pertencente ao Caminho de Ferro de Benguela. Um hotel romântico decorado com bambu e com saída directa para a praia....
À noite íamos para o Porto do Lobito para os bares americanos que eram porta sim porta sim. Conhecemos também Benguela.
Quando finalmente nos pusemos a caminho e chegámos à saída do Lobito, deparámos com uma barragem na estrada feita por camionistas que não deixavam passar ninguém, pois estavam a protestar por serem apedrejados nas estradas e queriam que as autoridades os protegessem. Saímos do carro e dissemos que estávamos em missão, que precisávamos de ir para Luanda, que éramos dois furriéis e um alferes apontando para o Figueira.
Os camionistas olharam para nós com desdém e disseram-nos que nem um Major tinha passado, portanto nós também não iríamos passar.
Estávamos à civil e desarmados e lá demos meia volta para o nosso aconchego do Hotel Términus, onde fomos obrigados a ficar mais quatro dias.
Quando finalmente desbloquearam a estrada, arrancámos rumo a Novo Redondo, onde acabámos por permanecer vários dias, pois conhecemos umas deliciosas miúdas que andavam no liceu local e uma delas era recepcionista do Hotel onde ficámos hospedados, na Marginal de Novo Redondo.
Não conto mais pormenores para não cansar muito. Seguidamente fizemos o último trecho da viagem, saídos de Novo Redondo, passámos ainda por Porto Amboím e chegámos nessa noite a Luanda.... cansados mas satisfeitos !!!

O Facas e o Jorge Correia na Roça Lucola (pelo ar de ambos, estavam a aprontar "alguma")

Passados vinte anos, acordo com um pesadelo... tinha sonhado, que juntamente com o Figueira e o Gomes, estávamos formalmente equipados a preceito e a despedirmo-nos dos nossos soldados de Sá da Bandeira com um aperto de mão e um abraço e a desejar-lhes as maiores felicidades para a sua vida futura, pois tinham sido nossos companheiros durante dois anos nas matas.
E, certamente, eles mereciam que isso tivesse acontecido.
Voltei a sonhar com este acontecimento mais umas três ou quatro vezes e acreditem que eu desejaria muito poder voltar atrás e que isto fosse possível de acontecer.
Durante alguns tempos andei pensativo sobre o que teria acontecido com os nossos companheiros de percurso num país a que se seguiu uma guerra civil devastadora.
Bom... um certo dia fui almoçar com o Figueira num restaurante em Lisboa e contei-lhe o que me estava a acontecer.. contei-lhe dos sonhos. Ele desvalorizou o assunto, penso que para me proteger, que não valia a pena pensar no caso e que tinha corrido tudo bem, que não era grave. Nunca mais sonhei com o caso, mas que continuo a pensar que a coisa podia ter corrido de outra maneira, lá isso penso.

O Jorge Correia nos dias de hoje, em terras brasileiras

(O Jorge Correia, ex-furriel miliciano da 3ª Companhia, vive há 6 anos em São Luís, capital do Estado do Maranhão, no Nordeste brasileiro. Terra de muito sol e calor, como ele gosta. Clima tropical e que ainda proporciona, ao contrário de outras cidades brasileiras, uma vida calma e com baixos índices de violência. Luis Marques)

quarta-feira, 22 de Julho de 2009

José Francisco Oliveira Costa "o Montijo"

(Por Fernando Moreira, Filipe Silva e Artur Girão)
"A morte não nos diz respeito, nem mortos nem vivos:
Vivos, porque ainda o estamos, mortos, porque já não existimos"
Michel de Montaigne, in "Ensaios"

O Costa "Montijo", Girão e Brazão na despedida de Cabinda (foto do Vítor Fernandes)

No seguimento que tenho feito aos “desaparecidos em combate” fui aos Bombeiros do Montijo em busca do Ex-1º.Cabo. José Francisco Oliveira Costa que tinha a especialidade de apontador de morteiro mas que por vezes fazia uns biscates como electricista auto, individuo alto e de farto vozeirão.
Foi-me dada a notícia que o José Costa faleceu o ano passado de morte súbita.
É isto que me assusta quando tento reaver as minhas memórias, ou reajustá-las, é o não conseguir chegar a tempo.
Soube que ele tem um filho, possui o mesmo nome do pai, José Costa, e tem uma oficina na auto na Atalaia-Montijo.
Desloquei-me lá e apresentei-lhe as minhas condolências e transmiti-lhe alguma memória que ainda possuía àcerca do Costa, do seu alto porte e farto vozeirão. Dizem-me os bombeiros do Montijo, ex-companheiros, e o seu filho que ele era mesmo assim.
Deixei-lhe ficar o endereço do Blogue do 4611 para o caso de ele ter interesse em ver por onde o pai tinha andado enquanto militar, pois o percurso de cada um acaba por ser, nestes casos, o percurso colectivo.
Achei que deviam saber e para algum que tivesse sido próximo do Costa naqueles tempos aqui fica o contacto do Filho: José Costa – 969064982.


O José Costa, "o Montijo" de braço dado com o Matão

Fernando Moreira

Costa,
A tua partida para o outro lado da vida, camarada de armas, padecimentos e alegrias, não foi em vão.
Em qualquer sítio ou lugar em que te encontres, certamente receberás os nossos pensamentos de amizade e agradecimento por nos teres deixado privar contigo ...
Bem hajas Costa, a tua memória ficará para sempre gravada nos nossos corações.

Filipe Silva

O "Montijo" numa missão de patrulhamento no Miconje (foto do José Duarte)


O José Costa "Montijo", fazia parte do 4º grupo de combate da 3ª Companhia.
Era um atirador de morteiro excelente.
Uma vez, num exercício de tiro, em Serpa Pinto, o Filipe indicou-lhe uma árvore a uns bons 200~300 metros.
Ficou a floresta mais pobre ao primeiro morteiro.
Bom tipo... sorridente, amigo do amigo, solidário.
Fica na minha memória como um bom camarada.

Artur Girão

"A morte não pode ser pensada, pois é ausência de pensamento.~

Temos de viver como se fôssemos eternos"

André Maurois,in, "Em que Acredito"

quarta-feira, 8 de Julho de 2009

São Brás de Alportel, Abril de 2008

(Por Luís Marques e António Moita)
No dia 26 de Abril de 2008, os ex-militares da 3ª Companhia do Batalhão de Caçadores 4611/72 reuniram-se num alegre convívio em terras algarvias.
O encontro contou com a organização do António Moita e ocorreu em São Brás de Alportel (vila que é carinhosamente apelidada pelo António Moita de “centro do universo”).
Tendo em conta a distância entre o “centro do universo” e o local de residência da grande maioria dos antigos militares da 3ª Companhia, as previsões mais optimistas não apontavam para uma grande participação. Puro engano. Verificou-se uma adesão muito satisfatória, estando presentes cerca de 45 convivas, entre antigos militares e suas famílias, o que não deixa de ser digno de registo para um encontro previsto para durar três dias. Para além de ex-militares da 3ª Companhia, estiveram ainda presentes o Vidigal, o Vaz e o Leal, que de muito perto conviveram com eles, durante o ano em que aquela permaneceu em Serpa Pinto.
Este encontro foi como que a preparação do encontro anual da 3ª Companhia, que aconteceu em Novembro de 2008 e que foi organizado pelo Leal (da chefia do comando do sector de Serpa Pinto), e que teve lugar em Miranda do Corvo.
Para recordar o encontro realizado em São Brás de Alportel, aqui ficam algumas fotos. As primeiras foram tiradas no restaurante onde se realizou o almoço e as seguintes foram obtidas na antiga
residência de férias do Bispo do Algarve Esta casa, com a implantação da República, deixou de pertencer à igreja. Mais tarde foi escola primária (lá o António Moita aprendeu as primeiras letras) e nos dias de hoje é a Escola de Artes e Ofícios. o último conjunto de fotos, foram obtidas em casa do António Moita.
Todas estas fotos foram cedidas pelo Vítor Fernandes.



Imagens do almoço do dia 26 de Abril de 2008









Imagens obtidas na antiga residência de férias do Bispo do Algarve



Em casa do António Moita, em São Brás de Alportel



terça-feira, 30 de Junho de 2009

Figueira de Castelo Rodrigo, Junho de 2009

(Por Luís Marques)

video


No fim-de-semana passado (dias 26, 27 e 28 Junho) realizou-se mais um encontro (o nono), dos antigos furriéis milicianos da C.C.S. do Batalhão de Caçadores 4611/1972.
Mais uma vez este encontro foi organizado pelo Joaquim Raposo.

