sábado, 20 de dezembro de 2014

7 de Dezembro de 1974

(por Luís Marques)

7 de Dezembro de 1974.
Esta data poderá nada significar para quase todo os ex-militares do Batalhão de Caçadores 4611/72.

Porém ela significa muito para 4 desses ex-militares, mais precisamente para o autor desta mensagem e para os ex-furriéis milicianos Carlos Alberto Aleixo Afonso (1ª Companhia), Manuel Duarte de Almeida (2ª Companhia) e Vítor Manuel Fernandes (3ª Companhia).

No passado dia 7, Domingo, à noite, fui surpreendido por um telefonema do Carlos Afonso que me disse: “Ó Luís, sabes que hoje faz 40 anos que chegámos de Angola?”.

Confesso que tal já me tinha ocorrido fugazmente durante o dia, mas ao ouvir o Carlos Afonso recordar-me esse facto, pensei para comigo: “Esta data não tem só a ver comigo. Ela tem a ver com outros camaradas meus que gostarão de ver comemorada a efeméride”.

É verdade, no dia 7 de Dezembro de 1974, nós quatro finalmente chegámos a Lisboa, já toda a gente do Batalhão estava cá à “uma eternidade”…

E qual a razão deste regresso tardio? Nós fomos “os desgraçados” que ficámos encarregues da expedição, da receção e do encaminhamento das bagagens dos militares das respetivas Companhias.

Inúmeros caixotes com aquilo que cada um resolveu trazer como recordação dos dois anos passados em Angola.
Os oficiais tinham direito a um caixote com 1,5 m3, os sargentos podiam trazer um caixote com 0,75 m3 e aos cabos e soldados era permitido transportar um caixote com 0,5 m3.

Dentro de cada caixote vinha toda uma parafernália de objetos e “coisas”. Tudo aquilo que lá cabia e que cada um achava que devia trazer. Os oficiais e sargentos traziam algumas das garrafas de bebidas que fizeram parte da dotação mensal que lhes cabia (garrafas de whisky novo ou velho e garrafas de licores estrangeiros – as que não foram lá consumidas entenda-se).

Depois cada um meteu dentro dos seus caixotes aquilo que lhe foi possível adquirir ao longo de dois anos de Angola. Artesanato, loiça, etc. (neste etc. estava incluído o famoso “pau de cabinda”, bem como - mais rara ou não generalizada - alguma liamba).
Enfim, dois anos de Angola “encaixotados” e prontos para serem embarcados foi aquilo que cada um nos confiou, para depois lhe entregarmos já aqui em Lisboa.

Os furriéis encarregues da bagagem de cada militar a ser expedida para Portugal, vinham com alguma antecedência em relação às respetivas Companhias, para que quando elas chagassem a bagagem de cada um que não podia ser transportada por avão, os tais caixotes, fossem entregue logos de imediato após a chegada das Companhias. Era assim há muito tempo.

Esta certeza (de regressar com alguma antecedência relativamente aos restantes camaradas – havia relatos de “bagageiros” que regressaram com quase dois meses de antecedência) levou-me a oferecer-me voluntariamente para a tarefa. Não sei se com os restantes três se passou a mesma situação, mas tanto quanto me recordo pelo menos um ou dois foram nomeados, como foi o caso do Carlos Afonso. O Vítor Fernandes creio que antes da tropa trabalhara num despachante, daí ter sido considerado apto para a missão.

Mas as coisas não correram bem como nós imaginamos. E aí funcionou uma velha máxima muitas vezes ouvida desde os tempos da nossa recruta: Na tropa nunca te ofereças para nada…
Com o tempo próprio para o despacho das bagagens a passar bem depressa e ainda com as 4 Companhias em Cabinda, mas já numa fase de “descompressão”, começámos a compreender que as “coisas” poderiam não correr tão bem como nós quatro desejávamos.

