domingo, 7 de dezembro de 2008

Recordações de Angola - 10 (Fazenda Tentativa)

(por Luís Marques)



Terminado o primeiro ano de comissão, em Dezembro de 1973, o Batalhão foi deslocado para a zona de Luanda, concretamente para a chefia do sub-sector do Caxito.


Caxito (avenida principal)


A C.C.S. e o comando do Batalhão ficaram instalados na Fazenda Tentativa, a 1ª Companhia, foi colocada na Barragem das Mabubas, perto do Caxito, a 2ª Companhia ficou instalada no ponto mais distante, a cidade de Ambriz, e, por fim, a 3ª Companhia foi aquartelada na Fazenda Tabi.

Ambriz

A barragem das Mabubas


Fazenda Tabi


Estar perto de Luanda foi como que uma bênção. Uma bênção, porque depois de um ano de total isolamento nas "terras do fim do mundo", poder cheirar, tocar e sentir a pulsação de uma cidade como Luanda, representou como que um prémio colectivo, para quem durante 13 meses apenas conviveu praticamente consigo próprio (sem embargo de todos termos muitas saudades dessas terras maravilhosas, de uma beleza quase intangível, com uma fauna selvagem esplendorosa).


O Vasconcelos e o Francês na Fazenda Tentativa (ao fundo, o Sousa)

O Vasconcelos e a nossa mascote, Piçudo, na Fazenda Tentativa

O Batalhão ficou, pois, bem perto da capital e no caminho para o Norte, onde a guerra colonial se iniciou em 1961. A Fazenda Tentativa fica situada na estrada para Luanda e a cerca de 14 Km das Mabubas. Entre a Fazenda Tentativa e as Mabubas, fica o Caxito, a povoação mais importante da área do Batalhão.


Caxito, Avenida Principal



A Fazenda Tentativa, sede do Batalhão, era naquele tempo uma importante exploração agro industrial. Tinha instalações para todos os trabalhadores, hospital e auto-defesa entregue a milícias. Era, na altura, uma importante produtora de cana do açúcar. Segundo os europeus que lá trabalhavam, as picadas no seu interior tinham mais de 300 Km de extensão.

Fazenda Tentativa (canal de irrigação)



A Fazenda Tentativa surpreendia pela sua grandiosidade. A sua enormidade, as vivendas, as escolas, a igreja, o hospital, a farmácia, o seu cinema ao ar livre, o campo de futebol, a própria fábrica e a vasta alameda que possui, davam-lhe um aspecto de modernidade, muito diferente daquilo a que estávamos habituados.



Fim-de-semana na Barra do Dande, arredores da Fazenda Tentativa


Como a Tentativa, existiam muitas outras explorações na área do Batalhão, como a Fazenda Libongos, sede de uma outra exploração agro pecuária e que na altura constituía o limite do trânsito livre para o Norte e a Fazenda Tabi, também ela uma exploração agro industrial muito importante, possuidora de auto-defesa e uma população trabalhadora muito importante. Esta fazenda produzia principalmente bananas , que eram exportadas para Portugal, bem como óleo de palma e óleo de coco.
A cidade do Caxito era um aglomerado populacional de alguma importância e um centro comercial relativamente próspero. Aqui se ouvia falar dos contactos estreitos da população nativa com os guerrilheiros, o que nos fazia estar mais atentos a pequenos sinais.



A cidade de Ambriz




Apesar da paz artificial que por ali se vivia, não podíamos desprezar a possibilidade de qualquer ataque inesperado e, por isso a circulação de pessoas e bens era condicionada. Essa a razão das constantes colunas de escolta de viaturas civis até à cidade de Ambriz realizadas pela C.C.S. (duas por semana). Sabíamos que os guerrilheiros se movimentavam por aquela zona, sendo uma das sua zonas de reabastecimento. Sabíamos que o Caxito era por eles utilizado para obter produtos essenciais.

A caminho do Ambriz




A cidade de Ambriz, onde foi colocada a 2ª companhia, antes de 1961, foi um importante porto exportador de café, no nosso tempo praticamente desactivado. O desenvolvimento da população estava essencialmente centrado num centro de instrução militar (infantaria) que existia na na cidade, na cultura do algodão e na a pesca, sobretudo a pesca da lagosta (quem não se recorda das saborosas refeições de lagosta - baratíssima - que se comiam em Ambriz), que abastecia generosamente a cidade de Luanda.




Vista da cidade de Ambriz






A 2ª companhia tinha um pelotão colocado em Freitas Morna, um ponto militar estratégico, mas de um total isolamento. Era no "cruzamento de Freitas Morna" que o MVL (Movimento de Viaturas Logísticas), que era por nós escoltado, se dividia entre aquelas viaturas civis que se dirigiam para Ambrizete, mais para Norte, e as restantes que se dirigiam para Ambriz. Situado perto da ponte sobre o rio Loge, Freitas Morna era de extrema importância para manter as ligações terrestres entre o Caxito e Ambrizete. A quem lá ia, impressionava as condições degradantes em que este pelotão vivia, para além do seu isolamento, contrastando fortemente com a realidade do resto do Batalhão. Dava a ideia que aqueles militares faziam parte de uma outra guerra.