O Raposão, organizador do encontro

É já um lugar comum dizer que estes eventos contam sempre com a inexcedível capacidade organizativa do Quim Raposo, tudo fazendo para que o acontecimento decorra sempre de forma irrepreensível.
Foram três dias a saborear a boa comida da Beira Alta, a degustar os excelentes vinhos e a apreciar as belezas paisagísticas, arquitectónicas e culturais daquela região raiana e de Riba-Côa. Só quem já contemplou o Rio Douro e o seu afluente Águeda do alto do miradouro da Sapinha, olhando de frente para duas províncias portuguesas (Beira Alta e Trás-os-Montes), tendo do seu lado direito a província espanhola de Salamanca e se admirou com o voo planado dos grifos, dos abutres do Egipto, das águias e dos falcões, entende o que se pretende dizer com “belezas paisagísticas” da região.



Vista do Alto da Sapinha, Escalhão (das terras da Beira-Alta, temos em frente Trás-os-Montes e à direita a província de Salamanca, em Espanha)


Outra vista do Alto da Sapinha, Escalhão ( em frente o "Penedo Durão", perto de Freixo de Espada à Cinta, em Trás-os Montes)


Alto da Sapinha (em baixo o rio Águeda, no local de afluência com Rio Douro. Na margem direita do Águeda temos terras de Espanha)

E que dizer da contemplação de toda esta região soberba do alto da Serra da Marofa e do espectáculo deslumbrante apreciado do alto da fortaleza vetusta de Castelo Rodrigo (uma das aldeias histórica de Portugal)?

Miradouro da Serra da Marofa, Figueira de Castelo Rodrigo (em primeiro plano, Jaime Ferreira, Zé Vasconcelos, Manuel Oliveira, Fernando Pinho, Joaquim Raposo, João Novo. Em segundo plano, Luís Marques, Adriano Monteiro, Zé Manuel Francês e Zé Duarte)

No mesmo local, Fátima Pinho, Cassilda, Celeste Ferreira e Dulce Duarte

Castelo Rodrigo, visto da Alto da Marofa


A vista do Alto da Marofa, olhando em direcção à cidade da Guarda

A aura que se advinha na aldeia de Castelo Rodrigo, bastião defensivo das investidas das tropas invasoras vindas reino de Castela, muito bela com as suas pequenas casas seculares, quase todas elas recuperadas por mãos competentes, tuteladas pelas muralhas do seu castelo, que nos encantam e fazem sonhar com períodos já passados e que remontam ao princípio da nacionalidade.

Castelo Rodrigo, visto da Marofa

A entrada em Castelo Rodrigo



O Quim Raposo, Monteiro, Francês, Celeste e Dulce, em Castelo Rodrigo


Outro aspecto da nossa passagem por Castelo Rodrigo

Nas ruas estreitas de Castelo Rodrigo

As belas casas restauradas de Castelo Rodrigo


Fátima Pinho

As muralhas do Castelo



Também a aldeia de Escalhão, a aldeia no nasceu o Quim Raposo e que foi sede de concelho até início do século XIX merece uma visita atenta.
A este propósito, e da inscrição incisa no do Pelourinho da aldeia e que o Quim Raposo não nos soube esclarecer, atentem o que dizem os anais da história.


O Pelourinho da Aldeia de Escalhão

“A Igreja Matriz, cuja fronteira e torre do relógio se supõe serem restos da fortaleza medieval, é um templo do século XVI, sobressaindo na frontaria um portal de linhas clássicas com frontão triangular e colunas de caneluras nos dois terços superiores. Outro sinal característico deste monumento são as marcas de balas de canhão que se podem notar em algumas pedras resultantes da investida espanhola em terras portuguesas no ano de 1642.

A Igreja Matriz de Escalhão

O esplendor do altar da igreja matriz de Escalhão


Em 17 de Outubro desse ano entrou em Portugal um exército espanhol comandado pelo renegado português João Soares de Alarcão, com 4500 soldados e 400 cavaleiros. As povoações por onde passaram foram mergulhadas no sofrimento, destruição e ruína. O fumo, provocado pelos incêndios das casas e haveres, era como o sinal de luto corroborado pelos gritos dos que lamentavam a morte dos seus e a destruição do fruto de uma vida de trabalho.
Esta força militar prosseguiu o seu caminho destruidor pelo concelho indo quedar-se frente às paredes fortificadas da igreja de Escalhão. A população, auxiliada por um pequeno destacamento de 35 soldados, sob o comando de João da Silva Freio, preparou-se para enfrentar o inimigo. Julgando que a presa era fácil, o invasor acometeu contra o reduto defensivo. Porém os escalhonenses defenderam-se heroicamente dizimando com fogo cerrado os soldados espanhóis. No segundo assalto, protegendo-se com todo o tipo de materiais que encontravam, o inimigo atacou de novo. A igreja era o principal alvo das granadas de artilharia. As mulheres com mantas encharcadas num poço existente na igreja extinguiam os incêndios provocados pelas bombas. Com tecidos vários faziam ligaduras que usavam para socorrer os feridos. Dentro do templo os mortos e feridos atestavam a dureza do combate.
Conta a tradição que um homem de nome Janeirinho, matou o capitão dos castelhanos na entrada da porta falsa. O capitão de Zamora investiu contra a porta gritando: “ Viva o capitão de Zamora”. De dentro respondeu-lhe Janeirinho: “ Viva o Janeiro com a sua porra”, ao mesmo tempo que enfiava o badalo do sino sobre a cabeça do capitão. As tropas inimigas, já bastante enfraquecidas e surpreendidas pela resistência, entraram em pânico ao verem um dos seus chefes morto. Aproveitando este momento de hesitação os portugueses saíram do templo e investiram contra os espanhóis que começaram a recuar abandonando as suas posições. Num local denominado “A Veiga dos Mortos” o inimigo parou e, reorganizando-se, tentou tomar a ofensiva, mas de nada valeu o seu esforço. Os portugueses apontaram sobre eles as peças de artilharia que capturaram e quase os dizimaram.”

O Quim Raposo olhando para o Pelourinho da sua terra natal, certamente estranhando não nos saber contar o significado das inscrições dele constantes

Tivemos, portanto uma reedição da Batalha de Aljubarrota, 257 anos depois daquela que a história mais enaltece. Mas esta vitória sobre os espanhóis não fica diminuída se comparada com aqueloutra. E na falta do Condestável D. Nuno Álvares Pereira
, temos o herói Janeirinho.
Porque será que os espanhóis nunca aprendem?...

Para comer uns belos peixes do rio fritos, acompanhados por saborosas migas, num agradável restaurante sobranceiro ao Rio Douro, num início de tarde bem solarenga, acompanhado de um excelente vinho branco da região, de sabor muito frutado, merece bem percorrer as centenas de quilómetros que separam a vila de Figueira de Castelo Rodrigo da casa de cada um.


O tal restaurante sobranceiro ao Rio Douro, onde se comeu um peixinho do rio delicioso
Um aspecto do almoço de sábado, dia 27 de Junho
Destaco ainda a gentil oferta da Câmara Municipal de Figueira de Castelo Rodrigo aos participantes deste encontro em terras de Riba-Côa, com várias monografias sobre esta encantadora região, com destaque para dias excelente obras: “Aromas e Sabores de Figueira de Castelo Rodrigo” de autoria de Cláudia Sofia Dias, na qual a autora destaca o lugar que os recursos naturais directa ou indirectamente associados à vegetação ocupam no concelho de Figueira de Castelo Rodrigo. Merece a pena ser lido sem qualquer sombra de dúvida; a outra monografia que pretendo destacar é a obra da “Associação de Transumância e Natureza” sobre os “Pombais Tradicionais no Vale do Rio Côa". É sem duvida uma obra interessante e que merece uma leitura atenta. Na verdade, aqui e ali, estes pombais, verdadeiros “sentinelas da paisagem rural”, ousam mesmo assemelhar-se aos moinhos com que D. Quixote se teve de confrontar e são marcos inconfundíveis da paisagem da região e da maneira de ser do povo destas terras raianas.

Foi sem dúvida um belo fim-de-semana. Bem hajas Raposão.

Para alguns (João Novo, Manuel Oliveira, Zé Vasconcelos e Luís Marques), foi também a oportunidade de rever o nosso ex-primeiro sargento António Corga, ao fim de quase 35 anos e recordar os belos tempos passados e as saudosas jornadas de caça em M´pupa. O homem está famoso! Com 70 e muitos anos ainda preside à “Acatin – Associação Comunitária de Apoio à Terceira Idade de Mouriscas”.



