segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Martins Correia - a saída de Serpa Pinto

(Por Martins Correia)

"A guerra é mãe e rainha de todas as coisas;
alguns transforma em deuses, outros, em homens;
de alguns faz escravos, de outros, homens livres"

Heráclito  de Éfeso (*) in "fragmentos"

À medida que o blog do Fórum 4611 vai sendo actualizado com novos trabalhos, é com grande prazer que o vou consultando. Alguns dos relatos ou fotografias fazem-me recordar os velhos tempos em que estava convosco. Outros porém entristecem-me, porque não os pude partilhar com aquele grupo de amigos excepcionais que levei da “Metrópole” e com aqueles que a nós se juntaram já em Angola. Penso sempre: “Será que eles estão convencidos de que os abandonei e que os troquei por uns tempos bem passados em Luanda?”. Pois bem, não foi nada disso e acho que, utilizando os muitos endereços que já tenho, chegou a hora de contar a todos vós o que se passou e que durante tantos anos me “ficou atravessado”.
Em 1971 fui chamado pela 2ª. vez, para fazer o serviço militar. Na 1ª vez já havia cumprido quase 4 anos (de 1965 a 1969) e tinha estado em vários quartéis. Em todos eles, embora em serviço fosse cumprida a disciplina militar, fora de serviço, no bar de oficiais ou mesmo no restaurante, havia uma grande camaradagem entre todos os oficiais, independentemente da sua patente. Lembro-me que no Regimento de Cavalaria 8, em Castelo Branco, várias vezes a minha despesa do bar me foi paga pelo Comandante e no Regimento de Cavalaria 7, em Lisboa, não têm conto as noitadas que passei a jogar pocker com o 2º. Comandante (que graças a Deus perdeu uns bons continhos, para eu pôr na minha conta bancária…).
Como passei à disponibilidade sem ter ido ao “Ultramar”, fui chamado em 1971, a fim de tirar o C.P.C. (Curso Para Capitães) em Mafra. Eu era na altura Tenente e a boa camaradagem com os outros oficiais, também aí era excelente. Lembro-me que um dos nossos instrutores era na altura o Major Pezarat Correia e que era espectacular. Já depois do 25 de Abril de 1974, me encontrei várias vezes com ele em Luanda e continuava a mesma pessoa com quem dava gosto conviver.

Terminado o curso em Mafra, fui fazer no início de 1972 um estágio junto dos “Rangeres” em Lamego. Era Comandante do quartel o nosso conhecido Tenente-coronel Mendonça. Como ele já faleceu, não quero estar aqui a adjectiva-lo. Só tenho pena de ele ter falecido sem eu ter tido a oportunidade de conversar um dia com ele. Para se fazer uma ideia do seu comportamento para com os outros oficiais, fosse ele miliciano ou do quadro, só quero aqui lembrar as figuras caricatas às horas das refeições (almoço e jantar): Por mais fome ou pressa que os outros oficiais tivessem, ninguém entrava no restaurante sem entrar primeiro o Tenente-coronel. Quando ele chegava ao bar, todos os oficiais, sem excepção, se punham em sentido e só depois de ele entrar no restaurante, é que todos os outros podiam entrar. O seu comportamento demonstrava uma arrogância e um desprezo por todos os inferiores sem qualificação. Numa dessas alturas houve um de nós que disse: “Soube que o Tenente-coronel Mendonça está para ser mobilizado este ano, portanto vai calhar a alguns de nós. Esses vão estar bem lixados”. Mais tarde, quando fui mobilizado e soube o nome do meu comandante de Batalhão, “fiquei para morrer”. Tinha que me calhar a mim!!!...






O Coronel Mário Hernâni Vasques de Mendonça (ao centro)  durante uma visita de militares sul-africanos ao comando do Batalhão, em M'pupa