Ouviam-se rumores diários que os navios da marinha mercante portuguesa – os únicos onde a bagagem dos militares poderiam ser transportadas, por tal carga ser considerada “bagagem militar” – zarpavam de Luanda já bem carregados e nem sequer ancoravam no porto de Cabinda, dado não terem espaço para carregar a bagagem do 4611/72.

Os boatos bem depressa se transformaram em certezas: tão cedo não passaria cargueiro com bandeira nacional no porto de Cabinda.

E é neste cenário, para nós quatro impensável, que, sem nada podermos fazer, assistimos impotentes e pouco serenos à saída das quatro Companhias do Batalhão com destino a Luanda, para de lá regressarem definitivamente a Portugal.


Imagens da 3ª Companhia a sair de Cabinda no final de Outubro, princípios de Novembro de 1974

Os dias seguintes foram passados entre a Capitania do Porto de Cabinda e o Comando de Setor a tentar ouvir a notícia tão desejada: vem aí o navio “tal” para carregar as vossas bagagens. Só que os dias foram passando e a notícia mais apetecida não nos era dada. Antes pelo contrário. As informações eram exatamente contrárias aos nossos desejos e já se apontava para meses – leram bem meses – de espera. De espera pelo “tal” navio que um dia haveria de fundear ao largo do Porto de Cabinda para carregar as nossas bagagens que permaneciam arrumadas no Cais.

Desespero absoluto perante a perspetiva do pesadelo de termos de aguardar meses (ninguém sabia dizer quantos…) pela chegada do “tal” navio.

A nossa tropa já há muito em Luanda e alguma já em Lisboa… e nós com os olhos “pregados” no horizonte à espera, em vão do “tal” barquinho. Os dias pareciam mais longos e a tristeza e a desesperança apoderavam-se de nós.

Foi por esta altura que eu e o Carlos Afonso nos tornámos mais próximos, pois éramos nós dois quem, supostamente vivia aqueles infindáveis dias dramáticos de forma mais intensa. O Duarte e o Vítor Fernandes pareciam mais conformados com a situação (um deles, não sei bem qual, chegou a dizer-nos: ”não me ralo. Quando quiserem que venham buscar os caixotes”).
 
 
Saída de Cabinda das tropas do Batalhão de Caçadores 4611/74


Num dos últimos dias de Novembro, ou nos primeiros dias de Dezembro de 1974, chegou ao Porto de Cabinda um navio de carga italiano (de nome Alberto “qualquer coisa” – recordo o nome Alberto por ser o nome do meu pai), cuja rota programada era Lisboa. Mais: esse cargueiro italiano ia zarpar dentre de dois dias completamente vazio! Só que era um navio estrangeiro e a “bagagem militar portuguesa” não podia ser carregada num navio com bandeira estrangeira…. Resultado do “orgulhosamente sós” de Salazar.

O meu desespero e o do Carlos Afonso levou-nos a tomar uma decisão inédita: prometemos a nós próprios fazer “explodir” as NEP’s (Normas de Execução Permanente”) e embarcar os caixotes no navio italiano!

De imediato entrámos em contacto, através da Capitania do Porto de Cabinda, com o comandante do navio italiano que acedeu (após consulta feita junto do armador) em fazer o transporte, ultrapassadas as questões principais como a questão do pagamento do transporte e outras que para nós eram estranhas.

Contactámos o Duarte e o Vítor Fernandes para os quatro “desgraçados” em conjunto irmos falar com o Comando de Setor no sentido de procurar a necessária autorização (não sabíamos de quem, mas era preciso vir a autorização superior) para que os caixotes fossem embarcados no cargueiro italiano que estava prestes a zarpar em direção a Lisboa, totalmente vazio. Mas o Duarte e o Vítor Fernandes não se quiseram meter em sarilhos e desde logo descartaram qualquer presunção de atuação conjunta.

Mas o Carlos Afonso e eu não desistimos: tomámos o caminho do Comando do Setor de Cabinda e após dizermos qual o nosso propósito, levaram-nos à presença de um major, cujo nome não me recordo.