O nosso Amigo António Corga

Manuel Oliveira, João Novo, Zé Vasconcelos, Antonio Corga e Luís Marques, em Mouriscas


Agora ficamos à espera do próximo convívio, que bem poderá ser por terras de Viriato, se o Adriano Monteiro quiser lançar mão à sua organização.

terça-feira, 23 de Junho de 2009

Roça Lucola

(Por Fernando Moreira)

video

No Turbilhão (Excerto)

"No meu sonho desfilam as visões,
Espectros dos meus próprios pensamentos,
Como um bando levado pelos ventos,
Arrebatado em vastos turbilhões...

N'uma espiral, de estranhas contorções,
E d'onde saem gritos e lamentos,
Vejo-os passar, em grupos nevoentos,
Distingo-lhes, a espaços, as feições..."
/…/
Antero de Quental, in "Sonetos"


Com mais este trabalho trazemos à memória um dos últimos locais onde a 3ª. Companhia esteve aquartelada, Cabinda, Roça Lucola, 1974.
Esta roça produzia em 1974; café, cacau, palmar e seus derivados, algodão, banana, estas já produzidas em sistema de curvas de nível e madeira para exportação. Neste ano aconteceu um “boom” na recolha de café pelo que literalmente se podia afirmar que havia café por todo o lado, como poderá ainda ser recordado pelos que lá estiveram.
As toneladas que ficaram já descascadas e embaladas foram embarcadas para Cuba.As fotos deste álbum são de são de Duarte, Moita, Girão, Fernandes, Silva e Moreira


Fase da secagem do café


Vista a partir da casa dos oficiais

Pormenor do terreiro de secagem

Outro pormenor do terreiro com o café a secar


Casa dos furrieís e enfermaria

Outro pormenor da secagem do café

Mamoeiros na Roça Lucola

Pormenor do refeitório da 3ª Companhia na Roça Lucola


Casa dos oficiais

Mais café e a casa da roça ao fundo

Foto da praxe

Aspecto do aquartelamento

A Parada

Pelotão posado para a foto

Casa da Roça Lucola. Ao fundo a casa dos oficiais

O macaco Hondini

Vista geral do aquartelamento

Varanda da casa dos furriéis. Facas e Moita

Hora do rancho

Cabral, Girão, Nogueira e Constantino. Em pé o Brazão

Toneladas de café, mais tarde embarcadas para Cuba

sábado, 20 de Junho de 2009

Recordações de Angola - 19

(Por António Facas)

Do António Facas recebemos recentemente mais um conjunto de fotos, Estas abarcam todas as etapas percorridas pela 3ª Companhia por terras de Angola (Cuando Cubango, Fazenda Tabi e Roça Lucola, em Cabinda),

Constantino Leite ex-furriel "Seringas" 3ª Companhia na Jangada em M´Pupa

O famoso BMW 600, Cabinda Roça Lucola, Outubro de 1974 (Facas e Moita)


Fazenda Tabi, praia do Mussulo LINDO o contraste do Atlântico com a vegetação, Março de 1974.


Fazenda Tabi, Janeiro de 1974, o pormenor da bengala, após o acidente com o tal jeep

Feira de Exposições de Serpa Pinto, 22 de Setembro de 1973. Facas, Silva ex-furriel Vago mestre e Leal ex-furriel do Comando do Sector.Uma noite inesquecível a comprovar o Amigo Moita o Zé Vidigal e os da foto.

à janela do meu quarto em Serpa Pinto, com o meu Amigo e ex-furriel Carvalho


Destacamento do Luengue, Fevereiro de 1973, "o pão que o diabo amassou"? Não, na realidade era espectacular e acabado de fazer. O tal chapéu comprado no Rundo, Sudoeste Africano e que foi adoptado por quase toda a companhia



Sentado na Janela do meu quarto messe em Serpa Pinto 10 de Maio de 1973, com a viola e encomenda chegada do Alentejo: tabaquinho "SG GIGANTE", uns queijos Alentejanos e o bom Paio, era para todos e acabava naquele instante, a minha namorada da altura, hoje minha Esposa que se encarregava e bem do envio deste pedaço de amor que passados 36 anos ainda perdura. O tom como se pode verificar é fá sustenido maior com nona aumentada ( para os leigos um acorde composto) toma !!!

segunda-feira, 15 de Junho de 2009

Recordações de Angola - 19 (Serpa Pinto)

(Por António Moita)

Durante a minha permanência em Serpa Pinto, a preferência era para descansar e gozar bem a vida que a cidade me proporcionava.
Na verdade, deverei referir que não gostava mesmo nada de fazer operações e sempre que me era possível, “baldava-me”.
Dava primazia às colunas de apoio e protecção a civis, aquilo que era designado por M V L (Movimento de Viaturas Logísticas). Fiz 8 ou 9 para Mavinga – Rivungo e apenas 1 para a Coutada do Mucusso.
Os 2 anos que tínhamos que permanecer em Angola deviam ser passados da melhor maneira possível.
O problema começa quando aprendemos a gostar do sitio onde estamos , “ANGOLA”. E estando nas “Terras do Fim do Mundo” ainda tínhamos tempo para passar fins-de-semana em Moçâmedes, Sá da Bandeira ou Silva Porto. Creio que o fizemos sempre no velho Mustang vermelho do “Velho” Bonifácio.
As recordações aparecem aos poucos. Preparava-me para contar a história daquilo que normalmente era a nossa vivência num MVL, quando de repente me chega à lembrança uma outra história, porventura interessante.
Durante um determinado MVL, uma viatura civil avariou, (o que era perfeitamente normal se considerarmos que percorríamos centenas de kms em areia) e apesar dos civis levarem sempre peças sobresselentes, estas gastavam-se e muitas vezes tinha que vir um "heli" com qualquer peça necessária para que a viatura pudesse chegar ao seu destino.
Perante esta situação, uma secção ficou a dar protecção à viatura civil avariada perto da lagoa da Capua. Lá ficámos cinco: eu, o Miúdo, o Marfunha , o Sacassueca e o 1º cabo condutor Dinis, sem rádio e com uma Berliet das curtas, enquanto a restante coluna de reabastecimento seguiu o seu destino.
Nisto, o Dinis teve um ataque de apendicite. Tive que tomar a decisão de pegar nele e na Berliet e levá-lo até ao Cuito Cuanavale (só tirei carta de condução na cidade do Caxito). Cheguei ao Cuito e entreguei o Dinis ao comandante da unidade, que, tanto quanto me recordo, era um Major.
Expliquei-lhe a situação. Mas o tal major não queria deixar-me sair de volta por ser "muito perigoso aquele percurso", dizia o desalmado.
Consegui explicar-lhe que tinha que ir, pois tinha lá 3 soldados e 1 civil sem qualquer meio de comunicação ou transporte. Após ter sido convencido deixou-me abastecer de combustível e rações de combate e lá fui de volta.
Ao chegar ao local a que chamávamos de “Chana Grande”, eu, "experiente condutor sem carta", ligo as redutoras e lá vou de peito feito para enfrentar o que restava do percurso.
Perto da picada que seguia para o Lupiri, havia umas curvas “marafadas” mesmo no limite da chana e a Berliet parou, pois a areia era muita e a viatura não tinha força suficiente para a vencer.
Eu levava sempre uma catana comigo e comecei a cortar bissapa para por debaixo das rodas para ganhar maior aderência (prática que era usual nas viaturas civis, sendo que esta era a principal razão porque os civis levavam sempre um ajudante. Frequentemente ouvia-se: “Mete pau filho da p…”).
Passado algum tempo, que me pareceu uma eternidade, exausto, sem forças, a viatura não saia do mesmo lugar. Aí, parei, descansei e pensei; nunca vi isto acontecer a uma Berliet, o que é que está aqui de errado?
Sabem o que foi? Quando pensei ter colocado as redutoras, desliguei-as e só com tracção a 2 rodas nem as Berliets andavam naquela areia. Passadas algumas horas, sem mais incidentes, lá estava de volta à minha secção.


