sábado, 7 de abril de 2012

Episódios de Angola ou as aventuras e desventuras de um militar – 2

(Por José Veiga)



O Zé Veiga em pose de "mercenário"

Episódio 4 – Episódios animalescos :)


Realço dois acontecimentos ocorridos na Coutada do Mucusso: o primeiro foi, quando chegámos ao destacamento pela primeira vez e encontrámos, nas imediações, um grupo de avestruzes residentes, que ás vezes chegavam a entrar até dentro da área restrita, sem que se importassem com os militares, estando já habituados àquele ambiente.

No entanto a partir de determinada altura, uma a uma, foram todas desaparecendo, levando a que o pessoal começasse a ficar intrigado, devido ao estranho da situação. E mais estranho era pois não cheirava a peru no forno nas redondezas.

Um dia o mistério desfez-se pois alguém deu com uma grande quantidade de penas de avestruz nas imediações do destacamento, pelo que chegamos à triste conclusão, que as hienas deram com elas, e não se afastaram enquanto as comeram todas. Ficámos sem a companhia daqueles majestosos animais que não faziam mal a ninguém, antes pelo contrário, pois davam um aspecto diferente ao lugar, no sentido positivo.



O outro, diferente em todos os sentidos, é que tínhamos no destacamento seis cães, uns de raça pastor alemão, outros “arraçados” de outra espécie, todos bem corpulentos, e que bem jeito nos faziam, porque qualquer animal selvagem que aparecesse nas imediações, era logo detectado e afugentado pois o pelotão canino estava sempre em prontidão.

Na Coutada do Mucusso em 1973 com um pastor alemão


Um dia algo se passou no pelotão canino pois os cães passaram de dóceis a raivosos, não obedecendo a ninguém, antes pelo contrário, insurgiam-se contra nós chegando mesmo a atacarem um militar que só não foi ferido porque conseguiu escapar a tempo levando a que o caso do pelotão canino se tornasse um caso difícil e um problema.
Decidiu-se, com bastante pena nossa, pelo abate ao efectivo desse pelotão que bem falta nos faziam pois constituíam um dos meios de alerta, mas não havia alternativa. Ficámos sem os cães, que tal como as avestruzes, já faziam parte da “mobília”.

(…)

Episódio 5 – A minha deserção!!

Este episódio reporta-se à rotação do Batalhão para Cabinda e ao modo como tive de lá chegar para não ser dado como desertor.
...No segundo ano de comissão tive a oportunidade de vir passar férias no "puto", que decorreram entre o princípio de Abril até 3 ou 4 de Maio de 1974!.. Dá-se entretanto o 25 de Abril, e estando sentado na sala juntamente com o meu saudoso PAI, a ver o desenrolar dos acontecimentos este dizia-me então; “… Já não vais regressar a Angola!...”
Mas o que é um facto é que as coisas nunca correm como é desejado e no dia previsto para o regresso a Angola lá embarquei com destino a Luanda e convicto de que iria para o Ambriz!! No Ambriz estaria a minha companhia, julgava eu pois era onde a tinha deixado antes de ir de férias...



A Porta d'Armas do Quartel de Ambriz


Para encontrar de novo os meus camaradas passei por momentos, que pensava... jamais pudessem acontecer!!!!!!!!!!
Imaginem que a minha saga tinha começado quando parti para férias e á chegada a Luanda, pronto para embarcar para Portugal...descobri que tinha deixado os documentos no Ambriz, esquecidos na Companhia!!! O que passei e suei para conseguir marcar uma audiência com o Comd. Geral de Angola, no Quartel-General de modo a dar-lhe conhecimento do acontecido. Foi impecável... bastou um simples papel que ele próprio redigiu, assinou, e chancelou para que eu viesse passar férias a Portugal...
Mas dizia eu que quando tudo corria, deduzia eu, pelo melhor venho a descobrir que o Batalhão e consequentemente a 2ª. Companhia se tinham mudado para Cabinda!!!
Se não me apresentasse seria dado como REFRATÁRIO, ou seja, caso não me desenrascasse corria o risco de ir preso!!!
Depois de várias diligências, acabei por ter que comprar bilhete de avião, com destino a Cabinda e tentar apresentar-me no aquartelamento, que como é de calcular nem imaginava onde se pudesse situar!

 Para meu espanto quando cheguei a Cabinda, tinha um UNIMOGUE, da minha companhia, com o furriel Figueiredo de trms, à minha espera…(não fosse eu fugir)...!!

Em Cabinda em 1974
Quando cheguei a Cabinda já a 2ª. Companhia se tinha deslocado de Lândana para o Yabe, uns quilómetros para lá do aeroporto, a a caminho da fronteira com o Zaire.

Em Cabinda em 1974 com a "Maralha" da C.C.S..


Missão em Cabinda

Uma brincadeira com o nome José Veiga
Visita ao R.I. 16, em Évora, em 2011
Um abraço do
José Veiga

5 comentários:

José M Francês disse...

Vai-se completando a história do 4611, desta vez com mais uma recordação que o Zé nos faz partilhar.
Curiosamente também eu passei por uma fase no 25.04 semelhante... só que não me "perdi" e já nem sei bem como fui informado de que a CCS estava em Cabinda e não na Faz Tentativa...
Abraços para todos

Luís Marques disse...

Meu caro Zé Veiga,
Mais uma vez o meu agradecimento por partilhares connosco as tuas aventuras e desventura por terras de Angola,
Depois destes teus dois últimos relatos falta falares com mais detalhe sobre a tua passagem pelo Ambriz. E certamente tens algo de importante para nos contar.
Recordo vivamente as minhas idas à Coutada do Mucusso (foram para aí umas cinco ou seis) e das minhas idas semanais ao Ambriz, fazendo escolta ao MVL (em Freitas Morna eram divididos em dois. Uma parte seguia para o Ambriz e a outra seguia para Ambrizet).
Que saudades das belas lagostas que todas as semanas comia no Ambriz, num restaurante que se situava do lado direito da avenida que começava (ou acabava, sei lá) na Porta d’Armas do quartel.
Um abraço

Jose disse...

Amigo Zé Francês, eu não me perdi!.. a companhia é que não estava no lugar onde a deixei!!! As consequências, quase foram catastróficas!.. Felizmente, tudo acabou bem... uff...

fmoreira disse...

O José Veiga tem um trabalho extenso sobre a sua vida militar, ou melhor dizendo as suas aventuras e desventuras, está a ser tratado, será de mais valia junto com outros trabalhos que nos foram chegando, e dentro de breve será dado à estampa, como se costuma dizer. Não se falou disto mais cedo pois ainda não se tinha avançado nele. As suas aventuras cruzam com a história do Batalhão numa alegre narrativa. Creio que nem o Luis Marques sabia ainda disto, uma vez que eu ainda não me tinha desbroncado. Aqui fica a inconfidência. O Zé Veiga decerto não levará a mal. 1abc

Luis Marques disse...

Estou bem curioso em conhecer o trabalho que o Zé Veiga tem para ser publicado...Pela amostra já publicada no Fórum 4611, faço ideia...

BATALHÃO DE CAÇADORES 4611/72

BATALHÃO DE CAÇADORES 4611/72
conduta brava e em tudo distinta