Já em Abrantes e com o Batalhão formado, estava eu no bar com os outros 2 Capitães operacionais do Batalhão (Esteves e Read) e um deles disse: “Já vistes que o Mendonça só fala com patentes superiores ou, quando muito com majores e capitães do quadro e não liga nenhuma à malta? Quando sairmos daqui e formos para Santa Margarida e depois em Angola fazemos-lhe o mesmo, que ele não há-de ter com quem falar. Conversas com ele, só de serviço.” Todos concordámos, mas já em Santa Margarida, de vez em quando, lá via o Esteves ou o Read no bar a dar conversa ao Tenente-coronel Mendonça. Eu mantive o combinado e, conversas, só de serviço. Nunca gostei de pessoas importantes, até porque, para mim, não as há mais importantes do que eu e, mesmo assim, eu nunca gostei de me armar em mais importante do que os outros. Aliás sempre gostei de ajudar os outros, de modo a que os outros possam sempre ver em mim um amigo e alguém igual a eles.
Foi assim que, logo em Santa Margarida, eu e o Tenente-coronel Mendonça entrámos em rota de colisão. Foi aí que comecei a prever que todos vocês iriam ser prejudicados por minha causa. Lembro-me de eu vos obrigar a cumprir as actividades previstas em planeamento (algumas vezes coisas sem interesse nenhum), porque já sabia que tinha o Tenente-coronel à “perna”. Várias vezes fui chamado perante ele para me chatear, porque havia uns quantos grupos de militares que andavam por ali à “balda” sem fazer nada e não cumpriam os planos previstos. Todas as vezes tive o prazer de lhe dizer cinicamente que ele ainda não conhecia o pessoal dele e que aqueles militares não eram da minha companhia. Portanto se queria ralhar com algum comandante de companhia que ralhasse com o Esteves ou com o Read.

  O natal de 1972 em Serpa Pinto

Entretanto vamos para Angola e a situação agrava-se. À nossa chegada a Luanda tive de passar 2 ou 3 dias no Quartel General a receber instruções e documentação. Logo aí tive a informação de que o “meu Amigo” me quis tramar e portanto a vós todos também “por tabela”. No Quartel General determinaram que a 3ª Companhia ficaria em Serpa Pinto, porque eu era o Capitão mais antigo do Batalhão. Porém o Tenente-coronel queria a toda a força pôr-nos, salvo erro no Cuito ou em Mavinga, mas no Quartel General impuseram-lhe que ficássemos em Serpa Pinto.

Já em Serpa Pinto, soube que as companhias operacionais anteriores à nossa nunca fizeram operações. Serviam só para defesa do Sector, patrulhamentos na zona e apoio às colunas de reabastecimento. A nossa companhia seria para fazer o mesmo. Porém, depois de muita insistência do Tenente-coronel Mendonça, junto do Brigadeiro, Comandante de Zona, este cedeu.




O Capitão Luís Martins Correia em frente à Secretaria da 3ª Companhia


Assim, no dia 29 de Dezembro de 1972, o Tenente-coronel Mendonça, foi a Serpa Pinto e chamou-me, para me comunicar que nos primeiros dias de Janeiro eu iria sair para uma operação com 3 grupos de combate com a duração de 3 semanas. Aceitei a notícia e pus-me a escrever à minha mulher, para ela, durante essas 3 semanas, não esperar correspondência minha.




O alojamento dos oficiais em Serpa Pinto (José Manuel Duarte, Luís Martins Correia e Filipe Silva)


Enquanto eu estava a escrever o aerograma, estava a assistir a um duelo renhidíssimo, entre a então Alferes Duarte, que partilhava o quarto comigo, e um bravo mosquito que teimava em não se deixar matar. No meio daquela luta interminável, tive que “admoestar” o Alferes Duarte, perguntando mesmo que “raio de Alferes” me tinha saído, se nem um mosquito era capaz de matar!!!… Entretanto fui-lhe dizendo que, quando eu acabasse de escrever o aerograma, eu mataria o mosquito. E assim foi. No fim da escrita, armei-me com a minha almofada, pus-me em cima dos pés da cama, fiz pontaria ao mosquito, dei um pulo em direcção a ele e…pum!... disparei a almofada. O tiro foi certeiro e o mosquito veio parar morto ao chão. Mas eu, como não podia ficar indefinidamente no ar, também tive de vir para o chão. Só que no fulgor da luta, eu não preparei bem a minha retirada e fui aterrar em cima da minha mala da roupa que estava aos pés da cama. Um dos meus pés ficou meio em cima da mala meio de fora e torci-o com muita violência. Fiquei completamente KO, sem poder pôr o pé no chão. No dia seguinte de manhã, tinha o pé com dores terríveis e todo preto e, coxeando muito, fui falar com o Tenente-coronel Mendonça, contando-lhe tudo o que acontecera e dizendo-lhe que eu não poderia ir naquela operação. A resposta foi: “Vai sim senhor”. “Mas eu não consigo andar”- dizia-lhe eu. “ Vai na mesma e, quando já não puder andar mais, será evacuado de helicóptero”. “ Mas então terei de ser evacuado logo à partida, porque eu não consigo andar”- retorqui-lhe eu. “Vai na mesma”, continuava ele a dizer. Eu dei a conversa por terminada e fui para o hospital. Contei tudo ao médico, que ficou espantado com o procedimento do Tenente-coronel Mendonça e disse: “Então vai na mesma? Oh! nosso cabo, engessa aqui o pé do nosso Capitão. Agora ele que o mande para a operação…” E no final pediu a minha evacuação para Nova Lisboa.
 