Estas duas fotos mostram o António Moita nas margens da Lagoa Capua, nas "Terras do fim do mundo"

Encontro Nacional dos Cabindas

(Por Fernando Moreira)
“Tocar-te
seria pouco para a minha fome..."
Amélia Veiga in "Destinos"
Decorreu no dia 14 de Junho o encontro nacional dos Cabindas, na localidade de Gala-Figueira da Foz.
Foi tempo de recordações, risadas, felicidade pelos reencontros inesperados e de saudade e tristeza pelos ausentes.
Aqui fica o registo de um dia em que se exclamou "Cabinda Oyé!!!"

sexta-feira, 12 de Junho de 2009

Figueira de Castelo Rodrigo, Junho de 2009

(Por Luís Marques)

É já nos próximos dias 26, 27 e 28 deste mês de Junho que se realiza em Figueira de Castelo Rodrigo, bem próximo do Douro Internacional e do Douro Vinhateiro mais um encontro (o oitavo) dos ex- furriéis milicianos da C.C.S. do Batalhão de Caçadores 4611.
Uma vez mais o Quim Raposo decidiu assumir a seu cargo a realização de mais este convívio, que, a exemplo dos anteriores, se prevê animado.
Por hábito, costumam ser três dias de boa disposição, saboreando a bela gastronomia e os saborosos vinhos desta região "encravada" entre a Beira Alta e o planalto de Trás-os-Montes, plena de lugares históricos e com uma paisagem encantadora e com uma fauna deslumbrante. Este convívio certamente não irá defraudar as expectativas.
Neste convívio estará pela segunda vez presente o Fernando Pinho, mais a Fátima, sua mulher, que atravessaram o Atlântico, vindos das terras de Vera Cruz, a fim de estarem presentes.
Enquanto o convívio não chega, eis aqui algumas das fotografias do 6º encontro, realizado em 2007, também em Figueira de Castelo Rodrigo.


O almoço de Sábado na "Quinta da Sapinha"

Pausa para descanso e para apreciar a paisagem


As belas paisagens da região do Douro (do lado de cá a Beira Alta, do outro lado, Trás-os-Montes)



Está na hora de partir e das despedidas

Luanda cidade única

(Por Martins Correia e Luís Marques)

"Os panos pintados
Garridos
Caídos
Mostraram o coração:

- Luanda está aqui!"


(Luandino Vieira, in "Cultura II", 1957, nº1





Panorâmica de Luanda, tirada do cimo do edifício do SPM (Serviço Postal Militar) que ficava na zona dos quartéis de Luanda, para os lados do Grafanil.
As fotografias que se seguem, pertencem ao "ciclo Luanda" do álbum de recordações do ex-capitão Luís Martins Correia, o primeiro comandante da 3ª Companhia do Batalhão de Caçadores 4611/72.
São fotografias que confirmam a extraordinária beleza da cidade de Luanda. Quem diria que esta cidade, que nas fotos juntas se mostra tão exuberante na sua beleza, menos de dois anos passados se tornaria uma cidade mártir, na qual passou a ser impossível viver...
O poema que se segue e que as fotos ilustram é de autoria de Luandino Vieira e tem por título "Canção para Luanda".



Canção para Luanda


A pergunta no ar
No mar
Na boca de todos nós:
- Luanda onde está?


Silêncio nas ruas
Silêncio nas bocas
Silêncio nos olhos


- Xê, mana Rosa peixeira, responde
-Mano
Não pode responder
Tem de vender
correr a cidade
se quer comer!
«Ola almoço, ola amoçoeé
Matona calapau
Jiferrera jiferreresé»


- E você
Mana Maria quitandeira
Vendendo maboque
Os seios-maboque
Gritando
Saltando
Os pés pescorrendo
Caminhos vermelhos
De todos os dias?
«Maboque m’boquinha boa
Dóce docinha»

- Mano
Não pode responder
O tempo é pequeno
para vender!


Zefa mulata
O corpo vendido
Baton nos lábios
Os brincos de lata
Sorri
o seu corpo
- seu corpo-cubata!
Seu corpo vendido

Viajado
e noite e de dia.
- Luanda onde está?

Mana Zefa mulata
O corpo-cubata
Os brincos de lata
Vai-se deitar
Com quem lhe pagar
- precisa comer!

- Mano dos jornais
Luanda onde está?
As casas antigas
O barro vermelho
As nossas cantigas
Tractor derrubou?

Meninos nas ruas
Caçambulas

Quigosas
brincadeiras minhas e tuas
asfalto matou?

- Manos
Rosa peixeira
Quitandeira Maria
Você também
Zefa mulata
dos brincos de lata
~
- Luanda onde está?

Sorrindo
As quindas no chão
Laranjas e peixe
Maboque docinho
A esperança nos olhos
A certeza nas mãos
Mana Rosa peixeira
Quitandeira Maria
Zefa mulata-
Os panos pintados
Garridos
Caídos
Mostraram o coração:

- Luanda está aqui!

(Luandino Vieira, in "Cultura II", 1957, nº1



Montagem de quatro fotos, com a ilha de Luanda à esquerda


Vista parcial da Baía de Luanda



Martins Correia a passear na Baía de Luanda


Vista parcial de Luanda. Ao fundo a ilha de Luanda


Foto tirada n zona do Mussulo, Luanda

Outra foto tirada no Mussulo


Lançamento de uma rede de pesca, utilizando um barco construído num tronco de árvore escavado.

domingo, 7 de Junho de 2009

Nas "Terras do Fim do Mundo" - 2

(Por José Manuel Francês)
Paisagem típica do sertão do Cuando Cubango

Terras do Fim do Mundo!
Apenas porque estavam efectivamente longe de tudo e todos, pois a beleza local, a riqueza da flora e fauna, permitiram a todos os que por lá passámos, uma memória rica de experiências inigualáveis.

O aquartelamento de M´pupa
Socorrendo-me ainda dos aerogramas, que meu Pai guardou, e agora me permitem reviver de uma forma mais intensa, o que lhes ia contando, comentava a 6 Janeiro 1972 (como o tempo passa rápido!) que “ontem tinha chegado mais um novo Camarada, que é irmão do Sr. Ferreira, que mora na Rua das Matas em Coimbrões, sabem quem é ? “ perguntava… e dizia ainda que “o Cunhado dele é o Pereira , assistente de bordo dos Transportes Aéreos Militares, que veio no mesmo voo , quando vim para Angola !”
O Jaime Ferreira, é o seu nome, mora em Canidelo com os Pais.
Mais um Gaiense que chega a M’Pupa. Com todos os que já cá estão o melhor é fundar aqui a Casa de Vila Nova de Gaia! “
Com o decorrer dos dias, a relação com o Jaime tornou-se cada vez mais forte, por todas as razões sobejamente conhecidas.


Kimbo do Cuando Cubango
Hoje, ao rever as fotos, agora apresentadas, é difícil rever os mesmos Jovens de então.
A idade vai pesando em cada um de nós, mas também nos tem trazido a qualidade que associávamos apenas ao vinho do Porto, pois as nossas relações de Amizade tornaram-se mais fraternais.
O Rio Cubango na povoação do Calai. Em frente a povoação do Rundo, no Sudoeste africano (hoje Namíbia)

As ditas “Terras do Fim do Mundo”, foram para nós, sobretudo os elementos da C.C.S., o elo dinamizador da nossa união, talvez devido ao Isolamento em que vivemos, e que nos fez descobrir fórmulas diversas de entretenimento.
Felizmente, fomos capazes de, a uma só voz, entender que era na amizade e lealdade, que estava o caminho certo a percorrer.

Manada de elefantes nas chanas do Rio Cuito

sexta-feira, 5 de Junho de 2009

Serpa Pinto

(Por António Moita)

A rua principal de Serpa Pinto


Vista panorâmica de Serpa Pinto



Como se recordam a 3ª Companhia esteve estacionada durante os primeiros 13 meses na cidade de Serpa Pinto, hoje Menongue, cidade pequena mas simpática, com cinema, bares, restaurantes e uma pastelaria onde passei muitos fins de tarde.

A igreja de Serpa Pinto

As nossas tarefas consistiam basicamente na participação em operações em todo o Cuando-Cubango, na protecção de colunas civis que transportavam todo o género de víveres não só para os militares como também para as populações civis que se encontravam ao longo das duas principais vias, ou seja, Serpa Pinto / Rivundo ou Serpa Pinto / Mucusso e também, ainda que em menor escala, aquilo que se chamava de “acções psicológicas”, as quais consistiam em visitar os kimbos da zona, apoiando essencialmente as populações com serviços médicos e de enfermagem.
Numa chana (planície) algures no Cuando Cubango. Em segundo lugar o ex-alferes Figueira


A nossa actividade baseava-se nestes 3 pólos e aquilo que todos nós pensávamos era passar os dois anos da comissão da melhor forma possível. Eu sempre preferi estar o máximo de tempo em Serpa Pinto que considerava ser uma cidadezinha simpática. Para além disso havia “ O Clube de Sargentos “, onde residia no quarto do 1º andar, com vista para o rio, e que eu achava fabuloso.