Após longa discussão sobre os nossos intentos, ouvimos um sonoro NÃO e levámos uma violenta “piçada” e uma reprimenda autoritária: “Os nossos furriéis não estão bons da cabeça! Mercadoria militar só em navios com bandeira portuguesa! Têm a obrigação de saber isso! Fora daqui e aguardem o tempo que for preciso pela chegada de um cargueiro português!”. Chamou um PM e ala moços! Expulsos do Comando de Setor…

Desistir? Impossível! Tão forte era a nossa determinação. Entretanto fomos informados na capitania que o cargueiro italiano zarpava no dia seguinte.

Veio então a decisão amalucada de armar “maca” junto do Comando do Setor. Completamente “enlouquecidos”, pirados, tresloucados, ou lá que quiserem chamar, tomámos a resolução de rumar até lá e se fosse necessário pela força das armas forçar o tal major a contactar alguém superior, em Luanda, em Lisboa, junto do Américo Tomás ou do Marcelo Cetano, fosse de quem fosse, para que viesse a autorização para o embarque dos caixotes!

À entrada do edifício fomos barrados por um furriel que nos queria impedir de entrar, cumprindo ordens do tal major (havíamos informado que voltaríamos). Não teve sorte o nosso furriel e foi completamente arredado do caminho. Galgámos as escadas até ao primeiro andar e entrámos de rompante pelo gabinete do major adentro, que em vão nos deu ordem para nos retirarmos (penso que chegou a dar voz de prisão). Não estava era a contar com a nossa determinação e do ultimato que só dali sairíamos depois de obtida a autorização, nem que fosse do próprio Deus, para o embarque dos caixotes com a “tralha” junta pelos militares do 4611/72, há muito tempo já na peluda.

Depois de uma acalorada troca de “argumentos”, o major acabou por aceder em mandar uma mensagem para Luanda com o relato da situação e pedindo solução para a mesma.

Nós dois ficámos a aguardar… não abandonámos as instalações do Comando do Setor de Cabinda, pois o tempo voava… e o dia de amanhã era já “hoje”.

Passadas algumas horas (sei lá quantas, a mim pareceu-me uma eternidade…) e quando já começávamos a perder a pouca esperança que ainda nos restava eis que o major veio com a notícia por nós tão desejada: “O Alto-Comissário em Angola, almirante Rosa Coutinho, deu-me instruções para tratar do embarque das bagagens dos militares do vosso Batalhão no cargueiro italiano. Vou cuidar disso, convocando de imediato o comandante do Porto de Cabinda”.

A situação dramática em que nos encontrávamos desde o final de Outubro de 1974, num repente, desanuviou-se e encheu-nos de alegria contagiante. Logo as garrafas de Nocal ajudaram a celebrar a vitória que tanto nos tinha custado a alcançar.

O Almirante Rosa Coutinho, o “Almirante Vermelho” como lhe chamávamos, assumiu o cargo de Alto-comissário para Angola em Outubro de 1974, após a demissão do último Governador-Geral de Angola, General Silvino Silvério Marques, ocorrida em Julho.

O cargueiro italiano teve assim de adiar a saída de Cabinda por mais um dia, a fim de possibilitar o embarque dos nossos caixotes. E à boleia levou outra carga que não a nossa. Saiu de lá bem cheio em rota direta para Lisboa.            

Caixotes carregados, nova tarefa: tratar de arranjar embarque no aeroporto de Cabinda em direção a Luanda o mais depressa possível. Mas aqui as coisas correram de maneira diferente, para melhor e dois dias depois de o navio partir, estávamos em Luanda. A pressa em abalar foi tanta, que não ouve sequer tempo de nos despedirmos da bela terra de Cabinda. Os últimos dias foram de tal maneira complicados, que pensámos nunca vir a sentir saudades.