Martins Correia no Quimbo de Serpa Pinto


Logo que regressei de Nova Lisboa, o médico pediu a minha evacuação para o Hospital Militar de Luanda, onde eu já tinha tudo preparado, para passar aos serviços auxiliares, porque “a corda tinha partido”. Ainda a comissão estava no início e já o nosso Tenente-coronel estava a ultrapassar todos os limites. E, por causa da “vontade que ele me tinha”, estavam todos vós a pagar também com mais operações. Não achei justo e não me restou outra solução que não fosse sair daquele Batalhão.



Martins Correia em Luanda



Estava eu no Hospital de Luanda (onde estive 3 meses) e soube por um de vós, que foi a Luanda tratar de assuntos da Companhia, que estava planeada uma operação com 3 grupos de combate da nossa companhia para uma data próxima e com a duração de 3 semanas, porque nessa altura já previam que eu tivesse regressado a Serpa Pinto.
O dia da operação chegou, mas eu continuava em Luanda. Soube depois por outro de vós que foi a Luanda, que tinham adiado a operação por um mês, porque nessa altura eu já lá estaria. Mas eu continuei a não estar e o nosso Tenente-coronel adiou-a por mais um mês. Já não me lembro se a operação foi feita. Suponho que sim e que foi o então Alferes Filipe que me substituiu. Eu, quando voltei a Serpa Pinto, já ia como Capitão Auxiliar e a aguardar nova colocação.



Os Capitães Read e Esteves e um grupo de militares da 1ª Companhia no dia da despedida do Martins Correia de Serpa Pinto



Tinha na altura a promessa de um General de Luanda que eu aí iria ficar colocado. Mais tarde foi-me dito que essa decisão teve de ser alterada, porque o nosso Tenente-coronel enviara para o Quartel General informações péssimas a meu respeito e, para não dar muito nas vistas, mandaram-me para uma C.C.S. que estava a acabar a comissão, com a promessa cumprida de que depois seria colocado em Luanda, como fiquei.


Mulher e filha do Ex-capitão Luís Martins Correia em Serpa Pinto (o Martins Correia só conheceu a sua filha, nesta altura)


Passei bons tempos em Luanda, mas também tenho muito boas recordações do Toto, para onde fui viver com a minha mulher e a minha 1ª filha. Quis o acaso que, no dia em que eu saí de Serpa Pinto, apareceu-me lá de surpresa a minha mulher, para me mostrar a minha 1ª filha que eu ainda não conhecia. Porém, também ela não sabia que eu me vinha embora nesse dia e por isso fomos os 3 rumo ao Toto.



A despedida de Martins Correia de Serpa Pinto (um Grupo da 1ª Companhia)



Éramos os únicos a viver numa casa fora do quartel e recordo com graça as vezes que à noite, quando regressava a casa, altas horas da noite, depois de uma patuscada no quartel, deparava com uma G3 apontada a mim, quando eu abria a porta. Recordo ainda um MVL ao Vale do Loge, onde eu me integrei e levei a minha mulher comigo, deixando a filha no Toto. Ainda estou a ver a cara de pânico da minha mulher, quando, a meio caminho numa zona de floresta densa, se ouviu um tiro.
Recordo ainda as aulas de tiro com pistola que, sem sucesso, eu dava à minha mulher. A 5m de distância, não conseguia acertar num vulto humano. Era um caso perdido.

Recordo também as vezes que eu saía muito cedo de casa vestido de camuflado e regressava muito tarde, dizendo à minha mulher que ia para a caça, quando na verdade eu pedia ao Comandante de Batalhão, para me deixar ir integrado na companhia operacional que lá estava, para ir fazer acções de patrulhamento em zonas onde havia muitos carreiros de passagem de guerrilheiros.