O António Moita no terraço do Vidigal, no "Clube de Sargentos" de Serpa Pinto e o famoso chapéu "carcamanho" adquirido na povoação do Rundu, no Sudoeste Africano (hoje Namibia)


Foto tirada do depósito de água de Serpa Pinto
Numa tarde, depois de uma operação que teve a duração de 6 dias, encontrava-me a desfrutar da paz do meu maravilhoso quarto quando um jeep me veio buscar para me transportar ao quartel, isto por ordem do Sargento Campos. Quando lá cheguei apresentei-me ao Sr. Sargento que me põe na frente uma folha de papel azul, que não era mais que uma participação ao Comandante de Companhia, indicando que era o 4º dia que eu não me apresentava no quartel. Depois de ler, devolvi-a devidamente rasgada e regressei novamente à paz do meu quarto.


Não é o que estão a pensar. É apenas sono...
Alguns dias depois e após ter sido ouvido pelo Alferes Valente, o Alferes Filipe, ao tempo comandante interino da Companhia, “condecorou-me” com uma repreensão particular. Escusado será dizer que as minhas relações com o Sr. Sargento Campos deterioraram-se de vez, pois foi a segunda participação com que me agraciou. A primeira foi ainda em Santa Margarida, não me recordo por que razão, e graças a ela “foram-me dados” três dias de detenção durante um fim-de-semana. Claro que nesse fim-de-semana até fui ver o Benfica jogar a Setúbal com o Vitória. Desta quase deserção safou-me o Capelão do Batalhão o Padre Geraldes




No terraço do Vidigal, num momento de ócio, eu o Vidigal e o Afonso (que era Furriel Telegrafista do Comando de Sector)

Criança Guenguela (as moscas e as fezes demonstram a forma inumana como viviam algumas crianças)

domingo, 31 de Maio de 2009

Nas "Terras do Fim do Mundo"

(Por Jaime Ferreira)

Estava eu a dar instrução militar em Aveiro, no Batalhão de Caçadores 10, quando num fim de semana, em finais de Novembro de 1972, em casa , ouvi falar pela 1º vez nas "terras do fim do mundo" em Angola.
Muito simples: o meu saudoso pai tinha um colaborador na empresa onde trabalhava, cujo nome, se não me falha a memória , era Manuel, e em conversa lhe teria dito, talvez em jeito de lamento, que o neto da senhoria tinha ido para Angola para as "terras do fim do mundo."
Contou em casa o que tinha ouvido, eu memorizei e não me recordo se comentei.
A minha mobilização não se fez esperar e em 18 de Dezembro de 1972 arranco em rendição individual, rumo a Angola a caminho da CCS do Batalhão de Caçadores 4611/1972.
Desembarquei no aeroporto Luanda no início da manhã de 19 de Dezembro, faço as formalidades no terminal militar e venho para o exterior à espera de um táxi que me levasse até à CMR113 (Companhia Metropolitana de Recompletamento 113, localizada no Regimento de Infantaria de Luanda), onde tinha de me apresentar.


O Jaime Ferreira à porta da camarata dos Furriéis em M´pupa. Por trás dele um exemplar da "Declaração Universal dos Direitos do Homem", que pertencia ao Luís Marques e que era de leitura obrigatória (pelo menos um dos seus artigos) antes da entrada de qualquer um dos furriéis na camarata


Talvez a imagem que me dominava fosse de timidez e meio perdido. Fui interceptado por um Tenente do exército, que por sinal viajou no mesmo avião e me convidou para ir para junto dele . Depois das perguntas habituais: De onde és , qual a tua especialidade, para onde vais, etc., aparece a carrinha de transporte de passageiros militar e com as recomendações dadas pelo amigo de ocasião ao condutor da viatura, lá fui eu a caminho da CMR113.
Faço a apresentação, e fico logo a saber que no dia 21 de Dezembro estava de sargento de dia à companhia.

O Jaime Ferreira (em primeiro plano) esteve de sargento da guarda, no dia da visita do General comandante da Zona Militar Leste ao aquartelamento de M´pupa.


Faltava avisar a família que tinha chegado bem, e então lá fui ao centro da cidade de Luanda aos correios mandar o velho telegrama. Não me recordo se foi antes ou depois de o ter feito, encontro-me cara a cara com um colega da escola industrial onde tinha andado (Vila Nova de Gaia), que estava a cumprir o serviço militar em Moçambique e estava a passar férias em Angola em casa de uma irmã. Estava tudo a correr bem. Foi maravilhoso, reconfortante e logo o convite de que se cá estiveres no Natal vais passá-lo comigo.


O Jaime Ferreira a entrevistar o Fernando Pinho (este há muito radicado no Brasil), durante um torneio de futebol em M´pupa. Penso que foi aqui que surgiu a célebre frase: "prognósticos só no final do jogo"


No dia 21 lá estou eu a apresentar-me ao serviço na CMR113. Aqui começa o primeiro infortúnio. Fui ameaçado com uma “porrada” pelo comandante da companhia .
Tudo se passou da maneira seguinte: tinha a formatura feita para o almoço, quando chega junto de mim o cabo cozinheiro e me informa que o almoço estava um pouco atrasado e seria melhor mandar destroçar e voltar a formar um pouco mais tarde, face ao calor que se fazia sentir. Pensando que fazia uma grande coisa, em não ter os homens parados e com o sol a pique, avisei a formatura do sucedido, pedi para não dispersarem muito e mandei destroçar.
Ainda o pessoal não tinha escolhido a sombra quando o comandante da companhia aparece perguntando o porquê da companhia não estar formada.


Bem pequena esta cobra, não?

Respondi-lhe que tinha tomado a liberdade de mandar destroçar na base da informação recebida. Não quis saber, mandou-me voltar a formar a companhia e logo de seguida o aviso para ir ao seu gabinete da parte da tarde.
Imaginem o cagaço. Lá fui eu, como se costuma dizer, de chapéu na mão, falar com o capitão. A ameaça de uma "porrada" foi das primeiras coisas proferidas, mas depois de algumas explicações lá entendeu que não houve desleixo e ficou-se por me aplicar um sargento de dia (à Benfica) na manutenção militar no dia 23 que acabei por não cumprir, porque entretanto chegou a guia de marcha para M’pupa e a partida era precisamente nesse dia.
Foi o melhor, imaginem, que me poderia ter acontecido.

No rescaldo de uma noite de caça

Passei o Natal em Nova Lisboa , a passagem de ano em Serpa Pinto (com o pessoal da 3ª Companhia) e no início de Janeiro lá estava eu em M’pupa, nas "terras do fim do mundo " depois de uma viagem em MVL, na CCS do Batalhão de Caçadores 4611/1972, onde encontrei um grupo extraordinário .

O Jaime Ferreira fazia parte da equipa de caça de M´pupa (apesar de não ser atirador de infantaria, mas sim de transmissões, o Jaime tinha uma pontaria invejável

Depois ,com o decorrer de conversas e mais conversas, fiquei a saber que o neto da senhoria do Sr.Manuel (colaborador do meu pai) afinal era o José Manuel Francês. Por ironia do destino viemos ambos parar às "Terras do fim do mundo".


A já célebre jangada de M´pupa, no Rio Kuito

sábado, 30 de Maio de 2009

O tempo passa sem regresso

(Por Fernando Moreira)


"O tempo passa sem regresso..."
João de Barros
A estrada que ia / vinha da Roça Lucola em 1974

A mesma estrada em 2009 vista no sentido contário

quinta-feira, 28 de Maio de 2009

OH HOME!! BOTA LÁ SENTIDO !!

(Por José Manuel Francês)


Manuel Ferreira Júnior, Capitão do S.G.E., comandante da C.C.S. Uma santa alma acoriana
(Oh home, bota lá sentido !!...)

Quem de nós não recorda com um sentimento de saudade as palavras carinhosas com que o saudoso Capitão Ferreira Júnior se dirigia ao pessoal da sua Companhia? …
Quem não recorda o carinho, quase como se fosse um Pai, com que procurava proteger todos os que “punham o pé na poça”?…
Em aerograma enviado a meus Pais, a 28 Maio de 1973, relatava um episódio vivido com o Capitão, igual a muitos outros que se foram repetindo, ao longo dos dias da nossa comissão…
Estávamos nós em M’PUPA ! Na solidão das terras do fim do mundo .
Tinha chegado o avião, com o nosso correio, com as encomendas que nos eram remetidas pelos Pais e não só…
Ao receber a minha encomenda, enviada por meus Pais … senti de imediato que o Capitão punha o seu “nariz” no ar !
Bolas, ele conseguiu saber antes que eu abrisse a dita, o que lá vinha…

Relatava eu , então o seguinte:

Recebi a encomenda que me enviaram. Obrigado. Qualquer noticia é sempre recebida com muita alegria. As encomendas então fazem-me sempre crescer água na boca… O queijo então “era” fabuloso!
Obrigado.Muito Obrigado ! Pois um queijo assim em M’Pupa é verdadeiramente raro…

O azar é que há muita gentinha a gostar. Então o Capitão é um dos principais clientes !
Quando me viu receber a encomenda disse logo: "Eh! Francês, logo vou à Messe “conversar” contigo !!
Chegou no final da tarde e disse ao entrar: "Não sei porquê, mas cheira-me aqui a queijo do Francês !!"
E pronto. Lá foi mais um a ajudar que rapidamente terminasse…
É um óptimo companheiro e muito Amigo. Gosto dele !