Freitas Morna



A 1ª companhia de caçadores foi instalada na Barragem das Mabubas, local de muita beleza. Aqui tudo, ou quase tudo, se centrava na barragem que fornecia energia eléctrica a Luanda e sustenta as águas revoltas do majestoso rio Dange. A albufeira formada pela barragem é muito bela, imponente e alarga-se por vários quilómetros quadrados. Aqui se podiam ver jacarés em abundância. A missão da tropa era proteger a barragem contra eventuais sabotagens por parte dos guerrilheiros, defendendo, deste modo, uma estrutura da máxima importância para a cidade de Luanda. Outro dos atractivos era a curta distância que a separava da capital (60 Km), que se percorria em pouco mais de meia hora.




A barragem das Mabubas



Por último, resta falar da Fazenda Tabi, onde foi colocada a 3ª companhia. Aqui, tal como na Fazenda Tentativa, as instalações da tropa conviviam de forma harmoniosa, com as moradias dos administradores e restantes europeus e capatazes, bem como as restantes instalações fabris. Tal como se disse no princípio, esta fazenda produzia milhares de toneladas de banana por ano, quase toda exportada para Portugal, óleo de palma e coconote.


A Fazenda Tabi



Recordo uma extensa e bela alameda, onde centenas de macacos faziam contorcionismo nas árvores e davam as boas vindas aos visitantes.



Fazenda Tabi

São da Fazenda Tabi algumas das imagens mais chocantes obtidas no inicio da Guerra Colonial, em 1961. Recordo aquelas imagens em que, depois de um ataque surpresa efectuado à fazenda, os guerrilheiros (ao que se dizia drogados) deceparam as cabeças aos trabalhadores bailundos e as espetaram em paus. Os negros assassinados pertenciam ao povo Bailundo, originários do Sul de Angola , que tinham sido trazidos propositadamente para a região dos Dembos pelos colonizadores que os julgavam mais dóceis e facilmente domináveis do que os naturais do Norte. Mas a chacina também não poupou a população branca, tendo, aliás, revestido de especial crueldade a sua actuação junto dela.




Massacre na Fazenda Tabi , Fevereiro de 1961


A 3ª companhia tinha ainda um destacamento na Fazenda Libongos, sede de uma outra exploração agro pecuária e que na altura constituía o limite do trânsito livre para o Norte (era neste local que se dava instruções aos militares que constituíam a escolta das viaturas civis que se dirigiam para o Norte, para introduzirem a "bala na câmara" da G3, colocarem a respectiva patilha na posição de segurança e redobrarem a sua atenção).





A estrada Caxito - Ambriz na zona da Fazenda Libongos



Foi por estes locais, aqui sumariamente descritos, que o Batalhão de Caçadores 4611/72 passou quase 5 dos seus 24 meses de comissão em Angola. Até que o Batalhão foi deslocado mais para Norte, para o enclave de Cabinda, para apoiar a guerra no Sanga e no Miconje. Mas essa é outra história...

8 comentários:

José M Francês disse...

Dar os parabéns ao Luis Marques pelo belo texto e fotos que nos fazem recordar muitos dos detalhes já perdidos na memória, mas que rapidamente se tornam presentes, é a forma mais simples de reconhecer a minha incapacidade de relembrar toda a história viva dos nossos tempos de juventude.
Obrigado Luis pelo teu empenho !

Anónimo disse...

Muito obrigado. Assim começo a minha mensagem. Hoje mesmo 44 anos depois revejo fotos que me mostram por onde eu andei, desde Fevereiro de 1964 até Junho de 1966. Pertenci ao Bart.635 da companhia da CCS. Em 1964 estivemos em Zala, mas uma companhia ocupava Vila Pimpa e outra na Bela Vista. Em Janeiro de 1965 estivemos em Ambriz e Ambrizete, ocupando ao mesmo tempo as fazendas mais próximas. Quero acrescentar que não tenho saudades da guerra, mas sim de muitos amigos, que nunca mais reencontrei. Aqui deixo neste vosso site mais um pedido para encontrar alguns amigos de outrora.
Aqui deixo o meu enderêço se não vos encomoda. antoniopereiragoncalves@sfr.fr
Uma vez mais muito obrigado por tudo e parabéns. Um abraço a todos os ex-militares em geral.

Não tenho saudades da guerra
Mas sim de tantos amigos meus
Companheiros de uma longa fada
No melhor tempo da nossa mocidade.
Por entre matas e picadas
Tantas vezes imploramos a Deus
Que nos guiasse até á nossa terra
Ali reencontrar a nossa amada
Para uma união de felicidade.

Romantonio disse...

