sexta-feira, 10 de novembro de 2017

RECORDAÇÕES DE ANGOLA - 11 DE NOVEMBRO DE 1972

(Por Luís Marques)





No dia 10 de Novembro de 1972, já noite adiantada, os militares que integraram a C.C.S do Batalhão de Caçadores 4611/72 embarcaram num Boeing 707 dos Transportes Aéreos Militares (TAM) rumo a Luanda, Angola. Fez ontem precisamente 45 anos.

Ameixa, Godinho, Dário e o Cabecinha no dia da partida de Santa Margarida com destino a Angola


Recordo com saudade a última refeição que nos foi servida na messe de sargentos do Campo Militar de Santa Margarida: um saboroso e enorme bife com batatas fritas e ovo “a cavalo”, e a simpática despedida dos militares da messe de sargentos com o bolo alusivo e o desejo de boa sorte e de um rápido regresso.


O Campo militar de Santa Marqarida

Depois, por volta das 17:00 foi a saída em autocarros até ao aeroporto de Figo Maduro, em Lisboa, numa viagem acompanhada "por alguma neblina, quase uma chuva fraca. Seriam talvez as nossas lágrimas, que, teimosamente, não queríamos que aparecessem", segundo ontem me recordou o Zé Francês.


A maior parte de nós tinha acabado de se despedir da família, das namoradas, dos amigos e ainda conservava nos olhos uma lágrima teimosa que nos reduzia à nossa simples condição de jovens assustados com o que nos estava a suceder, não obstante quase todos procurarem demonstrar o contrário. Na mocetada, havia um estranho sentimento, nunca até então vivido. Um nó apertado estreitava-nos as gargantas, fazendo-nos suspirar profundamente.

Boeing 707 dos TAM que nos levou até Luanda. 




Algumas horas depois despertávamos em Luanda.




A cidade de Luanda fervilhava num ritmo enérgico. Nós militares fornecíamos uma dose importante desse de movimento, juventude e alegria.



Quando chegámos, a todos impressionou a tonalidade avermelhada daquela terra; a quente temperatura daquele dia 11 de Novembro, com um sol radioso, embora ligeiramente escondido sob uma finíssima névoa que logo se dissipou, e um cheiro nunca até então experimentado, porém agradável.




Quantas perguntas fizemos na altura a nós próprios? Quantas interrogações interiorizámos sem obter resposta adequada? Olhando os nativos, que questões inocentes e algumas sem sentido nos bailaram do pensamento? Quase sem querer, aproximámo-nos dos oficiais e sargentos do quadro, já com experiências vividas em anteriores comissões, procurando obter uma resposta, ou um sinal esclarecedor.



Depois de nos instalarmos no Campo Militar do Grafanil, enfrentámos pela primeira vez a cidade de Luanda.

 
Entrada principal do Campo Militar do Grafanil

As casernas do Campo Militar do Grafanil, onde aguardámos alguns dias antes da partida para o Cuando Cubango

A Capela dedicada a Nossa Senhora do Grafanil (erigida num imbondeiro)



Havia a necessidade de trocar os nossos escudos que trazíamos da Metrópole por angolares, numa terra que se dizia que era nossa. Essa troca era realizada mesmo ali na rua junto a uma cervejaria (Portugália), num largo onde ficavam outros dois cafés, o Versailles e o Polo Norte. Era nestes locais que nós nos concentrávamos quando íamos a Luanda e de onde partíamos à descoberta da cidade.



Bem perto ficava o Largo da Mutamba, ponto de partida e chegada das camionetas de transportes públicos para os diversos locais da cidade.



Largo da Mutamba



Percebemos a qualidade de vida patenteada pelos brancos. O seu ar feliz nos fins-de-semana enchendo os cafés e restaurantes nas inúmeras esplanadas, em contraste com os lugares mais lúgubres dos bairros de negros suburbanos (Bairro Operário – ou B.O. – Prenda e o Cazenga), onde às vezes nos deslocávamos, mas sempre acompanhados por outros camaradas. Evitávamos lá ir fardados, porque havia notícias de rixas violentas entre os moradores e soldados (precaução inútil, pois o nosso aspecto não deixava dúvidas a ninguém quanto à nossa condição de militares).



Na marginal, extensa e movimentada, destacavam-se os edifícios mais altos, o Hotel Presidente e o Banco Comercial de Angola, dos quais se tiravam fotos para mais tarde recordar. Também o forte de São Miguel, com vista privilegiada sobre a Baía de Luanda e as praias de ilha do Mussulo eram de visita obrigatória. Era sem dúvida uma terra de indiscutível beleza.
Era a altura em que se tomava conhecimento do bom sabor das cervejas angolanas (EKA, Cuca e Nocal), bem frescas e sempre acompanhadas por pratinhos de saborosos camarões.

O edifício do Banco Comercial de Angola

O Hotel Presidente

 Forte de São Miguel, em Luanda
A Ilha do Mussulo e as suas belas praias. 


Era perfeitamente visível que os serviços menos qualificados eram para os negros, engraxadores, vendedores de lotaria, empregados nas cozinhas dos restaurantes, arrumadores nos cinemas, lavadeiras, e atividades semelhantes. O ambiente era de uma certa harmonia social, apesar da constante presença dos militares.

Avenida dos Combatentes

A maior parte de nós questionava o que estava ali a fazer. Mas, na altura, raros consideraram que estavam a desperdiçar os melhores anos das suas vidas (essa consciência só sobreveio mais tarde). Todos nós, perante o fatalismo que representava a nossa presença naquela terra, preferimos tirar o melhor proveito da situação e dos nossos vinte anos.

A cidade de Luanda à noite.



Ficou em nós a saudade. Sentimento esse que ainda hoje nos faz desejar rever essa terra enfeitiçada, que em todos deixou uma marca indelével.

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BATALHÃO DE CAÇADORES 4611/72

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conduta brava e em tudo distinta