Com este pequeno texto, quero, uma vez mais deixar o meu testemunho e a singela HOMENAGEM a um AÇORIANO de GRANDE CORAÇÃO.

Obrigado Capitão Manuel Ferreira Júnior por tudo o que comigo partilhou.
Pudera eu agora abrir uma nova encomenda e senti-lo connosco !

segunda-feira, 25 de Maio de 2009

Operação Vendas Novas

(Por Fernando Moreira)

video


Entre amigos tudo deve ser comum, especialmente os amigos.”
Teofrasto

Pensei em contar uma história que metesse crianças e heróis, amizades interrompidas, e que terminaria com a citação de um outro Fernando que escreveu um dia algo como;
O homem sonha, Deus quer e a obra nasce
E ao fim e ao cabo tudo se resume a esta simplicidade, a sonhos e ao querer. Sonhos e querer que se materializaram no passado sábado dia 23 de Maio quando ao final de 35 anos consegui voltar ao convívio dos meus heróis de menino e de amizades que se mantinham e não estavam interrompidas, pois eu voltara a ser o Muano de 12 anos e eles os jovens de vinte e poucos.
Conversando com eles e observando-os dei por mim a pensar que estes meus heróis não o eram por terem arrasado com os índios que havia na paisagem, não o eram por terem conquistado cidades, as suas medalhas, aquelas que orgulhosamente ainda ostentam no seu peito são as amizades que contraíram com os seus camaradas de jornada e que ainda hoje mantêm polidas, brilhantes e que orgulhosamente exibem quando passam o braço pelo ombro do seu camarada e se lembram de M´pupa, Serpa Pinto, Fazenda Tentativa, Tabi, Cabinda e Lucola, ou quando, como me referia o Elias em conversa, o diálogo se faz de silêncios. Tudo fez parte... tudo é cumplicidade.
E regressando aos meus pensamentos, no rescaldo da “Operação” dei por mim a pensar que foi decerto isto que me atraiu nesta tropa, estes valores, esta amizade que ainda hoje mantêm viva, este facho que rodam perpetuamente entre eles de modo a alimentá-lo com o seu calor e que decerto se manterá vivo enquanto houver um que o possa fazer.
Mas também queria deixar registo de que o passado dia 23 será mais uma marca na minha árvore de vida, será um entalhe no lado feliz do meu embondeiro, pois regressar ao vosso convívio era algo que até há pouco tempo atrás nada faria supor que tal pudesse acontecer em tão pouco espaço de tempo. Graças em parte ao Fórum do Batalhão 4611, mantido pelo Luis Marques e à disponibilidade do Facas em se ter chegado à frente para organizar o encontro no seu “Kimbo”.
No regresso passei por casa da minha mãe e ao mostrar-lhe as fotos, “ela estava em pulgas”, como podem imaginar, exclamou: “Também estão a ficar velhotes!”
Entendam isto como um elogio...
E aqui estamos, as fotos falam por si, as legendas são só para referência mas gostava ainda de vos dizer que a prioridade hoje continua a ser a de não deixar ficar ninguém para trás, este foi o aperitivo, vamos a ver se em Novembro conseguimos pôr uma companhia a dar um passo em frente e a afirmarem-se presentes! Nem que seja ao som de uma “cornetada” do Silva.
“Conduta Brava e em tudo Distinta” creio que continua a ser o lema que norteia as várias batalhas que se apresentam na vossa vida.




Ponto de reunião
(clica para aumentar)
Da esquerda para a direita, Figueira, Moita, Facas e Brazão. De costas Silva e Cabral
(clica para aumentar)
Vítor Fernandes
(clica para aumentar)

Visita ao museu da E.P.A. (o Bruno Moreira e o Elias)

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Luís Marques, António Moita e João Novo
(clica para aumentar)

As bonitas filhas do Luís Marques (Filipa e Rita)
(clica para aumentar)

Os primeiros tiros...
(clica para aumentar)
Filipe Silva, Elias e Manuel Silva. Os segundos tiros...
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Luís, Novo e Moita
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Matão
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Pensam eles: tanta conversa ao fim de 35 anos...
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Facas, Elias e Filipe
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Hora do rancho
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Outro pormenor

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Outro aspecto do almoço
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Outro ângulo
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Figueira, Duarte, Filipe e Brazão
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Duarte, Filipe, Brazão e Girão
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Cabral, Fernandes, Filipe, Facas, Moreira, Luís, Moita, Novo e Brazão
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domingo, 24 de Maio de 2009

REGRESSO

(Por Luis Marques)




No rescaldo da “Operação Vendas Novas”, iniciativa em boa hora assumida pelo António Facas, ficaram-me na memória as imensas conversas tidas à mesa do “Retiro do Bom Gosto” versando as memórias colectivas de todos nós, quase todas rondando os temas M´pupa, Serpa Pinto, Fazenda Tentativa, Tabi, Cabinda e Lucola.
Ficou patente que em todos está aprisionada uma saudade enorme das terras angolanas, a aguardar (até quando?...) pela sua libertação, seja porque forma for.
Ficaram-me igualmente gravadas as palavras sentidas do Fernando Moreira, confidenciando-nos guardar as cinzas de seu pai “mindele” Moreira com o propósito de as libertar no "Sítio do Vento – Vuku", no Lucola, lugar que ele escolheu para viver e morrer , desejo que a história impediu de concretizar.
Também eu desejo rever essa terra enfeitiçada, e “sentir” novamente o cheiro embriagante que exala da terra quente depois de uma chuvada. Talvez não consiga realizar este desiderato, mas acredito que o Fernando consiga o seu.
A este propósito, leiam o poema “regresso” da poetisa Angolana Alda Lara que se segue:


Regresso

Quando eu voltar,
Que se alongue sobre o mar
O meu canto ao Criador…
Porque me deu vida, e amor,
Para voltar……

Voltar…
Ver de novo baloiçar
A fonte majestosa das palmeiras
Que as derradeiras horas do dia
Circundam de magia……

Regressar …
Poder de novo respirar
(Ó minha terra!)
Aquele ardor escaldante
Que o húmus vivificane do teu solo encerra…

Embriagar uma vez mais
O olhar,
Numa alegria selvagem,
Que o sol,
A dardejar calor,
Transforma num inferno de cor!

Não mais o pregão das varinas,
Nem o ar monótono, igual,
Do casario plano…
Hei-de ver outra vez as casuarinas
A debruar o oceano…

Não mais o agitar fremente
De uma cidade em convulsão,
Não mais esta visão,
Nem o crepitar mordente destes ruídos…

Os meus sentidos
Anseiam pela paz das noites tropicais,
Em que o ar parece mudo
E o silêncio envolve tudo…

Tenho sede…
Sede dos crepúsculos africanos
Todos os dias iguais
E sempre belos,
De tons quase irreais…



Saudades…
Tenho saudades
Do horizonte sem barreiras,
Das calmas traiçoeiras,
Das cheias alucinadas…


Saudades das batucadas que eu nunca via,
Mas pressentia em cada hora
Soando pelos longes,
Noite fora…


Sim!
Eu hei-de voltar,
Tenho de voltar! Não há nada
Que me impeça…
Com que prazer hei-de esquecer toda esta luta insana
Que em frente
Está a terra angolana,
A prometer o mundo
A quem regressa!...

Ah! Quando eu voltar…
Hão-de as acácias rubras,
A sangrar numa verbena sem fim,
Florir só para mim…
E o sol esplendoroso e quente,
O sol ardente,
Há-de gritar
Na apoteose do poente
O meu prazer sem lei…
A minha alegria enorme de poder
Enfim dizer:
« Voltei!...»