E são estas recordações que me fazem sentir pena que não as tenha vivido com todos vós e que não tenha vivido também convosco as vossas recordações reproduzidas em tantas fotografias e histórias que enviais para o nosso blog. E tudo isto por causa do espírito arrogante e prepotente do nosso Tenente-coronel Mendonça. Nunca lhe perdoei.


Há alguns meses atrás encontrei-me num almoço dos antigos alunos de Castelo Branco com o Coronel Amaro (na altura Capitão Amaro do nosso Batalhão). Só passados estes anos é que o voltei a encontrar e nem sabia que ele também tinha sido, como eu, aluno em Castelo Branco. No meio da conversa é que nos reconhecemos como tendo pertencido ambos ao Batalhão 4611 e veio à baila a conversa da minha entorse no pé. Segundo ele, era do conhecimento geral que eu tinha torcido um pé de propósito, para não ir à operação!!!... Passado todo este tempo, não imaginam a indignação que senti naquele momento. É revoltante como o nosso Tenente-coronel Mendonça fez passar junto dos outros esta calúnia, para me difamar. Se ele fosse vivo, naquele dia teria ido falar com ele.

Mas o certo é que, por causa do comportamento do Tenente-coronel Mendonça, vi-me obrigado a separar-me de vós, porque deixei de o poder suportar e porque de modo algum vocês poderiam a estar a ser castigados por minha causa.

Tenho consciência de que sempre vos tentei ajudar. Se o não consegui, aqui fica o meu pedido de desculpas. Sei que o nosso 1º Sargento Campos às vezes não ficava nada satisfeito comigo, porque eu não dava os castigos que ele queria e autorizava certas coisas que eu próprio sabia que não podia autorizar. Lembro-me, por exemplo de um pedido do soldado Miúdo. Veio ter comigo, dizendo que tinha sido anteriormente castigado e portanto naquele ano não podia ir de férias e já não via a família há 1 ano. Chamei o 1º Sargento Campos e disse-lhe que tirasse o Miúdo da escala de serviço e lhe passasse um papel de licença. Lembro-me da cara de chateado do 1º Sargento, mas era largamente compensador ver a cara de felicidade do Miúdo. O 1º Sargento Campos que me desculpe.

Espero que, com este meu desabafo, tenha ficado bem claro nas vossas mentes que nunca vos abandonei, que sempre tivestes em mim um amigo, que teima em ser sempre vosso amigo e com quem podereis contar sempre. A história de torcer um pé de propósito, para não ir numa operação, não passa de um calúnia aberrante, sem pés nem cabeça. Felizmente o Duarte poderá comprovar tudo isto e o aerograma que naquele dia escrevi à minha mulher também.




Um grande abraço para todos do amigo


Martins Correia

(*)  Heráclito de Éfeso- foi um filósofo pré-socrático que recebeu o cognome de "pai da dialética". e a alcunha de "Obscuro", pois desprezava a plebe, recusou-se a participar da política (que era essencial aos gregos), e tinha também desprezo pelos poetas, filósofos e pela religião. Sua alcunha derivou-se principalmente devido ao livro (Sobre a Natureza) que escreveu com um estilo obscuro, próximo a sentenças oraculares..

8 comentários:

Jorge Correia disse...

O nosso 1º comandante Martins Correia merece até hoje a nossa estima e consideração, pelo seu nobre carácter, integridade e amizade que sempre nos dedicou e sei que isto que digo é um sentimento comum já por diversas vezes manifestado.
De facto ficámos mais pobres com a sua ausência da companhia, pois infelizmente o seu substituto era a antítese destas características atribuídas a Martins Correia. O novo comandante começou logo por agredir fisicamente o Furriel Lopes e ao longo da comissão demonstrou a sua boçalidade e truculência em variadas ocasiões. Foi pena.

Abraço a todos e um em especial ao ex-capitão Martins Correia

Luis Marques disse...