À chegada a Luanda tínhamos à nossa espera o Capitão Manuel Ferreira Júnior (ficara em Luanda, não acompanhando a Companhia por motivos que não me recordo) e   que já estava ao corrente da odisseia em terras de Cabinda, mas estava mais preocupado com as consequências do “sequestro” à força do major e da “tomada de assalto” do Comando de Setor de Cabinda. “Ó home, o que vocês foram fazer?” – dizia ele na sua típica pronúncia açoriana. – “Estão convocados para serem interrogados na PM de Luanda”. Só que não fomos! Ninguém nos veio buscar e nós também não aparecemos lá pelo nosso pé… Fomos, isso sim, até ao Quartel-general da R.M.A. tratar da viagem de regresso ao “M’puto”!

Também aqui tudo correu pelo melhor. Creio que dois dias depois já tínhamos lugar assegurado num “Jumbo” da TAP com destino a Lisboa.

Lisboa, onde chegámos cerca das 8 horas da manhã do dia 7 de Dezembro de 1974.

Mas, como tivemos de aguardar pela chegada do cargueiro italiano (não me recordo da data em que o mesmo chegou) e da receção dos caixotes, ficámos colocados no chamado Depósito Geral de Adidos, na Calçada da Ajuda em Lisboa. Quer dizer: vocês já a gozar a “peluda” e nós já promovidos a 2ºs sargentos, a tratar da entrega ou expedição dos malfadados caixotes…
 

Porta d'Armas do Depósito Geral de Adidos, em Lisboa (calçada da Ajuda)

Para concluir, resta dizer que a nossa passagem à “peluda” só ocorreu em Abril de 1975,no R.I. 16 em Évora, onde finalmente entregámos a identificação militar, nos entregaram um papelinho qualquer que atestava a passagem à “peluda” e fizeram as contas finais daquilo que nos era devido por mais cinco meses de tropa.

Se deixamos aqui este extenso relato sobre o desditoso final de comissão destes quatro elementos do Batalhão de Caçadores 4611/72 é apenas para vocês saberem que as recordações de Angola que “encaixotaram” nuns bocados de madeira em Cabinda (e que segundo alguns se queixaram não chegaram completas aos seus remetentes e destinatários, ou então chegaram com peças danificadas), sem qualquer culpa vossa, diga-se, custaram mais cinco meses de tropa a mim ao Carlos Afonso ao Duarte e ao Vítor Fernandes, para além de muita dor de cabeça e aventureirismo.

Aproveitamos para desejar a todo o universo do 4611/72 um santo e Feliz Natal e um ano de 2015 cheio de coisa boas.

 

4 comentários:

Carlos Afonso disse...

Histórias de uma vida.

Jose disse...

Esperando que este episódio, também com todo o mérito, faça parte da história do Bat. Caç. 4611/72... Acrescentando, que fiquei deliciado ao ler tamanha façanha!.. Digo isto porque também, a chegada a Vila do Conde, da minha caixa com os haveres,passados que foram alguns meses, foi recombolesca...
Desejando também para todo o universo do Bat. Caç. 4611/72 um Santo e Feliz Natal... Luis, para ti esposa e filhas, tudo de bom, é o nosso premente desejo... Um abração amigo.

Luís Marques disse...

Zé Veiga,
Gostava que contasses aqui a "rocambolesca" chegada do teu caixote aí a Vila do Conde.
Tenho escutado vários relatos que vão desde caixotes arrombados e com falta de "material" a loiça que chegou partida.
Claro que durante o carregamento, a viagem e o desembarque dos caixotes nem sempre foi feita nas melhores condições, mas posso garantir que enquanto os caixotes estiveram ao nosso cargo no Depósito de Adidos em Lisboa ouve sempre o maior cuidado e vigilância. Eu ia lá todos os dias (com exceção dos fins de semana).
Um abraço.

Jose disse...

Irei por as ideias em ordem, é claro que contarei a história da minha caixa com os meus haveres, quando estiver concentrado e com inspiração para tal... Não esquecerei!.. Um abç.
Nota: (Só agora tive oportunidade de ler a tua mensagem.)

BATALHÃO DE CAÇADORES 4611/72

BATALHÃO DE CAÇADORES 4611/72
conduta brava e em tudo distinta