Alda Lara (poetisa angolana. Nasceu em Benguela em 1930, morreu em Cambambe, Angola, em 1962)

domingo, 17 de Maio de 2009

Recordações de Angola - 18 (Fazenda Tabi)

(Por António Facas e Luís Marques)


Um domingo de Futebol na Fazenda Tabi, em Fevereiro de 1974 (o Brazão a iniciar a jogada e o Capitão Teixeira de braço no ar a pedir a bola)



O Moita a finalizar a jogada (resultado: de escuro 2, de branco 1)


Uma defesa do saudoso 1º sargento Ribeiro (ao fundo a fiel assistência de sempre)


Ainda no Tabi.
As 2ªs, 4ªs e 6ªs. Feiras saía da Fazenda Tabi uma viatura com destino a Luanda.
Entre outras variadas razões a finalidade era levar o pessoal doente ao hospital militar, tratar assuntos no Grafanil e outros e também servia para levar os “desenfiados”, principalmente às 6ªs Feiras, passar o fim-de-semana em Luanda. Não éramos propriamente os únicos a fazer “isto”, porque encontrávamos muito pessoal das outras companhias e também da C.C.S., ainda bem !! .

A estrada de Ambriz para o Caxito, na zona da Fazenda Tabi


Até aqui todos se lembram? Acho que sim, porque isto era público e só quem não se “desenfiava” eram os pudicos. Mas não conheci nenhum na 3ª Companhia. Aliás conheci um (não interessa o nome) Não menos importante, vinha sempre a maior viatura que tinha-mos para transporte de pessoal, que era uma Mercedes 1924 a gasolina. O condutor habitual para estas andanças era a Veiga (certo?).
A entrada na cidade do Caxito, vinda da Fazenda Tabi
Num daqueles dias, não sei qual da semana, à hora habitual (6 da manhã?) tudo pronto para arrancar, o Veiga vê os níveis de óleo e água, dá ao arranque mas não conseguimos pôr a Mercedes 1924 a trabalhar. O Matão (cabo Mecânico), e os soldados, Gonçalves e o Macedo, utilizando todas as manhas possíveis e anteriormente praticadas, não conseguiram mesmo pôr em marcha a viatura. Foi feito o rastreio de quem necessitava mesmo de ir para Luanda, dando prioridade aos doentes e aos assuntos urgentes e lá fomos num Unimog, o que só veio a acontecer por volta das 8h00 da manhã. Já estávamos atrasados 2h00 em relação à saída habitual que como disse era SEMPRE por volta das 6H00, Isto porque tínhamos o pequeno-almoço para tomar no Caxito.
Depois era para arrancar em direcção a Luanda, havendo o cuidado de não passar junto à Fazenda Tentativa (sede do Batalhão), para não dar muito nas vistas (na realidade, existia um certo respeito. Receio, ou seria apenas para evitar chatices? (vou mais pela última...). Fosse o que quer que fosse, evitar a Fazenda Tentativa era essencial
Tudo bem: lá vão eles para Luanda e entre os destinos certos, estava o almoço no “Amazonas”, depois de tudo o resto tratado.

A estrada Ambriz / Caxito na zona da Fazenda Libonbos, onde se situava o posto de controlo


Um pouco antes de chegarmos à barreira de controlo, numa pequena descida, havia qualquer coisa que não era normal: um jeep da OPVDCA, fora do alcatrão e uns fulanos de braços no ar. Na altura não nos apercebemos o que se tinha, os estava a passar. A nossa viatura apenas transportava doente e nem sequer havia um operacional. Também não levávamos rádio. Também porque havíamos de levar? Nunca tinha acontecido nada digna de registo nas vezes anteriores.
Fomos então informados que tinham sido atacados e até havia feridos. O nosso pensamento (meu?...) foi o de “arrancar” e no primeiro aquartelamento dar notícia da ocorrência, no sentido de se tratarem os feridos e ver “ou apanhar” quem os tinha atacado.


A avenida principal da cidade do Caxito


Como na cidade do Caxito havia uma Companhia de Cavalaria (que eu conhecia por lá termos ido fazer um jogo de futebol de salão) e era mais perto que a sede do Batalhão, na Fazenda Tentativa, foi naquela que demos o alarme. Dado o alarme, partimos para Luanda. Até aqui pensávamos estar tudo bem.


A estrada de acesso à Fazenda Tabi

No regresso à Fazenda Tabi, já ao fim do dia., ou mesmo à noite, chovia que se fartava, estava “montes” de pessoal da C.C.S., armados, nos dois sentidos da estrada, a aguardar a passagem da nossa viatura e com ordens de conduzir o graduado da viatura (neste caso eu) à presença do 2º Comandante do Batalhão (major Moreira) e posteriormente ao próprio Comandante do Batalhão, Coronel Mendonça. Tudo isto se deve ter passado no mês de Março, ou Abril de 1974, porque eu tinha férias marcadas para Agosto desse ano – e isso foi logo ao ar. “Férias, nada, e não vamos ficar por aqui”, palavras secas intimidatórias e ameaçadoras do Coronel Mendonça.
Posteriormente vim a saber que houve troca de mensagens por todo o lado, as quais foram ouvidas pelas transmissões da C.C.S. Bom, o desgraçado do furriel Facas estava referenciado.
Levei uma tal “descasca”, que mais anos que viva não a irei esquecer. Felizmente tudo passou. Não vim efectivamente de férias em Agosto, Mas vim em Setembro, graças ao esforço desenvolvido pelo nosso ex-capitão Teixeira. Depois do regresso de férias ficaram a faltar dois meses para a desejada “peluda”.



Outro aspecto da estrada de acesso à Fazenda Tabi

Reconheci que errei. Que não dei o protagonismo a quem devia, ou a quem queria.
Estamos aqui a recordar estes factos e a pensar que se a tal Mercedes 1924 nesse dia não quis trabalhar e tal facto levou a um atraso de 2 horas sobre o horário habitual, julgo que a emboscada nos era dirigida, caso a tal Mercedes tivesse colaborado e quisesse ir connosco até Luanda
A única coisa que se aproveitou foi o almoço no “Amazona”, porque o pequeno-almoço no Caxito, esqueçam.

sábado, 16 de Maio de 2009

SPM 6676

(Por José Manuel Francês)

Em 15 Abril de 1971, iniciava eu a minha vida militar, jovem imberbe, acabado de deixar pela primeira vez o colo acolhedor de meus Pais, chegando ao RI5 – Caldas da Rainha.
Após uma noite de viagem, dos factos dava conta em carta que meu saudoso Pai foi guardando ao longo da ausência, factos agora reencontrados e revividos.




Sem imaginar que era o primeiro passo de um período longo da minha juventude ( Abril de 1971 a Novembro de 1974 ) que me iria conduzir a inúmeras experiências, ao conhecimento de novas terras e Povos, mas acima de tudo a uma “nova Família”.
Naturalmente, como a todos nós, ex-militares, os primeiros dias foram tenebrosos. Era o habituar a uma nova realidade, um novo ritmo contrário a tudo o que até então se tinha vivido,
na maior parte das vezes, com o anular da vontade e desejo individual, preparando-nos para uma guerra que não queríamos, mas para a qual estávamos praticamente todos condenados.
O levantar, não ao som melodioso da voz de nossas Mães, como estávamos habituados, mas ao som de um clarim nem sempre bem tocado, com o ritmo alucinante de que a partir desse
momento tínhamos que correr, saltar, comer e não descansar, era já o preâmbulo das inquietações que passaríamos a viver.
Depois de uma recruta e do curso de enfermagem acelerado tirado em Lisboa, juntou-se um meio ano dito de especialidade em Elvas, e, já conhecedor de uma mobilização para Angola, fui
colocado em estágio, antes de sair para a formação do Batalhão, finalmente junto de casa no RASP, em Vila Nova de Gaia.
Devo dizer que ainda hoje me pergunto, porquê enfermagem, eu que até estudava “engenharia mecânica” !!
Finalmente, lá me tive que apresentar em Évora, para a formação do Batalhão de Caçadores 4611/72 !
No mesmo dia fui recambiado para Santa Margarida, juntamente com outros para arrancar com os preparativos.


A 10 de Novembro de 1972, escrevia a meus Pais, dando conta de que o embarque para Angola se iria efectivamente realizar, e informando o endereço postal: SPM 6676!



Seria naturalmente extensivo, descrever todos os sentimentos e situações que nos conduziram até ao NATAL de 1972.
Fui procurando “ocultar” o que de menos agradável ia ocorrendo, e transmitindo sempre sensações de bem-estar e alegria.
Naturalmente que recordo hoje algumas situações que me marcaram neste período.
A primeira viagem de avião!
A chegada a Luanda na manhã de 11de Novembro de 1972, onde o calor e humidade então sentida à porta do avião, parecia ser uma barreira a não transpor. O Grafanil e tudo o que ele representava.