Sou o antigo Segundo Sargento Romão António da CART 633 do BART 635. Estive colococado em Vila Pimpa de início e depois em Ambrizete até Junho de 66. Gostaria de contactar outros camaradas que partilharam os bons e maus momentos do 635. Deixo o meu contacto de e-mail (ant-roma@hotmail.com)e espero poder reencontrar velhos conhecidos.
Um abraço artilheiro.
Romão António
Sargento Chefe de Art (Reforma)

custodio romão disse...

caros amigos não os conheço e ando nestas internetes á pouco tempo mas descobri ao acaso estas fotos quero dizer o seguinte é sempre bom recordar bons e maus momentos eu fui um dos felizes contemplados que por ai passei 10 meses no caxito 7 meses em preira ,D´eça +10 em quicabo foi denovembro de71 a fevereiro de74 na CART 3475 coomo condutor auto

Anónimo disse...

Boa tarde e desde ja parabens pelo blogg , tambem eu viajei por essa fazenda do tabi no ano de 1974 , na realidade so tenho boas recordacoes , C. Cav 3487 cordiais cumprimùentos

Franquelino Santos disse...

Antes de mais os meus parabéns pelo vosso blog. Também eu, antes de vós, em 1971, passei alguns meses no paraíso que era Ambriz e algumas semanas no inferno de Freitas Morma. Pertencia à CART 2731. Se quiserem conhecer um pouco da nossa história podem consultar o nosso site: http://cart2731.no.sapo.pt/
Abraço

Luís Marques disse...

Olá Franquelino Santos.
Muito obrigado pelas simpáticas palavras.
já fui ver a vossa história no vosso site.
Gostei imenso e irei visitá-lo mais vezes.
Um grande abraço

Sérgio O. Sá disse...

Caríssimo Luis Marques, boa noite e um bem haja pelo seu empenho em deixar, através desta sua página, mais informações sobre a experiência a que fomos forçados no nosso tempo de meninos e moços.
Também andei por perto da vossa zona desde finais de 1965 até Fevereiro de 1967, altura em que o meu batalhão foi transferido para a região de Maquela do Zombo.
Li e vi com atenção o que aqui colocou e, se me for permitido, gostaria de lhe pôr duas ou três questões sobre aspectos que relaciona com a ponte de FREITAS MORNA.
Os anos passaram e por vezes alguma coisa se nos escapa sobre a realidade de há 40 anos (para mim agora são 50 pelo que posso ser eu estar esquecido).
Para já o cruzamento de que fala, suponho que é o formado pelas estradas Caxito-Ponte F. Morna e Ambriz-Bela Vista-Zala. Ora esse cruzamento ficava mais de 10 km antes da ponte.
Depois refere-se às condições degradantes em que se encontravam os camaradas do destacamento junto à ponte. Eu conheci esse destacamento e até pernoitei lá uma vez, ido de Luanda (Hospital Militar-consulta externa), e não me apercebi de nada a que eu não estivesse habituado, 100 km a nordeste dali, em QUIBALA. Até o camarada Franquelino Santos apelida esse destacamento de inferno. Que diriam se estivessem acantonados no degredo de QUIBALA?
Por último, o Luis Marques refere que a dita ponte transpunha o Loge dando acesso a Ambizete e, acrescento eu, a Bessa Monteiro, Tomboco, São Salvador, etc. Ora cerca de 600 metros depois da ponte, a picada partia-se em duas: a da esquerda para Ambrizete; a da direita para Quibala, Quimaria, Tôto, Bembe, Vale do Loge, Lucunga, Damba, etc.
Aconteceu que, devido falta de reparação dessa via, no tempo em que por lá andei, ela acabaria por ficar intransitável. Mas nós continuámos a percorrê-la tanto em acções e operações como nas idas a Ambriz para reabastecimento de certos consumíveis. Portanto, a Ponte de Freitas Morna fora construída para dar acesso aos distritos de Uíge e do Zaire.
Outra questão é a de ter de haver escolta militar a viaturas civis a partir da fazenda Libongos. Nesse mesmo dia em que pernoitei no destacamento de Freitas Morna, viajei de Luanda até ao dito destacamento num camião civil carregado de provisões, e não fomos escoltados. Será que tive sorte? Talvez! Aliás, numa outra situação parecida, mas pela estrada de Caxito para o Quitexe, haveria de viajar do mesmo modo e nesse dia tive mesmo sorte, pois à hora que passei na zona de PIRI, tive a guerrilha a ver-me e nada fez, para agir minutos depois contra a tropa sediada em PIRI, causando-lhe vários mortos.
Quanto a AMBRIZ, para mim que estava em QUIBALA, era a civilização. As idas lá eram momentos de relaxamento e de esperança. Mas ao mesmo tempo perigosas. Não esqueço que ao sexto deia de QUIBALA, na primeira ida a AMBRIZ, o batismo de fogo foi de mais de uma hora, causando-nos um morto e meia dúzia de feridos.
Tempos que já lá vão.
Cordiais saudações em lembranças de guerra em tempo de paz. sergio.o.sa@sapo.pt

BATALHÃO DE CAÇADORES 4611/72

BATALHÃO DE CAÇADORES 4611/72
conduta brava e em tudo distinta