Meu caro Martins Correia,

Eu fui militar da CCS. Tive vários contactos os meus camaradas da 3ª Companhia, mas, na verdade, em relação a si era um vazio total. Não sabia bem decifrar porque é que nada me lembrava o comandante da 3ª Companhia. Está aqui a explicação.
Comungo por inteiro a sua opinião sobre o Tenente-Coronel Mendonça. Conheci-o bem. Tirei o curso de Operações Especiais de Abril a Julho de 1972, na altura em que ele se encontrava a comandar o Centro de Intrução de Operações Especiais e precisamente quando o Martins Correia lá se encontrava a estagiar. Certamente os nossos caminhos cruzaram-se naquele tempo.
O retrato que faz do Tenente-Coronel Mendonça é bem nítido. Depois, tive a desventura de lidar e viver bem perto dele durante mais de dois anos.
Quanto a mim foi um daqueles militares que não deixam saudades nas tropas que comandam, pois fazem-no escolhendo alvos em que descarregam as suas frustrações. Exercem a politica da vingança e da perseguição pessoal. Tornam a vida dos seus comandados num inferno, não olhando a meios para conseguirem levar as represálias até ao final. Estou convicto que a 3ª Companhia iria sofrer na pele o ódio que o Sr. Mendonça nutria por si.
Felizmente eu não fui alvo dessa inimizade. Penso até que ele nutria uma certa simpatia por mim (fui instruendo no 2º curso de Operações Especiais de 1972 e ele recordava-se disso, pois até me entregou pessoalmente um “prémio” no final do curso), mas assisti a imensos actos de hostilidade para com outros camaradas.
Como epílogo da sua "brilhante" actuação, todo o Batalhão foi por ele "oferecido" para ir para Cabinda, dar o "corpo às balas". Felizmente os acontecimentos históricos que se seguiram (o 25 de Abril) não permitiram que algo de mal nos sucedesse. Mas não por vontade dele...
Em todo o caso, acretito que tenha sido para si um fardo pesadíssimo viver estes 36 anos com o pensamento na ideia errada que os militares por si comandados em Serpa Pinto possam ter tido do seu capitão.
Finalmente conseguiu deixar esse peso...
Bem haja por ter partilhado connosco este desabafo.

José M Francês disse...

Li e senti emoção ao faze-lo.
Primeiro porque só um grande Homem é capaz de tal gesto.
Não te conheci ( deixa que te trate assim ) mas é grande a estima que sinto.
Foi com Homens capazes deste tipo de gestos, que hoje é possível sentirmos a ligação e amizade que existe.
Fui o Furriel enfermeiro da CCS !
Fui obrigado a “levar com o Cor. Mendonça “ todos os dias, praticamente… Sei bem avaliar o que sentis-te, pois tal como disse o Luis eu também me “sentia protegido” por ele, que achava que eu tinha “perfil militar” !
Como se enganou !
A minha forma de pensar, bem viva ainda hoje , é completamente adversa ao dito espírito…
Tive, contrariamente ao que aconteceu contigo, a “sorte” de me ter cruzado uma ultima vez com o Cor Mendonça, de luto pelo falecimento
Da esposa , numa rua do Porto.
Foi ele que se dirigiu a mim, e depois de uma troca de palavras , ele foi capaz de dizer, que se calhar não tinha agido da melhor forma connonsco quando eu lhe falei de alguns gestos então praticados.
Terá sido uma forma de se “penitenciar” ? Talvez.
Por mim está perdoado e que repouse em paz!
De uma coisa estou certo, é que ele não era o único mau da fita !
Ainda hoje , muitos dos milicianos , estão distantes e não perceberam o que de rico ficou entre nós!
Falo relativamente aos oficiais milicianos da CCS ! É incrível, mas eles beberam em quantidade a “poção do Mendonça” !
Ressalvo o Rodrigues, que esse sim , soube e sabe viver a nossa amizade.

Abraços solidários e parabéns ao Martins Correia, pela grandeza do seu gesto.

Luis Marques disse...