Um veterano completamente cacimbado, que aguardava a partida para o “putu” e me ofereceu um calendário que ele tinha feito, e que me acompanhou durante toda a comissão , dizendo-me :
Ò maçarico, só te faltam 730 Dias !!
Em cada manhã a partir desse dia , alterava a contagem decrescente…na esperança de que rapidamente chegasse o dia do regresso.
Foi depois a viagem no MVL desde Luanda até M´Pupa. Foi nesse período que aconteceu o 1º acidente, o Roriz, logo ele, tinha que deixar um dedo anelar ser decepado pelo anel que a namorada lhe tinha oferecido.
Foi o chegar, a um local que se revelou, felizmente, um pequeno paraíso, onde fomos estreitando as nossas relações de amizade e conhecimento.




A "piscina" de M´pupa, no rio Kuito

Foram as caçadas, já descritas neste Fórum! Foi o nascer do espírito, forte , que hoje nos une , foi o contar das horas com o som da cachoeira no rio, onde nos banhávamos, foi o nascer e por do sol, foram os cheiros e as cores, foi a chuva e o frio, foi a interligação com o Kimbo Ganguela que tínhamos paredes meias com o aquartelamento.




O aquarelamento de M´pupa (em primeiro plano o edifício do Comando do Batalhão e ao fundo o posto médico, "reino" do José Manuel Francês)

Foi o jovem João Lupembe Cassela, a quem decidi dar “conhecimentos“ a que ele não tinha acesso. Aprendeu a ler, a dar injecções, a fazer pequenos tratamentos e era um mais na equipa de enfermagem.


Assistência médica às populações, uma das tarfefas executadas pelo José Mauneul Francês e a sua equipa de enfermeiros, entre os quais o João Lupembe Cassela

Acreditem que tenho saudades, do rapaz de então, hoje, espero, feito homem, e que me fez verter lágrimas, quando chegado o dia de partir para a Fazenda Tentativa me pediu:
“ Dotor, leva-me contigo … quero aprender mais. Eu já não posso ficar aqui na M’pupa! “
São palavras que tenho bem guardadas nas minhas recordações.
E entretanto chegou o primeiro Natal, que tendo em conta as condições em que estávamos, se anunciava como triste.
Foi o nosso espírito de grupo, a nossa amizade e a capacidade de criar praticamente todas as condições que permitiu que eu dissesse a meus Pais, que “ até me esqueci que estava em M’Pupa, pois o menino também nasceu aqui!...".



sexta-feira, 15 de Maio de 2009

Batalhão de Artilharia 635

(Por Luís Marques)



Hoje de manhã, ao "abrir" a caixa de correio do Fórum 4611, encontrei a mensagem que abaixo reproduzo.
A mensagem vem de França e foi-nos enviada pelo António Gonçalves Martins Pereira, ex- 1º Cabo nº 2297/63, que prestou serviço militar em Angola na C.C.S, do Batalhão de Artilharia 635, no período de Fevereiro de 1964 a Junho de 1966 (bem "velhinho", portanto).
O António Pereira vive em França (43, Rue de la Poste, 01200, Bellegarde, France).

A mensagem é esta:

"Muito obrigado.
Assim começo a minha mensagem.
Hoje mesmo , 44 anos depois, revejo fotos que me mostram por onde eu andei, desde Fevereiro de 1964 até Junho de 1966. Pertenci ao Batalhão de Artilharia 635 da companhia da CCS. Em 1964 estivemos em Zala, mas uma companhia ocupava Vila Pimpa e outra na Bela Vista. Em Janeiro de 1965 estivemos em Ambriz e Ambrizete, ocupando ao mesmo tempo as fazendas mais próximas.
Quero acrescentar que não tenho saudades da guerra, mas sim de muitos amigos, que nunca mais reencontrei.
Aqui deixo neste vosso site mais um pedido para encontrar alguns amigos de outrora. Aqui deixo o meu endereço se não vos incomoda.
antoniopereiragoncalves@sfr.fr
Uma vez mais muito obrigado por tudo e parabéns.
Um abraço a todos os ex-militares em geral.


Não tenho saudades da guerra
Mas sim de tantos amigos meus
Companheiros de uma longa fada
No melhor tempo da nossa mocidade.

Por entre matas e picadas
Tantas vezes imploramos a Deus
Que nos guiasse até á nossa terra
Ali reencontrar a nossa amada
Para uma união de felicidade."

Pessoalmente estou convencido que a publicação desta mensagem no nosso blogue vai ajudar o António Pereira a encontrar os seus antigos camaradas que com ele estiveram em terras angolanas. O nosso blogue parece ter essa vocação. Vejam o que se passou com a família Sousa Lara e com o nosso Fernando Moreira.
Estou também convicto que os nossos "coca-bichinhos", não vão descansar enquanto não localizarem o rasto do Batalhão de Artilharia 635, nessa montra virtual que é a Internet.

Conto com isso e tenho esperança que em breve poderemos anunciar mais um reencontro.

O e-mail do António Preira é:

antoniopereiragoncalves@sfr.fr

quarta-feira, 13 de Maio de 2009

O reconhecimento da Pátria (que não temos...)

(Por Luís Marques)

A nossa Pátria, para fazer-se amar,
deve ser amável


Edmund Burke, in “Reflexões sobre
a revolução francesa”


Em Portugal, muito recentemente, foram trasladados os corpos de alguns militares (pára-quedistas da Companhia de Pára-Quedistas 121) mortos na Guiné.
Foram transportados no porão de um avião civil, desembarcados sob o maior sigilo e entregues às famílias, tudo isto num aeroporto militar, o de Lisboa (Figo Maduro), longe, bem longe, dos holofotes da comunicação social, que preferiu encolher os ombro e assobiar para o lado, dando destaque a outras notícias que reputa de mais importantes.
Acresce que a trasladação não se deveu a qualquer iniciativa do governo português, mas a um conjunto de boas vontades e empenho de antigos militares, sob a égide da respectiva associação, fiéis ao lema dos pára-quedistas portugueses, "ninguém fica para trás".
Tudo isto 35 anos após a independência daquele país africano.
Vem isto a propósito, se outra razão não houvesse (e há!), das imagens que aqui publicamos no Fórum 4611 que documentam a homenagem prestada pelo povo do Canadá a 6 seis dos seus militares mortos em combate.
Em Portugal, nunca se viu uma homenagem deste tipo a quem dá a vida pela Pátria (sejam Soldados, Polícias ou Bombeiros).
Faz parte da cultura e da educação de um Povo.
Como nos dizia há dias o Fernando Moreira, “Esquecer o passado, não aprender com ele e não o honrando será uma forma dos povos irem perdendo o seu horizonte”.
Continuamos a ser um povo ingrato e ridículo, que em vez de defender quem nos protege, apenas se lançam criticas, por que é moda falar mal do próximo.
Em Portugal só fazemos isso pela Selecção Portuguesa de Futebol, que nunca ganhou coisa nenhuma, embora sejam pagos ao peso do ouro.
Estas imagens mostram bem a diferença de cultura de dois Povos.
Enquanto num país se escondem aqueles que derramaram o seu sangue pela independência e liberdade da Pátria, remetendo os seus restos mortais, “esquecidos”, para a porta das traseiras, e arrumando-os num qualquer saguão, noutro país prestam-lhes a merecida homenagem.
Enquanto isso, os que têm vergonha dos seus verdadeiros heróis, enaltecem os seus mercenários e os “heróis” de pacotilha, pagos a peso de ouro.
Soubesse a Pátria honrar aqueles que por África andaram e os que lá morreram.... Acho que não era pedir demais.


A chegada do avião que transportou os restos mortais dos seis soldados mortos em combate à base militar de Trenton, Canadá
A auto-estrada por onde passou o cortejo fúnebre passou a denominar-se "Auto-estrada dos Heróis"

A partida do cortejo da base militar de Trenton, a caminho de Toronto

Ao longo da estrada milhares de cidadãos vestindo "t-shirts" vermelhas


Ao longo do percurso, os bombeiros com as suas mãos sobre os seus corações


Entre Trenton e Toronto, há 50 pontes, todas elas ocupadas por policias, bombeiros e, especialmente, pelo povo anónimo


A população veio saudar estes heróis


Os cidadãos de Oshawa nas pontes a saudar os seus heróis

um popular anónimo a saudar os militares mortos

O capitão Mark Bossi, que serviu no Afeganistão, tenta conter as lágrimas ao longo da estrada


Seguem-se algumas imagens da cerimónia de homenagem aos três pára-quedistas cujos corpos foram resgatados das suas sepulturas na Guiné pelos seus antigos camaradas.

Quero destacar que a homenagem foi uma iniciativa da Associação de Pára-quedistas e teve lugar na Base Aérea de Tancos. Não foi, portanto, uma homenagem da Nação. Porquê?


Os três soldados pára-quedistas trasladados da Guiné por iniciativa dos seus antigos camaradas:

Soldado pára-quedista António Vitoriano