A propósito daquilo que Martins Correia escreve neste texto, na parte em que refere que em Santa Margarida era constantemente chateado pelo então tenente – coronel Mendonça por causa da atitude da 3ª Companhia, que segundo este era uma atitude desleixada ao que Martins Correia retorquia que não era a companhia dele, mas talvez a 1ª ou a 2ª, acaba de me ocorrer à minha lembrança um episódio por mim protagonizado em Santa Margarida, durante a nossa permanência a aguardar embarque para Angola:
Um dia sou chamado à presença do capitão Amaro, comandante de operações do Batalhão, que estava acompanhado do então aspirante miliciano Gouveia, meu comandante de pelotão. O capitão Amaro, deu-me as seguintes instruções: nessa noite, lá mais para e madrugada (3 ou 4 da manhã), deveria ir fazer um “golpe de mão” ao acampamento da 3ª Companhia, que estava distanciado do nosso alguns quilómetros. Referiu-me que o comando suspeitava que a guarnição montada pela 3ª companhia não seria a mais conveniente.
Eu, acompanhado de um grupo restrito (8 ou 10 militares) deveria aproximar-me do local onde a 3ª havia montado o bivaque, fazer um reconhecimento sumário das condições de segurança montadas e flagelar o tal acompanhamento com alguns disparos e rebentamentos de granadas (bala simulada e granadas de instrução, nada de suposições); se possível fazer alguns prisioneiros, nomeadamente entre as sentinelas.
Assim fiz. Aproximei-me o mais que pude do local, com o intuito de cumprir as instruções. Mas, a “coisa” não correu bem para o nosso lado, pois houve alguém entre os militares que eu levava e que fazia a aproximação ao acampamento por outro ponto, não muito distante, que se precipitou, dando azo a que todos os restantes começassem a “disparar”, antes de tempo. É claro que da parte no IN (leia-se 3ª Companhia) houve pronta reacção e o tão “bem planeado golpe de mão” foi abortado à nascença, tendo o meu grupo batido retirada, depois de ter feito mais alguns “fogachos”.
Em consciência não me apercebi de qualquer má ou deficiente segurança por parte da guarnição da 3ª companhia e foi isso precisamente que relatei ao capitão Amaro, tendo notado da parte dele incredulidade e até uma ligeira insinuação de aselhice na minha actuação. Que podia eu, simples cabo miliciano, retorquir? Claro que neguei a tal aselhice e reafirmei nada ter encontrado de censurával por parte da guarnição.
Agora, ao ler o texto de Martins Correia, associo esta “missão” à vontade do comandante em apanhar “em falso” a 3ª Companhia.

Egídio Cardoso disse...

Foi com alguma surpresa que, ao dar com o vosso blog, me apercebi do nome do vosso comandante em 1972.
É que, nessa data, o meu batalhão (B.Caç. 3857) estava no Cuito Cuanavale. O seu comandante era tenente-coronel e também se chamava Vasques de Mendonça.
Contudo, este era Rui Aberto enquanto o vosso era Mário Hernani.
Seriam Irmãos?
É que, quando o Martins Correia descreve o perfil quezilento do comandante, juro que estava a ver o retrato do comandante do meu Batalhão. Será que os manos estavam um ao pé do outro, ou estamos a falar da mesma pessoa?
São muitas coincidências. O 3857 esteve no Cuito Cuanavale de Novembro de 1971 a Maio de 1973, saindo dali para a Fazenda Tentativa, onde acabou a comissão em Dezembro deste ano.
A minha companhia (C.Caç. 3441) estava na Neriquinha e passou para as Mabubas. Temos um blog, onde contamos as nossa histórias. (http://angola3441.blogspot.com)
O curioso é que há pouco tempo postei uma história com o título "Comandantes", onde falo das características do Ruizinho, nome que demos ao Comandante Rui Mendonça.
O Comandante da 3441 (capitão Cabrita) também colaborador do blog, escreveu um livro (Capitães do Vento) onde, para além de contar a história da nossa passagem por ali, também não é meigo para com o comandante.
Se não eram irmãos, estavam equipados com o mesmo tipo de bilis.
Saudações.

jorge correia disse...

Egídio,...eram efectivamente irmãos. Nós da 3ª companhia que estávamos em Serpa Pinto fazíamos muitos MVL na rota Cuito Cuanavale, Mavinga, Dima N´rriquinha e Rivungo e quando chegávamos ao Cuito ouvíamos muitas histórias do comandante do Batalhão, que era irmão do nosso comandante, os irmãos Mendonça portanto.

Abraço!

FValente disse...

Caros Amigos,
Gostei muito, mesmo muito, do artigo/esclarecimento do Correia. Está muito bem escrito e esclarece o que muitos não sabiam. Parabéns!
FValente

Anónimo disse...

O seu artigo denota uma triste fixação para com a melhor pessoa que já tive o prazer de conhecer.O senhor sim, aparenta ser um verdadeiro cretino fascista juntamente com a corja militar ignorante que da sua opinião partilha.

BATALHÃO DE CAÇADORES 4611/72

BATALHÃO DE CAÇADORES 4611/72
conduta brava e em tudo distinta